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Ano Jubilar 2025: A esperança que não se compra

Foto: Vatican Media

No ano jubilar de 2025, peregrinação e esperança se entrelaçam. Duas palavras praticamente sinônimas, complementares. De fato, todo peregrino que se põe em marcha, caminha movido por algum tipo de esperança. E, inversamente, quem tem esperança, ainda que por um fio, não deixará de abrir novas veredas no grande sertão da existência humana, para usar a expressão de Guimarães Rosa.

Hoje em dia, porém, que entendemos por esperança?

O conceito de esperança se banalizou e desgastou. A degeneração das palavras, aliás, atinge também conceitos como amor, família ou democracia. Esse processo distorce as tintas do sentido original.

No caso da esperança, a sociedade contemporânea, na ânsia por novidades, a reduziu a mera expectativa. Esta última, no fundo, tem a ver com aquisição de objetos de consumo, sintonia com a moda, nível de conhecimento e aprendizado, carreira profissional, enfim, com bens tangíveis e palpáveis.

A expectativa se resolve nas universidades, nas lojas do shopping-center, no mercado onde se disputa um lugar ao sol.

Esperança versus expectativa

Esperança não se confunde com expectativa. Aquela navega em outra órbita. Não se trata de adquirir coisas sobre coisas, ter poder e dinheiro, conhecimento ou influência, concorrer ou aparecer... Ela consiste, antes, numa atitude de vida. Exemplo: "Tudo é escuro, medos e dúvidas batem à porta, perguntas inquietantes me angustiam, mas creio que algo ou Alguém caminha ao meu lado"!

Mesmo nesta frágil embarcação que é nossa existência, em meio às águas turvas e bravias das tempestades, creio que  Alguém está na barca, como no episódio do Evangelho. Na noite escura, acendo uma vela: quanto mais densas forem as trevas, maior será seu brilho.

Foto: Freepik

A expectativa conta com as próprias energias, como a astúcia e a inteligência. Já a esperança tem consciência de sua fraqueza, limitação e fragilidade. Entende que conhecimento nem sempre representa sabedoria.

Há analfabetos com maior sabedoria que gente diplomada. Sábio é aquele que, "sabendo que nada sabe", confia na graça e na presença de Alguém.

A expectativa tende a falar e agir com orgulho e prepotência; a esperança, com o silêncio e a escuta, onde reside a sabedoria. Essa atitude de escuta e oração não modifica meus problemas. Modifica, isso sim, meu modo de encará-los e resolvê-los. Nenhuma força sobrenatural fará o que devo fazer por mim mesmo. Mas o fato de contar com ela imprime na alma maior confiança e autoestima.

A expectativa surfa nas ondas da moda e do sucesso. Mas tanto aquela como este podem desiludir. Quem hoje surfa no sucesso, amanhã pode amargar o fracasso, duas faces da mesma moeda.

Reprodução Site Jubileu

Beleza, aparência e celebridade são atributos efêmeros. Dependem do apoio da plateia. Ou, na era das redes digitais, dependem do número de visualizações. Essa dependência carrega um caráter instável e enganador. Ficamos suspensos na agonia e na tortura da audiência, do parecer de outrem. Além disso, guiadas pelo desejo e pelo egoísmo, as expectativas normalmente estão acima de nossas forças, o que torna a decepção certa e inevitável.

A esperança não decepciona

A competição diária requer uma luta sem tréguas. Com frequência, o cansaço inibe os projetos, com o risco do desânimo e da depressão. Ao contrário dessa corda bamba, "a esperança não decepciona", diz o apóstolo Paulo (Cf. Rm 5, 5). Nas horas mais difíceis, ela permanece viva.

A chama da esperança não se apaga. Tem suas raízes no terreno da luz e da fé, e não do sucesso imediato e material. Neste caso, a energia não frustra nem conduz à queda, pois encontra-se depositada em Alguém que nunca fecha a porta a quem bate.

Não é o poder ou o dinheiro, os livros ou a inteligência, tecnologia ou a influência que nos sustentam, e sim a força de Alguém invisível e silencioso, mas sempre presente. "Quanto sou fraco - diz ainda São Paulo - é então que sou forte" (2Cor 12, 10).

Foto: Vatican Media

O Espírito Santo não age sobre a autossuficiência. Esta encontra-se cheia de si mesma, debruçada sobre o próprio umbigo. Não há espaço para a ação do sobrenatural. São as pessoas simples, sábias e humildes, conscientes de seus limites e fraquezas, que se dispõem a receber o auxílio do divino. 

“O Verbo se fez carne e habitou entre nós" (Cf. Jo 1, 14-17) - para divinizar o humano. Apenas, e tão somente, nessa peregrinação, ao mesmo tempo, fiel e criativa, podemos contar com a verdadeira esperança. A esse respeito, muito têm a nos ensinar os migrantes, refugiados, itinerantes e forasteiros.

Pe. Alfredo J. Gonçalves,cs, é sacerdote da Congregação dos Missionários de São Carlos (scalabrinianos), cujo carisma é atuar com migrantes e refugiados. Durante 5 anos, foi assessor do Setor Pastoral Social da CNBB, depois Superior Provincial e Vigário Geral na Congregação supracitada. Hoje, exerce a função de vice-presidente do Serviço Pastoral dos Migrantes (SPM). Recentemente lançou o livro Retratos da Metrópole, organizado pela Missão Paz.


 

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