Vocação Paulina

“Uma Filha de São Paulo no coração da Igreja”

Irmã Patrizia Bellavia. Foto: Arquivo Pessoal

Em março de 1964, na famosa ilha mediterrânea da Sicília, Itália, conhecida por ser um ambiente multicultural, nasceu “a menina” Patrizia Bellavia, ou Patry para seus amigos mais íntimos. Ela é a mais velha dos três filhos de Nina e, in memoriam, de Francesco.

A menina, que cresceu em uma terra marcada pela presença de importantes personalidades das áreas da literatura, teatro e cinema, sonhava em utilizar os mesmos meios para comunicar valores por meio da arte. Sentiu-se chamada a dedicar sua vida na congregação das Filhas de São Paulo, mais conhecidas como Irmãs Paulinas, tornando-se anos depois a primeira mulher a trabalhar em vários departamentos da Secretaria de Estado de Sua Santidade.

Irmã Patrizia iniciou seu caminho de formação religiosa em 1987 e, durante seus 36 anos de vida consagrada, estudou Comunicação Social, colaborou nos processos de transição do analógico para o digital, o que fez das edições Paulinas uma referência na Itália nos anos 1990. Ela também foi missionária na África, tendo vivido na Tanzânia, Quênia e Uganda.

Irmã Patrizia, uma mulher pioneira em muitas frentes, compartilha sua jornada de mais de vinte anos a serviço da Santa Sé.

Irmã Patrizia e familiares. Foto: Arquivo Pessoal

Irmã Patrizia, conte-nos sobre suas origens e como elas contribuíram para sua formação como mulher e religiosa.

Nasci na Sicília, uma ilha marcada por uma grande influência cultural e artística de muitos povos. Na culinária siciliana há receitas árabes, gregas e judaicas; na arquitetura dos nossos edifícios há estilos espanhol, romano, bizantino, até na nossa língua há palavras portuguesas, normandas, anglo-saxônicas. Sendo uma ilha, dizemos: “A civilização vem do mar”, isso me ensinou a entender e acolher a diversidade e a oferecer minha diversidade aos outros. Além disso, sempre foi significativo pensar que nasci um mês depois da morte de Mestra Tecla (cofundadora e primeira Superiora Geral das Filhas de São Paulo). Para mim, é normal pensar que eu sou uma das vocações que a Família Paulina iniciou, pedida a Deus por intercessão de Mestra Tecla após ascender ao céu. Acredito também que muito do que vivenciei até agora é fruto de sua benevolente atenção maternal.

Dentre as experiências que você viveu em família, quais você lembra com gratidão?

Como em muitas culturas, na Sicília existe a ideia de que, se o primeiro filho for menino, o pai ficará mais contente, porque o filho receberá o nome do avô e o sobrenome da família. Quando eu nasci e os amigos do meu pai souberam que seu primeiro filho era uma menina, eles lhe disseram: “Não se preocupe, o próximo pode ser um menino”. No meu país, também é costume oferecermos amêndoas doces cor-de-rosa quando nascem meninas, então meu pai, para mostrar aos amigos o quanto estava feliz com o nascimento de uma menina, comprou amêndoas doces em grandes quantidades para dar a todos os familiares, amigos, enfermeiros e médicos. Ele me disse muitas vezes o que queria expressar com aquele gesto e assim dizia: “Você deve se considerar um igual, não menos que um homem”. Essa lembrança me ajudou quando comecei a trabalhar em grupos exclusivamente masculinos e até hoje sinto que posso oferecer e receber contribuições valiosas na relação com qualquer pessoa!

Foto: Arquivo Pessoal

Quais eram seus sonhos de jovem  e como a missão paulina se tornou sua escolha de vida?

A grande influência artística e cultural do meu país me fazia desejar viver nesse estilo. Na verdade, eu trabalhava no rádio e tinha amigos que escreviam comédias no nosso dialeto, siciliano, que ficaram famosas. Mas quando eu pensava em uma escolha mais radical e por que deveria fazê-la, não me sentia satisfeita com o que já estava fazendo, sentia que precisava de mais tempo para oração, para crescimento pessoal. Depois conheci as Irmãs Paulinas, num encontro de catequistas, em outra ocasião as reencontrei na livraria de Agrigento, onde me convidaram para um curso que estavam oferecendo para operadores de rádio. Ali comecei a entender que o que elas faziam como missão era semelhante ao que eu fazia, com o acréscimo de uma vida completamente entregue, de uma espiritualidade que me faltava, dessa completude de se entregar a “Alguém”. Pouco a pouco, entendi que não queria somente fazer o bem aos outros, mas comunicar Deus às pessoas como Ele mesmo o fez por meio de Jesus, usando a linguagem humana e, consequentemente, viver para “Alguém”, dando sentido a essa comunicação, transmitindo o que eu mesmo vivia. Era isso que me faltava e encontrei nas Irmãs Paulinas, em uma congregação religiosa, no carisma de Padre Tiago Alberione. Finalmente, eu estava unindo esse estilo de comunicação com um estilo de vida, uma espiritualidade que me fazia sentir plenamente eu mesma, completa. No entanto, ao longo dos anos, aprendi que não entrei nas Filhas de São Paulo apenas para usar instrumentos, mas para me tornar um instrumento, um instrumento de amor. Porque o importante não é o que eu faço, mas a minha relação com este “Alguém”, isto é, a minha relação com Jesus, o Mestre, a minha relação com Deus, é Ele que desejo comunicar através da missão que realizo!

