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Memorial de fé e de amor, a cruz acompanha a história humana como um dos símbolos mais fortes e difundidos pela face da terra. Cabe uma pergunta inicial: de que maneira um dos instrumentos de tortura e morte mais brutais do Império Romano se transfigurou, ao longo do tempo, num objeto de reverência para os cristãos do mundo inteiro, de modo particular os católicos? Como o madeiro da maldição se converte em símbolo de benção?
A resposta a essa pergunta se encontra nas páginas do próprio Evangelho. “Pai, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem”, exclama Jesus no alto da cruz, referindo-se aos algozes que o executavam (Lc 23, 34).
Em meio a dores e sofrimentos indescritíveis, já próximo de expirar, o Mestre se revela, mais do que nunca, o rosto visível de Deus invisível. Melhor dizendo, face humanamente frágil da infinita misericórdia divina.

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Com efeito, no próprio ato da crucifixão, resplandece a compaixão do Pai amoroso, de modo todo especial para com os pecadores mais empedernidos. Gesto grandioso e único na trajetória humana através dos séculos.
Dois raios de luz humano-divina, fugazes, mas imensamente prodigiosos como relâmpagos em meio à tormenta e à tempestade, iluminam esse momento irrepetível e esplendoroso. Um gesto sem igual, registrado com letras de fogo no pergaminho da história, e que se bifurca em duas direções.
Combate à violência
A primeira direção procura combater o mal enraizado nos corações humanos e nas sociedades de todos os tempos. O mal que cria tiranos e tiranias, impérios e imperadores, subjugando os pobres a um poder sem limites e sem escrúpulos. Qual a resposta de Deus? À violência atroz e requintada contra um inocente, Jesus invoca o Pai para responder com o perdão.
O choque entre a ação dos soldados e a reação divina, negativo com positivo, como que acende uma faísca, iluminando por um segundo a escuridão, mas um segundo que se torna eterna como o amor infinito. A “vingança” de Deus se manifesta no perdão. Plantada no coração da História, a cruz divide-a em antes e depois, pois nela a salvação permanece aberta à humanidade.
Perdão que, diga-se de passagem, não é novidade para quem conhece de perto os relatos do Novo Testamento. “Ele passou fazendo o bem e curando a todos os que estavam dominados pelo diabo”, escreve Lucas (At 10, 38).
Aqueles que o condenaram a morrer na cruz, como também os que o executaram, representavam o espírito do mal que, indiscriminadamente, se abate sobre tudo e todos. O mal oculto nas entranhas da sociedade, agindo nas trevas obtusas e obscuras do cotidiano, não suporta quem busca o bem-estar do próximo. Considerado subversivo, o bem deve ser banido e aniquilado.
Solidariedade às vítimas
A segunda direção se estende, de forma solidária, a todos os crucificados ao longo dos séculos. Os impérios, sejam eles antigos ou contemporâneos, usam botas pesadas e armas letais.
Enquanto poderosos e ativos, se erguem sobre os ombros e o trabalho dos pobres e indefesos. Oprimem e exploram seus súditos para manter um punhado de ricos privilegiados. Por onde pisam, deixam um rastro macabro de mutilados e de cadáveres.
Por isso, “o verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1, 14).

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No Mistério da Encarnação, Deus vem ao encontro das vítimas da história. Contam-se milhões os que, por todo mundo, sofrem de insegurança alimentar; os que são obrigados a fugir de sua terra natal como migrantes e refugiados, devido à guerra, às catástrofes climáticas ou falta de oportunidades; os que habitam pelas ruas e praças da cidade, praticamente anônimos e sem endereço fixo; os que, por diversos motivos, sofrem de preconceito, discriminação, racismo ou xenofobia... E tantos outros rostos e nomes marcados impiedosamente por um sistema político e econômico que os relega a segundo plano, como seres descartáveis.

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Uma economia que, nas palavras do Papa Francisco, “exclui, descarta e mata”. Com seu amor humano-divino, a cruz nos resgata do anonimato, nos reergue sobre as próprias pernas e nos devolve a dignidade de pessoas humanas.
Pe. Alfredo J. Gonçalves,cs, é sacerdote da Congregação dos Missionários de São Carlos (scalabrinianos), cujo carisma é atuar com migrantes e refugiados. Durante 5 anos, foi assessor do Setor Pastoral Social da CNBB, depois Superior Provincial e Vigário Geral na Congregação supracitada. Hoje, exerce a função de vice-presidente do Serviço Pastoral dos Migrantes (SPM). Recentemente lançou o livro Retratos da Metrópole, organizado pela Missão Paz.
