Arassari Patajó, cacique da Aldeia Tatuí. Foto: Viviani Moura, fsp
Em entrevista, Arassari Patajó, cacique da Aldeia Tatuí, graduado em Direito, professor e pós-graduando em Educação Indígena, defende que a restauração ecológica e a preservação das florestas dependem da proximidade com a terra e do reconhecimento da ciência ancestral indígena. Ele afirma que os povos originários são os verdadeiros plantadores e protetores das florestas e critica a centralidade do dinheiro nas discussões climáticas globais.
A ciência ancestral dos povos originários
Segundo Arassari:
“Eu e meu povo estamos desenvolvendo um trabalho de restauração ecológica, porque nós, povos indígenas, somos os verdadeiros plantadores. Assim como os pássaros, eles comem uma fruta e transportam aquela semente em uma distância de 2, 3 km. E aquela semente cai no chão e nasce. Então, nós, povos originários, sentimos próximos dessas espécies de animais.
Foto: Viviani Moura, fsp
Meu nome é Arassari, significa um pássaro. Eu sou do clã dos pássaros e me sinto primo dos pássaros. No momento em que você se sente primo dos animais e da floresta, não vai permitir que destrua. Esse entendimento milenar permite que nós nos tornemos os verdadeiros coletores e plantadores das florestas.”
O cacique explica que a Amazônia, enquanto floresta tropical, foi construída também pela ação desses coletores: “A Amazônia, em geral, foi plantada por indígenas coletores, que pegavam essas sementes na floresta, transportavam 2, 3 quilômetros, se alimentavam daquela fruta, e aquela fruta era dispersada nos seus quintais. E nasceu-se uma grande floresta tropical, que é o pulmão do mundo, coração do mundo, o esôfago do mundo, o fígado do mundo. Porque é um filtro do mundo também, está filtrando todos os dióxidos de carbono e transformando em oxigênio para dar vida à humanidade.”
“Não é o dinheiro que vai salvar o planeta”
Arassari critica duramente o foco financeiro presente em conferências climáticas:
“Essa COP está parecendo mais a COP de captação de recurso. Eu não vi nenhuma autoridade falando de soluções práticas: demarcação de território, despoluição dos rios, regeneração dos ecossistemas. Parece que a Amazônia virou um berço que o mundo inteiro quer ver porque nela estão as maiores riquezas do mundo.”
Ele denuncia invasões, garimpo e projetos que ameaçam territórios indígenas: “Foi aprovada a hidrovia, uma rodovia aquática onde vão passar grandes embarcações para escoar madeiras da Amazônia. Eu não estou feliz de discutir COP30 como solução. Enquanto se acha que a solução é dinheiro, estamos regredindo.”
Para o cacique, o caminho é outro: “Não é o dinheiro que vai salvar o planeta e o mundo, é o respeito, o amor e a união. O trabalho direto com quem está fazendo reflorestamento, que somos nós, povos originários.”
Diálogo direto com os povos da floresta
Arassari defende que a solução climática começa escutando quem vive na floresta: “Para evitar que o mundo entre em um grande colapso, é fundamental preservar os povos na floresta, demarcando os territórios, escutando os povos indígenas, desenvolvendo ações diretamente com esses povos indígenas, ribeirinhos, quilombolas, e não só injetando dinheiro nos cofres públicos do Estado, porque se torna cada vez mais políticos brigando, corrompendo, e esse dinheiro não chega na base. A solução é dialogar direto com os povos indígenas, respeitando seus princípios, respeitando essa ciência. Tudo isso é ciência: desde o nascer de uma criança, plantar uma árvore, ao falecimento de um ancião.”
Green Zone da COP30. Foto: Viviani Moura, fsp
Ele convida o mundo a visitar os territórios:“Vem visitar nossos territórios, vem dormir conosco em nossas ocas, comer um alimento saudável, para presenciar de perto o que realmente é essa luta climática.”
A demarcação como ação fundamental
O cacique enfatiza que não há preservação sem demarcação: “Não há como falar de preservação ambiental sem demarcação de território. Nós, povos da floresta, somos 5% da humanidade e responsáveis pela preservação de 80% do ecossistema. Nossas vidas são totalmente sustentáveis. Nós somos a resposta.”

Foto: Viviani Moura, fsp
Ele também critica a lógica das compensações financeiras:“Os países que mais sujam o ecossistema estão mandando indenizações de carbono achando que vai salvar. Quanto mais você paga para poluir, mais está poluindo.”
As riquezas que o mundo explora e o preço pago pelos corpos indígenas
Arassari denuncia o interesse internacional nas riquezas minerais: “Nossas terras indígenas são as que mais compõem as riquezas mundiais: diamante, nióbio, lítio, terras férteis, bauxita, ouro. O lítio, por exemplo, move os carros elétricos. Enquanto veem nosso país como um berço de exploração, focado numa economia destrutiva, nossos corpos estão pagando.”
Foto: Viviani Moura, fsp
E reforça que o valor da terra não é o valor de mercado: “O ouro não veio para ser adereço no pescoço de alguém ou para construir um celular de última geração. Nossos ouros são para segurar as raízes das águas, para segurar o solo, para dar vida para o futuro.”
Para o cacique Arassari, o planeta só terá futuro se ouvir os guardiões das florestas: “O que vai salvar o clima é o diálogo direto com esses povos que estão em contexto de floresta. Não é o dinheiro. São outras parcerias”, finaliza o indígena.
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