Foto: Arquivo Pessoal

Irmã Patrizia, como, após tantas experiências, a senhora chegou a esta missão específica a serviço da Igreja Católica?

Em 2004, a Secretaria de Estado solicitou a algumas congregações religiosas femininas a disponibilidade de uma irmã italiana que falasse inglês. O pedido também foi feito à nossa superiora geral. Ela pensou em mim. Mas por que a Secretaria de Estado pediu uma irmã? Porque o Ministro das Relações Exteriores da Santa Sé naquela época era Giovanni Lajolo e ele havia sido núncio na Alemanha, onde teve uma boa experiência de trabalho com as irmãs. Então ele quis repetir essa experiência, tendo um padre e uma irmã como secretários. E assim me tornei secretária do Ministro das Relações Exteriores no Vaticano. Obviamente, eu não tinha frequentado a Academia Eclesiástica, ou seja, os dois anos da escola de Diplomacia, como meus colegas, então foi um grande desafio ser a primeira mulher a fazer um trabalho que sempre foi de homem e ter correspondido a essa responsabilidade. No entanto, esta missão eu a vivi sempre em atitude de obediência, porque foi a Superiora Geral da nossa congregação que me havia pedido. Com esse mesmo espírito e disponibilidade, continuo correspondendo à missão a mim confiada, sentindo-me plenamente realizada como Filha de São Paulo: estando, a exemplo de São Paulo, no coração da Igreja e da comunicação do Evangelho através da Igreja.

Desde aquele primeiro dia até hoje, como tem sido sua jornada a serviço do Vaticano?

Após cinco anos com o Ministro das Relações Exteriores, tive outras atribuições, muitas vezes em escritórios onde a mulher nunca havia trabalhado antes. Atualmente, faço parte da Seção Italiana da Secretaria de Estado e isso me permitiu, em 2022, ser a primeira mulher italiana a ler nas audiências gerais do Papa. Também me permitiu participar da viagem apostólica a Marselha, onde conheci o atual Papa Leão XIV, como a primeira mulher a participar da Seção Italiana.

Reprodução: Vatican Media Live

Destes vinte e um anos no Vaticano, doze foram com o nosso querido e agora, in memoriam, Papa Francisco. Entre as experiências que você viveu durante seu pontificado, qual você lembrará para sempre?

Uma linda recordação do Papa Francisco é a do dia em que comecei a ler nas suas audiências gerais de quarta-feira. Não dormi muito nas noites anteriores, fiquei preocupada, fiquei com medo de errar. Em vez disso, tudo correu bem e o que me impressionou foi que, no final da audiência, o Papa veio até mim e disse: “Você fez muito bem.” Ele percebeu que eu estava emocionada e quis me encorajar.

Reprodução: Vatican Media Live

Quando você ouve o nome Papa Francisco, qual a primeira imagem que vem à mente?

Um jardim cheio de flores e algumas pedras. Num jardim, todos podem ir e relaxar, apreciar a beleza e louvar o criador, assim era ele, quando encontrava pessoas e especialmente crianças, quando fazia algo pelos outros, pelo bem da Igreja e da humanidade, ele florescia, florescia, sabia ser engraçado, mas nunca superficial, neste jardim ele era como uma árvore forte, com galhos altos e raízes profundas. No jardim, um caminho pedregoso, feito de grandes preocupações, podia fazê-lo tropeçar e caminhar com dificuldade, mas o caminho o levava de volta às flores e ele voltava a colorir, a brilhar ao sol.

Estamos começando um novo tempo para a Igreja e, certamente, também para vocês no Vaticano. Se você pudesse expressar em uma frase seus desejos para o Papa Leão XIV, o que você lhe diria?

Espero que, quando o chamarem de Santo Padre, ele possa sentir a responsabilidade, mas também a alegria de ser Pai de todos e que, através dele, os outros experimentem a proximidade do Pai celestial que continua a comunicar o seu amor.
 

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