
Paulinas Livraria de Porto Alegre (RS). Foto: Josiane Moreira da Silva
Em julho de 1936, duas missionárias chegaram ao Rio Grande do Sul com uma pequena bagagem e vários pacotes de livros. Com elas, começava no Estado uma missão dedicada à evangelização por meio da comunicação, da formação, da cultura e da presença junto ao povo.
Ao longo de nove décadas, essa missão esteve presente em diferentes momentos da vida do povo gaúcho, despertou vocações, formou leitores e agentes de pastoral, colaborou com a Igreja e encontrou na comunicação e na cultura caminhos para anunciar o Evangelho.
Um sonho que nasceu da Eucaristia
No início do século XX, em Alba, na Itália, um jovem seminarista permaneceu longas horas em oração diante de Jesus Eucarístico. Naquela experiência, Tiago Alberione sentiu o chamado para anunciar a Boa-Nova utilizando os meios de comunicação de seu tempo.
Dessa inspiração nasceu, em 1915, a Congregação das Filhas de São Paulo, fundada pelo Bem-aventurado Padre Tiago Alberione com a colaboração da Venerável Irmã Tecla Merlo.
As Irmãs Paulinas assumiram a comunicação como verdadeiro apostolado, colocando livros, Bíblias, revistas, música, rádio, televisão e, mais tarde, os meios digitais a serviço do anúncio do Evangelho.
O Brasil foi o primeiro país a acolher a missão paulina fora da Itália. Depois da chegada das primeiras Irmãs Paulinas a São Paulo, em 1931, a missão alcançou outras regiões do país.
“Vão ao Rio Grande do Sul...”
Foi nesse contexto que a Irmã Tecla Merlo enviou às irmãs uma orientação que se tornaria inspiração para uma nova missão:“Vão ao Rio Grande do Sul. Tenho certeza de que vocês farão bem no meio daquele povo. Despertarão aí a vocação em muitas jovens que ingressarão na nova comunidade.”
Em julho de 1936, a Irmã Marcelina Bertero e a postulante Maria Leite chegaram ao Rio Grande do Sul. Na bagagem, poucos pertences e vários pacotes de livros. No coração, o desejo de anunciar a Palavra de Deus ao povo gaúcho.
Anos mais tarde, Irmã Marcelina recordaria aquele início: “Nossa preparação foi bem simples, mas cheia de entusiasmo. Um pouco de roupa pessoal, uma pequena mala e vários pacotes de livros. Nossa esperança era grande. Em nosso coração crescia o desejo de podermos levar a Palavra de Deus ao povo gaúcho.”
As primeiras missionárias foram acolhidas pelas Irmãs da Congregação do Imaculado Coração de Maria. Depois, receberam hospedagem das Irmãs Franciscanas por mais de dois meses e passaram pelo convento das Carmelitas. Eram tempos de sacrifício e simplicidade, mas a alegria do seguimento de Cristo e a esperança de lançar a semente do apostolado paulino ajudavam a superar os obstáculos.
A evangelização acontecia de maneira simples e próxima das pessoas, por meio de visitas às famílias e comunidades e da divulgação de livros e materiais de formação. Em 1947, uma livraria foi aberta ao público no centro de Porto Alegre, fortalecendo a presença de Paulinas junto à Igreja e à sociedade gaúcha.
Um dos desafios mais recentes aconteceu em maio de 2024, quando as enchentes atingiram o Rio Grande do Sul e a própria Livraria Paulinas. Em meio ao caos e às perdas, a solidariedade e a resiliência do povo gaúcho foram fundamentais para o recomeço. A livraria tornou-se espaço de escuta, acolhida e apoio, junto a quem começava a reconstruir a própria vida.
O despertar de uma vocação

