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O número de guerras acontecendo simultaneamente no mundo é o maior desde a Segunda Guerra Mundial. São pelo menos 46 conflitos armados ativos no mundo, afetando entre 200 e 250 milhões de pessoas (cerca de 2,4-3% da população mundial).
O ideal de um mundo sem conflitos parece próximo para a América do Sul, que sofre muito mais com a violência do crime organizado, e para a União Europeia, apesar das guerras vizinhas na Ucrânia e na Síria – mas está distante para o restante do mundo.

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Além das guerras “midiáticas”, amplamente divulgadas por envolverem direta ou indiretamente democracias ocidentais (como as do Iraque e do Afeganistão ou da Ucrânia), existem muitas “guerras ocultas” – tão ou mais mortíferas e dolorosas quanto as demais, mas esquecidas da mídia por ocorrerem em países pobres. Por exemplo: guerra do Congo (com aproximadamente 5,4 milhões de mortes); Guerra Civil Síria (470 mil a 614 mil mortes); guerra do Tigray na Etiópia (entre 162 mil e 600 mil mortos); guerra civil do Iêmen (aproximadamente 377 mil mortes até 2021); conflitos em Darfur e Sudão (mais de 250 mil mortos); insurgência do Boko Haram na Nigéria (mais de 350 mil mortos até 2020).
Guerras começam com mentiras: narrativas oficiais mascaram ambições sob justificativas morais. A Guerra do Iraque usou armas inexistentes como pretexto para controle petrolífero. Conflitos africanos camuflam disputas por minerais; na Síria e Iêmen, potências medem forças ignorando vidas civis. Na Ucrânia, a "desnazificação" oculta ambições imperialistas russas.

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As guerras exploram identidade ameaçada e desumanização do inimigo. Linguagem eufemística ("danos colaterais") silencia culpa, enquanto propaganda retrata adversários como brutais. Ambos os lados se veem como defensivos e virtuosos – mas, por trás, o que vale são os interesses econômicos: gastos militares globais atingiram US$ 2,7 trilhões em 2024, empresas de defesa lucram sistematicamente com conflitos.
Diante disto, Leão XIV, em sua Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2026, nos convida a uma paz "desarmada e desarmante". Mas será isso possível? Somos sempre um pouco fruto da mentalidade hegemônica (alguns mais, outros menos – mas nunca imunes). Não nos parece contrastar a paz armado com a paz desarmada.

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Mas esta é justamente a maior armadilha que os “senhores da guerra” nos armaram: se não acreditamos que a paz é possível, não lutaremos por ela, aceitaremos a violência como a única resposta possível. A violência nunca irá garantir a paz, assim como a truculência não garante a justiça, a imposição não gera a virtude, o amor não pode florescer sem um amor primeiro que desperte o coração...
Esta não é uma posição ingênua, nasce dentro de um processo de amadurecimento do próprio magistério social católico. O Catecismo da Igreja Católica (CIC 2307-2314) estabelece condições para uma "guerra justa", mas apenas em autodefesa, quando tentativas de paz falharem e os danos da ocupação superarem os da guerra. A conclusão óbvia é que nenhuma guerra é justa, ainda que o esforço para se defender possa ser considerado justo (desde que não seja desproporcional, como parece ser o caso da ofensiva israelense contra Gaza e o Líbano).

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Caminhar para esta paz “desarmada e desarmante” implica em quatro eixos de ação muito realistas:
1) Reconhecer e nomear os interesses ocultos que alimentam as guerras. A guerra prospera na opacidade e na falta de accountability. Podemos nos perguntar: quantas vezes somos coniventes com posições políticas belicistas porque parecem concordar com nossas posições políticas?
2) Desenvolver uma educação para a paz e criar uma cultura de não-violência ativa que confronte os mecanismos psicológicos da guerra. Isso inclui trabalhar contra a desumanização do outro, promover empatia intercultural e desenvolver pensamento crítico em relação à propaganda. Um drama de nosso tempo é a dificuldade de dar realmente o primeiro passo, estender a mão ao outro — todos dizemos estar dispostos, mas não o fazemos por medo de não encontrar reciprocidade.
3) Fortalecer o multilateralismo e o direito internacional, valorizando os esforços diplomáticos. Os organismos internacionais são muito imperfeitos e contaminados ideologicamente — mas devem ser melhorados, não ignorados.
4) Promover a justiça econômica e o desenvolvimento sustentável. Muitos conflitos eclodem em contextos de extrema desigualdade e colapso de estruturas estatais. Crises climáticas, secas e migrações forçadas inflamam tensões existentes. O "desenvolvimento é o novo nome da paz", dizia Paulo VI na Populorum progressio.
Francisco Borba Ribeiro Neto é sociólogo e biólogo, trabalha com temas relativos à relação entre religião, sociedade, cultura e política; bioética; meio ambiente e Doutrina Social da Igreja. Foi coordenador do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP e professor de ecologia da PUC-Campinas. É colaborador frequente em jornais e revistas.
