
Foto: Arquivo SAB
Chegamos em setembro, o mês da Bíblia! Neste ano, o livro estudado é a Carta aos Efésios, que já estamos estudando desde o mês de janeiro.
Segundo o Papa Francisco, “a Palavra de Deus é viva, não morre nem envelhece, permanece para sempre. Está viva e dá vida. A Palavra, de fato, traz ao mundo o respiro de Deus, infunde no coração o calor do Senhor através do sopro do Espírito. [...] Seria belo que a Palavra de Deus se tornasse sempre mais o coração de toda atividade eclesial” (discurso no Congresso Internacional da Federação Bíblica Católica, 2020).
O sentido que se revela na Bíblia, como diz o Papa, não se trata de algo inerte, imutável, mas de uma relação com a vida em contínua evolução. A cada leitura recriamos seu cenário, pois estamos diante da realidade viva, não apenas de um texto escrito séculos atrás. A natureza da Palavra se constitui na proposta de Deus que toma a iniciativa de revelar-se na história e, também, a resposta de homens e mulheres a essa iniciativa. Vê-se, dessa forma, que o texto transmitido desde o passado e a experiência atual de quem lê são os dois olhos que permitem perceber a realidade em nível profundo. Profundidade esta que podemos atribuir à ação divina.
Segundo o cardeal José Tolentino Mendonça, “A Bíblia é um impressionante documento sobre a condição humana, uma espécie de grande teatro da humanidade, onde tudo o que é humano surge exposto, tanto a virtude como a imperfeição, tanto a fragilidade exígua como o infinito mais extenso, tanto o pessimismo radical como a formulação crente do absoluto da esperança” (MENDONÇA, 2010, p. 174).
Nela se encontram, como vemos no trecho da Carta aos Efésios (Ef 4,17–5,20), exortações para uma caminhada adequada conforme a proposta de Deus para nossas vidas, para que sua glória, em nós e por meio de nós, e sua graça possam ser identificadas em plenitude em nosso cotidiano, onde quer que estejamos.
A Carta aos Efésios entra em detalhes acerca dos traços característicos do novo ser humano. São eles: a verdade (4,25), a ausência da ira com caráter de ódio (4,26), a justiça relacionada com o trabalho de acordo com a vontade de Deus, e a ausência de corrupção (4,28).
Aqui, vê-se o retrato da vida de Cristo, pois o que precede é o despojamento do espírito do inimigo e das velhas práticas do pecado. Então, o espírito de paz e amor reina nos corações, apesar do mal e dos erros na sociedade. O autor acrescenta que, perdoando uns aos outros (4,32), somos imitadores de Deus (5,1) e chamados ao caminho do amor, como Cristo. Bela pintura, precioso privilégio!
“Vivam no amor”, diz o autor, “assim como Cristo nos amou e se entregou a Deus por nós, como oferta e vítima, como perfume agradável.” (5,2).
Esse é o movimento de Cristo, de total entrega a Deus em nosso favor. O mesmo deve se dar em nós: esta direção do coração para Deus é o fundamento da atividade cristã. Graça e amor veem de Deus e fluem de volta para ele em forma de atenção e cuidado aos outros. Que possamos nos admirar com o exemplo de Jesus, que a sua imagem fique impressa em nós, e, assim, possamos caminhar como ele.
A Carta aos Efésios nos convida a olhar para outras realidades além da nossa, para quem não conhece a Cristo e sua mensagem ou não sente desejo de se aproximar dele. São várias as nuanças que podem ser destacadas, mas colocamos em evidência o nosso papel enquanto cristãos e cristãs que anseiam por testemunhar o amor de Deus para com toda a humanidade.
Muitos são os obstáculos, tanto nossos quanto estruturais, como a dificuldade de atingir outros contextos de forma verdadeira. Todavia, a luta deve ser diária, e do modo mais amoroso e caridoso possível.
Segundo o Papa Francisco no discurso à Cúria Romana na apresentação de votos natalícios em 2019, a humanidade interpela e provoca, isto é, chama a sair e a não temer a mudança. Ele adverte contra a tentação de assumir a atitude da rigidez que nasce do medo da mudança e acaba por disseminar obstáculos pelo terreno do bem comum, tornando-o um campo minado de incomunicabilidade e ódio. “Lembremo-nos sempre de que, por detrás de qualquer rigidez esconde-se um desequilíbrio. E hoje esta tentação da rigidez tornou-se tão atual!”, conclui o Papa.
Que o Senhor nos dê a graça de sermos cristãos e cristãs de modo autentico, e termos mais atenção ao clamor dos que necessitam da luz de sua Palavra.
Que este mês da Bíblia seja de verdadeiro crescimento em nossos corações e na realidade que nos cerca. “Procurai discernir o que é agradável ao Senhor e não sejais participantes das obras infrutuosas das trevas, antes, denunciai-as. Falai uns aos outros com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando e louvando o Senhor em vosso coração, sempre e por tudo dando graças a Deus, o Pai, em nome do nosso Senhor Jesus Cristo” (Ef 5,10-11.19-20).
Pausa para reflexão
1) Como tem sido meu contato com a Palavra de Deus? Interpela-me? Traz luz ao meio em que vivo, à minha vida pessoal e na comunidade?
2) O autor da Carta aos Efésios incentiva-nos a deixar os velhos e maus costumes e assumir uma vida nova, tendo a Cristo como referência (Ef 4). Em que âmbito da minha história isso me toca mais profundamente? Como agir com relação a isso?
3) A todo tempo temos contato com realidades não cristãs ou, que se dizem cristãs, mas deturpam a Palavra de Deus. Como deve ser minha atitude diante dessas conjunturas? E na minha própria casa, na comunidade, o que tenho feito como testemunha do amor de Deus?
Para o estudo do tema do Mês da Bíblia, consultar a obra de SEGANFREDO, Antônio César, BAQUER, Vinicius Pimentel; SILVANO, Zuleica Aparecida. Carta aos Efésios: “É pela graça que fostes salvos” (Ef 2,5). São Paulo: Paulinas, 2023.
Marina Pascual Pizoni é Teóloga e membra do Grupo Shema, do Serviço de Animação Bíblica (SAB/Paulinas)
Referências
MENDONÇA, J. T. Bíblia e literatura: a reconstrução da evidência. Perspectiva Teológica, Belo Horizonte, v. 42, n. 117, p. 171-186, 2010. DOI: 10.20911/21768757v42n117p171/2010. Disponível em: https://www.faje.edu.br/periodicos/index.php/perspectiva/article/view/858. Acesso em: 1 ago. 2023.
FRANCISCO, Papa. Íntegra do discurso do Papa Francisco à Cúria. Vatican News, 2019. Disponível em: https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2019-12/papa-francisco-discurso-natal-curia-romana.html. Acesso em: 3 ago. 2023.