Irmã Elide T. Pulita, Filha de São Paulo. Foto: Arquivo pessoal
A semente lançada pelas primeiras missionárias encontrou terreno fértil também na vida de jovens que se aproximaram da missão paulina. Entre elas está Irmã Elide T. Pulita, fsp, que chegou à comunidade das Filhas de São Paulo em Porto Alegre aos 15 anos, em 1954.
“Aos 15 anos de idade, deixei minha família e, numa tarde de janeiro de 1954, cheguei à casa das Filhas de São Paulo, na Av. Teresópolis, em Porto Alegre – RS, com o desejo de ser paulina, por causa dos livros. A primeira irmã que encontrei foi Mestra Dolores Baldi, que estava no jardim rezando o terço. Olhou-me profundamente e, com um grande amor, perguntou meu nome. Aos poucos, fui me sentindo em casa.
No ano seguinte, a comunidade mudou para a nova casa, na Rua Aparício Borges, a qual havíamos ajudado a construir, carregando os tijolos. Durante meus quatro anos de aspirantado, sob a ação do Espírito Santo e das irmãs e formadoras, comecei a descobrir a beleza da vocação paulina que até hoje me surpreende profundamente.
Pela primeira vez vi a estátua de São Paulo e da Rainha dos Apóstolos e comecei a aprender as bases da espiritualidade paulina. Foi ali que comecei a conhecer e a amar o apostolado paulino. Trabalhei na máquina de imprimir livros e comecei a conhecer e amar a missão da propaganda nas famílias. Colaborei na horta, cuidei da plantação de verduras, joguei muito vôlei e cresci fisicamente e espiritualmente.
Ainda hoje continuo firme nesta caminhada, sempre em direção ao viver em Cristo, Mestre, Caminho, Verdade e Vida. A casa de Porto Alegre continua viva em meu coração e faz parte de minha vida.”
Uma missão em comunhão com a Igreja
Ao longo de nove décadas, a presença das Paulinas se construiu na proximidade e no diálogo. Por meio da livraria e da atuação junto a famílias, escolas, paróquias e diferentes espaços da sociedade, a missão colaborou com a Igreja na evangelização e na formação.
Bíblias, livros, materiais catequéticos e ações de formação ajudaram catequistas, ministros, lideranças comunitárias, religiosos e religiosas, educadores e agentes de pastoral a aprofundar a fé, preparar encontros, acompanhar comunidades e anunciar a Palavra de Deus.

Cardeal Jaime Spengler, Arcebispo Metropolitano de Porto Alegre (RS). Foto: Nelson Pereira
Nesse caminho de comunhão, o Cardeal Jaime Spengler, Arcebispo Metropolitano de Porto Alegre, enviou uma mensagem especialmente para a celebração dos 90 anos:
“Evangelizar e comunicar Jesus Cristo - Caminho, Verdade e Vida - utilizando os meios de comunicação social e a cultura contemporânea é a missão que caracteriza a Congregação das Irmãs Paulinas. Congregação esta que possui uma história riquíssima no âmbito da evangelização!
Anunciar o Evangelho fazendo uso dos meios de comunicação, com o intuito de construir pontes, defender e promover a vida, é uma exigência de todos os tempos. Para isto, se faz necessária sólida preparação teológica e capacidade técnica para saber bem utilizar o instrumental técnico à disposição.
Celebrar nove décadas de presença em terras gaúchas é oportunidade para renovar a disposição de continuar a cooperar com a obra da evangelização, atentas às indicações da Igreja, empenhadas em responder à altura dos desafios dos sinais dos tempos e comprometidas com a necessidade de “preservar vozes e rostos humanos” (Papa Leão XIV).”
Comunicação e cultura
Comunicar o Evangelho significa dialogar com a cultura. Nesse percurso, os livros chegaram a leitores, educadores e famílias, contribuindo para a formação humana, intelectual e espiritual.

