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A comunicação de Leão XIV: desarmada e desarmante

Foto: Vatican Media

Desde a sua eleição, em 8 de maio de 2025, o Papa Leão XIV utilizou, em diversos discursos e contextos, a expressão desarmada e, em muitas ocasiões, associada diretamente à comunicação. De fato, ele não o faz por mera retórica, mas com plena consciência da força que possui uma comunicação desarmada.

Assim o expressou durante a apresentação da encíclica Magnifica Humanitas, em 25 de maio: “Trata-se de uma palavra forte, bem sei, mas foi escolhida deliberadamente porque este momento precisa de palavras capazes de chamar a atenção, despertar a consciência e indicar o caminho a seguir para a humanidade”.

Foto: Vatican Media

O que podemos perceber, até o momento, da comunicação do Papa Leão XIV e de seu estilo comunicativo é o de alguém que não apenas fala de uma comunicação desarmada, mas que busca viver uma comunicação desarmada — com gestos e palavras.

Em vários momentos do seu pontificado, é possível observar a forma como escuta atentamente quem lhe dirige a palavra e a atenção que dedica a tudo o que acontece ao seu redor. É emblemática, nesse sentido, uma imagem recente do Consistório, na qual o próprio Papa se levanta e indica ao cardeal Giovanni Battista Re o local de onde deveria fazer o seu discurso.

Desarmar as palavras

A comunicação desarmada de Leão XIV é, antes de tudo, o primeiro testemunho que ele pode oferecer à Igreja e ao mundo, especialmente diante de uma sociedade cada vez mais marcada pela “cultura do poder” (cf. MH 188) e menos afeita ao serviço, à escuta e, consequentemente, ao diálogo. É significativo que, na própria encíclica, Leão XIV reconheça a força das palavras ao afirmar que “nós o experimentamos na comunicação quotidiana, quando alguém nos diz algo que altera o nosso estado de espírito, para melhor ou para pior” (MH 214).

Foto: Vatican Media

Em seu discurso aos comunicadores, quatro dias após a eleição, afirmou que “não precisamos de uma comunicação beligerante e musculosa, mas sim de uma comunicação capaz de escutar, de recolher a voz dos fracos que não têm voz”. Nesse sentido, ganha particular relevância sua insistência em desarmar as palavras para desarmar a terra.

Tal apelo não deve ser assumido apenas pelos comunicadores como uma tarefa específica de um grupo, mas levar todos nós a tomar consciência de que “uma comunicação desarmada e desarmante permite-nos partilhar uma visão diferente do mundo e agir de forma coerente com a nossa dignidade humana”.

A comunicação como cultura

Nesse mesmo discurso, em 12 de maio de 2025, Leão XIV evocou a imagem bíblica de Babel como um exemplo a não ser seguido por aqueles que fazem comunicação na Igreja, ressaltando a tarefa dos comunicadores de serem capazes de “nos fazer sair da ‘torre de Babel’ em que, por vezes, nos encontramos, sair da confusão de linguagens sem amor, muitas vezes ideológicas ou sectárias”.

Foto: Vatican Media

Para isso, na mesma esteira de Francisco, Leão XIV tem claro que “a comunicação não é apenas a transmissão de informações, mas a criação de uma cultura” (Discurso aos agentes de comunicação). Como não recordar a primeira mensagem de Francisco para o Dia Mundial das Comunicações Sociais, em 2014, que impulsionava a comunicação para a cultura do encontro e para um samaritanear nas estradas físicas e digitais?

O caminho para uma comunicação desarmada e para a construção de uma cultura comunicacional passa, necessariamente, pela educação. O pontífice o propõe explicitamente em sua mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais de 2026 e na encíclica Magnifica Humanitas (136-142), compreendendo que esta é uma responsabilidade compartilhada e um caminho que precisa ser trilhado por todos, com paciência, tal como Jerusalém no tempo de Neemias, sempre “salvaguardando o humano e o bem comum” (MH 184).

Talvez resida precisamente aí uma das contribuições mais significativas de Leão XIV para a reflexão contemporânea sobre a comunicação: recordar que uma comunicação desarmada não é uma técnica, uma estratégia discursiva ou um simples estilo pessoal, mas uma forma de compreender a própria condição humana e a missão da Igreja no mundo. É um antídoto contra a polarização, a agressividade verbal e a instrumentalização das relações. 

Foto: Vatican Media

O testemunho comunicativo do Papa aponta para outro caminho possível: o da escuta, do cuidado, do diálogo e da construção paciente da comunhão, partindo sempre do ser humano e de sua salvaguarda. Afinal, desarmar as palavras pode ser o primeiro passo para desarmar os corações e, quem sabe, começar a desarmar também o mundo.

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