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“Aprendi a conviver com o lobo que vive em mim”

O testemunho da Irmã Elivânia e a força de quem enfrenta o lúpus com fé e esperança

Foto: Arquivo pessoal

A história da Irmã Elivânia Ferreira dos Santos com o lúpus começou de forma silenciosa, quase imperceptível. Em 2010, durante uma missão no interior de Pernambuco, surgiram as primeiras dores nas articulações. Nada que, naquele momento, indicasse a gravidade do que viria depois. Exames iniciais não apontavam alterações significativas, e o diagnóstico ainda era incerto. O corpo, porém, já dava sinais de que algo não ia bem.

No fim de 2011 e início de 2012, a doença se manifestou com força. Vieram a fadiga intensa, a fraqueza muscular extrema e a perda progressiva dos movimentos. Em pouco tempo, a religiosa não conseguia mais caminhar, falar, engolir ou realizar gestos simples do dia a dia, como pentear o cabelo ou calçar uma meia. Transferida de Recife para São Paulo, chegou de cadeira de rodas e foi imediatamente internada. Foram semanas no hospital, ainda sem diagnóstico definitivo, até que, com o acompanhamento de um reumatologista, veio a confirmação: lúpus.

Com as irmãs de Congregação: Ir. Mery (Brasil), Ir. Camila (Coréia), Ir. Roseline (Quênia) e Ir. Janete (Brasil). Foto: Arquivo pessoal

O tratamento foi longo e exigente. Durante cerca de oito meses, Irmã Elivânia passou por sessões de fisioterapia, fonoaudiologia e medicação intensa para recuperar movimentos, fala e autonomia. “Foi um reaprender a viver”, recorda. A doença, que pode permanecer adormecida por anos, havia “estourado” de forma agressiva.

Mesmo após a recuperação, o medo de novas crises passou a fazer parte da rotina. O lúpus, como ela mesma define, é “um amigo que também pode se tornar inimigo”, já que faz o próprio sistema imunológico atacar o corpo. O cuidado constante, a atenção aos sinais, a fidelidade ao tratamento e o respeito aos limites tornaram-se indispensáveis.

Estudos interrompidos em Roma por conta da doença. Foto: Arquivo pessoal

Anos depois, durante um período de estudos em Roma, uma nova crise (ainda mais grave) trouxe complicações nos pulmões, coração e rins. Foram dias de UTI, dependência de oxigênio e a ameaça de intubação. “Quando consegui respirar sozinha novamente, foi uma sensação de vitória”, relembra. Para ela, cada pequeno avanço era um milagre cotidiano.

No meio da dor, a fé foi sustento. Houve revolta, questionamentos e medo, inclusive em relação à própria vocação religiosa. “Cheguei a pensar em desistir, achando que daria trabalho às irmãs”. Com o tempo, porém, veio a compreensão de que a vocação também se vive na fragilidade. “Ser paulina é ser paulina sempre, mesmo na debilidade”.

Comemorando o aniversário no hospital ao lado da irmã Elicilene e da amiga Iranilce. Foto: Arquivo pessoal

Hoje, Irmã Elivânia afirma que o lúpus a tornou mais humana, mais próxima da dor do outro e mais sensível à vida. Aprendeu a respeitar o próprio ritmo, a cuidar do corpo e do emocional, a fazer as pazes com a doença e consigo mesma. “Conviver com o lúpus é um exercício diário de paciência e aceitação”.

A quem também enfrenta a doença, ela deixa uma mensagem de esperança: “Não permita que o lúpus te impeça de viver. Ele não tira a liberdade, abre novos horizontes. É possível conviver com ele e ter uma vida saudável”, finaliza. Seu testemunho é prova viva de que, mesmo em meio à dor, a vida pode florescer — com fé, cuidado e coragem.

 

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