Sonia Zanchetta, jornalista e produtora cultural. Foto: Fernanda Zanchetta
A presença de Paulinas se consolidou na Feira do Livro de Porto Alegre, da qual participa desde as primeiras edições. Sonia Zanchetta, jornalista e produtora cultural, que atua há décadas na Câmara Rio-Grandense do Livro e coordena a programação infantil e juvenil da Feira, recorda a participação pioneira da Livraria Paulinas na Área Infantil:
“A Livraria Paulinas foi, com a Livraria Aurora, pioneira na participação na Área Infantil da Feira do Livro de Porto Alegre. Com a passagem dos anos, mais expositores passaram a participar daquela área, mas a Paulinas sempre se destacou pela qualidade da literatura infantil e juvenil que publica, como por seu empenho em colaborar para o enriquecimento da programação do evento.”
Uma presença que continua a despertar
A presença iniciada em 1936 continuou despertando vocações. Entre essas histórias está a de Irmã Viviani Moura, fsp, de Maquiné (RS).

Irmã Viviani Moura, fsp. Foto: Ton Brunno
O desabrochar da vocação
“Minha história com a Congregação das Filhas de São Paulo floresceu sob a sombra generosa das Irmãs Paulinas em terras gaúchas. Foi por meio dessa presença acolhedora que o carisma paulino me tocou o coração, permitindo-me dar uma resposta convicta à vocação que recebi.
Quantas memórias guardo do discernimento vocacional e daquele primeiro ano de Aspirantado na comunidade de Canoas (RS)! Transbordo gratidão pelas irmãs nativas deste Estado e por tantas outras que, vindas de diferentes cantos do país, fizeram do Rio Grande do Sul a sua morada. Mulheres que doaram suas vidas à evangelização deste solo gaúcho, tornando-se alicerces na construção da nossa Província.”
Gratidão a quem caminha conosco
Uma história de 90 anos é feita por muitas pessoas. A trajetória das Paulinas no Rio Grande do Sul tem a marca de colaboradores, cooperadores, clientes, leitores, agentes de pastoral, educadores e tantos parceiros que, cada um a seu modo, ajudaram a manter viva essa presença.

Gilvania de Castro Borges. Foto: Josiane Moreira da Silva
Entre essas histórias está a de Gilvania de Castro Borges, que há mais de 25 anos faz parte dessa caminhada:
“Há mais de 25 anos cheguei à Paulinas como funcionária, sem imaginar o quanto essa caminhada marcaria minha vida.
Ao longo desses anos, construí minha família, amizades, vivi muitos aprendizados e enfrentei desafios que me fortaleceram como profissional e como pessoa.
Cada etapa trouxe novas experiências e a alegria de contribuir, com meu trabalho, para uma missão tão bonita de evangelização. Sou profundamente grata por tudo o que vivi, pelas pessoas que fizeram parte dessa história e pela confiança que sempre recebi.
Celebrar esses 25 anos é celebrar uma trajetória de dedicação, crescimento e gratidão, com o coração cheio de esperança para continuar servindo com o mesmo carinho e compromisso.”
Uma história que continua
Os 90 anos de presença paulina no Rio Grande do Sul são uma memória agradecida das muitas Irmãs Paulinas que passaram pela missão ao longo das décadas. Vindas de diferentes regiões do país, elas dedicaram suas vidas aos diversos apostolados realizados no Estado, deixando marcas de uma vida doada junto ao povo, com o carisma da comunicação.
A essa caminhada se somam as Irmãs que hoje continuam a missão, bem como colaboradores, cooperadores, clientes, leitores, agentes de pastoral, educadores, parceiros e tantas pessoas que, com sua presença, trabalho, confiança e amizade, ajudam a manter viva essa história de evangelização.
Noventa anos depois, Paulinas renova, com gratidão, o compromisso de continuar comunicando o Evangelho com a própria vida e pelas linguagens e meios de cada tempo, para que a mensagem de Jesus siga iluminando caminhos e ajudando a construir um mundo mais fraterno e justo.
A semente lançada em 1936 continua florescendo.
