
Telines Basílio: "Catar latinha e papelão não era escolha, era a única saída para não passar fome". Foto: Arquivo da Coopercaps
No calendário, o Dia Mundial da Reciclagem, celebrado em 17 de maio, costuma reacender debates sobre consumo consciente, sustentabilidade e preservação ambiental. Mas, longe das campanhas publicitárias e dos discursos prontos, existe um trabalho diário que mantém a reciclagem funcionando nas cidades brasileiras: o dos catadores de materiais recicláveis. Invisíveis para muitos, eles são peças centrais da chamada economia circular e, sem esse trabalho, o lixo simplesmente deixaria de ser reaproveitado.
A trajetória de Telines Basílio do Nascimento Júnior ajuda a traduzir essa realidade. Ex-catador, ele saiu das ruas de São Paulo para se tornar referência em gestão de resíduos sólidos urbanos. Graduado em Gestão Ambiental, com pós-graduação em Gestão de Projetos e especialização em Gestão de Resíduos Sólidos, hoje preside a Cooperativa de Trabalho de Coleta Seletiva (Coopercaps), responsável por cinco centrais de triagem na capital paulista, incluindo as primeiras mecanizadas da América Latina.

Foto: Arquivo da Coopercaps
Na entrevista a seguir, Telines, conhecido também como “Carioca”, fala sobre preconceito, invisibilidade, sustentabilidade e o papel essencial dos catadores, no linguajar direto de quem aprendeu “na rua” o valor do que muita gente chama apenas de lixo.
- Você começou como catador, em que momento isso deixou de ser “um trabalho” e passou a ser parte da sua identidade?
No começo, há mais de 40 anos, era puro corre pela sobrevivência. Catar latinha e papelão não era escolha, era a única saída para não passar fome. Mas o jogo virou de verdade por volta de 2003, quando a Coopercaps começou a ganhar corpo. Aí eu entendi que a gente não limpava sujeira dos outros: fazia gestão ambiental de elite. Deixei de ser o ‘cara do carrinho’ pra virar agente de transformação.
- Muita gente só lembra da reciclagem no Dia Mundial da Reciclagem. No resto do ano, como você sente o reconhecimento (ou a falta dele)?
O Dia Mundial da Reciclagem é bonito para postar foto e fazer marketing, mas catador não come ‘like’. A reciclagem acontece 365 dias por ano. Quando é para bater meta de ESG, o catador vira herói. Mas, na hora de discutir aposentadoria especial, pagamento justo ou políticas públicas, o silêncio é ensurdecedor. Para mim, reconhecimento de verdade não tem data no calendário. É contrato direto, é pagamento por serviço ambiental e é o catador ser tratado como o gestor ambiental de elite que ele é. O resto é só confete que a gente tem que varrer depois.

Foto: Arquivo da Coopercaps
- Qual é o maior erro de quem diz que recicla em casa?
As pessoas têm boa vontade, mas falta visão do processo. O maior erro é mandar material sujo. Caixa de pizza engordurada, pote com resto de comida… isso contamina tudo. Outro problema grave é jogar vidro quebrado e seringa no reciclável. Quem está na esteira acaba se machucando por falta de cuidado.
- Tem algum hábito simples que faria uma diferença enorme, mas quase ninguém faz?
Passar uma água rápida no material e manter o papel seco. Parece pouco, mas isso muda tudo. Material limpo vira ‘fardo de ouro’, que a indústria paga melhor. Material sujo vira rejeito. Se a sociedade entendesse que a reciclagem começa na pia da cozinha, a gente não estaria só batendo meta de ESG de empresa grande; a gente estaria erradicando a pobreza extrema no setor de resíduos. Pureza é dinheiro, e material limpo é dignidade.
- Houve algum momento em que você pensou em desistir? O que te fez continuar?
Quem diz que nunca pensou em desistir nesse setor, ou está mentindo ou não viveu o corre de verdade. A reciclagem no Brasil é um jogo de resistência; não é para amador. Teve época de chegar em casa com o corpo moído, o bolso vazio e a alma machucada. O preconceito pesa. Mas eu olho para o lado e vejo mais de 500 famílias dependendo desse trabalho. Desistir não é abandonar um emprego, é abandonar uma bandeira. Tenho compromisso com a dignidade.

Foto: Arquivo da Coopercaps
- Hoje, olhando para trás, como você enxerga aquele período como catador?
Foi minha faculdade da vida. Naquela época, o 'lixo' era a minha única saída para não passar fome, mas foi ali, separando o que a sociedade descartava, que eu aprendi a ler o valor onde ninguém mais via. Aprendi logística antes de saber o nome disso. Aprendi mercado antes de estudar economia. A rua foi meu maior MBA. Sem o Carioca do carrinho, não existiria o Telines, diretor-presidente da Coopercaps.
- Qual é o papel dos catadores na preservação ambiental que pouca gente percebe?
O catador economiza bilhões para os cofres públicos. Cada tonelada reciclada é uma tonelada a menos indo para o aterro. A gente aumenta a vida útil dos aterros e faz o trabalho que a prefeitura muitas vezes não consegue fazer com a mesma eficiência. É prestação de serviço ambiental de graça para o Estado. A gente é protagonista da logística reversa. O lixo só vira ouro porque tem mão de catador no meio.

"O lixo só vira riqueza porque alguém teve coragem de colocar a mão onde ninguém quer". Foto: Arquivo da Coopercaps
- O que aconteceria se os catadores parassem um dia?
O Brasil entraria em colapso. O ESG das multinacionais viraria fumaça, os aterros saturariam mais rápido e a indústria ficaria sem matéria-prima. A sociedade só perceberia nossa importância quando o lixo começasse a acumular.
- O que você gostaria que as pessoas entendessem neste Dia Mundial da Reciclagem?
Que reciclagem não é caridade, é gestão ambiental de elite. O catador não é coitadinho. É profissional do meio ambiente. A reciclagem no Brasil tem rosto, nome e muita história de superação. O lixo só vira riqueza porque alguém teve coragem de colocar a mão onde ninguém quer.
- Que conselho você daria para quem quer contribuir mais, mas não sabe por onde começar?
O primeiro passo não é assinar cheque nem fazer textão em rede social; é mudar a atitude dentro de casa e ter visão de processo. Comece limpando seu pote, separando o resíduo e respeitando o catador. Não espere o Dia Mundial da Reciclagem para ser consciente. O planeta agradece, mas o bolso e a alma do catador agradecem muito mais!
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