
Foto: Juliene Barros
Há um ideal que nos é proposto na vivência litúrgica da Igreja Católica. Este ideal é confirmado pela própria natureza da Liturgia e sua verdade, como dimensão básica do ser Igreja que celebra e atualiza as maravilhas de Deus. A Constituição da reforma litúrgica do Vaticano II afirma: “A liturgia consta de uma parte imutável, divinamente instituída, e de partes suscetíveis de mudanças. Estas, com o correr dos tempos, podem, ou devem variar, se nelas se introduzir algo que não corresponda bem à natureza íntima da própria liturgia, ou se estas partes se tornarem menos aptas” (SC 21).
Sendo que o canto, no todo da ação litúrgica, não é um acréscimo ou um enfeite circunstancial, mas parte integrante e autêntica, é necessário que encontre, não só o seu lugar, mas se integre no corpo vivo da celebração. Por este motivo, a Igreja nos pede que cantemos a Liturgia e não na liturgia.
Antes do Concílio
Se nos debruçarmos para contemplar e analisar a história da música litúrgica na Igreja, podemos perceber as variantes mais diversas, na tentativa de responder ao ideal condizente com a natureza da Liturgia e suas exigências pastorais. A Igreja sempre foi mecenas dos grandes compositores, dispondo seus textos litúrgicos a grandes obras musicais para cantar a Liturgia. Lembramos: “Missa solemnis” de Beethoven, “Missa em si menor” de Bach, “Missa de Defuntos” do Padre José Mauricio Nunes Garcia, “Missa do Papa Marcelo” de Giovanni Perluigi Palestrina, “Missa da coroação” de Mozart. Dentre tantas outras, destacamos a “Missa de Angelis”, sempre cantada, e Hoje, mais do que nunca, a partir do Vaticano. Nestas, canta-se o Ordinários da Missa: Kyrie, Glória, Sanctus e Agnus Dei; canta-se a liturgia.
Considerando estes diversos estilos musicais, sua extensão e intensidade artística, era e é normal que sejam executadas por músicos e cantores especiais, depois de muitos e intensos ensaios. Quando executadas nas celebrações litúrgicas, o povo permanecia passivo: quem na simples escuta e admiração, quem se ocupando com outras devoções, ou quem esperando o tempo passar. Antes do Concílio, na maioria das Igrejas, o povo cultivava o “Cantar na Liturgia”, servindo-se de cantos diversos ou devocionais. Lembramos alguns livros mais utilizados popularmente: Cecília, Harpa de Sião, Cantai ao Senhor, Louvemos o Senhor, Liber usualis etc...
Depois do Concílio
Desde que o Concílio Vaticano II aconteceu e foi provocando mudanças na Igreja, começando com a Constituição Sacrosanctum Concilium, sobre a Liturgia, a palavra de ordem e o DNA da reforma litúrgica passou a ser “Participação”: ativa, consciente e frutuosa. Assim que, a música Litúrgica suscitou uma grande preocupação, provocando reflexão e motivando novas composições, sempre tendo em vista a participação. Aqui também começaram as crises dos corais, dos repertórios litúrgicos e dos critérios para se compor. A turbulência das mudanças do pós-concílio nos surpreendeu despreparados. Experimentou-se muita dispersão e deturpação.
Muitas tentativas e poucos critérios bíblico-litúrgicos foram motivando uma enxurrada
de produções musicais.
Nas décadas seguintes ao Concílio, com o surgimento de novas composições, alternativas de uso diverso de instrumentos, surgimento de novos movimentos, novas comunidades e novas teologias, foram se comprometendo os fundamentos sólidos da fé da piedade, depondo contra o antigo adágio: “Lex orando, lex credendi”. Cremos do jeito que a gente ora. Mas, com o andar dos tempos e a dedicação de muitos dedicados estudiosos, compositores e Conferências Episcopais, as questões vão se tornando mais condizentes com a verdade litúrgica da Igreja.

Foto: Juliene Barros
Natureza da Música Litúrgica Cristã
Do canto de animação, da música mensagem, da música para evangelizar, da música catequética, a música litúrgica, com todos os seus elementos: palavra, melodia, harmonia, ritmo e acompanhamento, é diferente. Esta participa da natureza simbólica e sacramental da Liturgia cristã, celebrando o Mistério de Cristo. Desta natureza, decorrem as seguintes marcas de autenticidade:
a) Participação comunitária – A Igreja é comunhão em torno da memória viva de Jesus. A participação faz acontecer esta comunhão; reflete o direito e o dever de todo o cristão que se expressa como assembleia celebrante que louva e agradece, súplica e oferece, por Cristo, com Cristo e em Cristo, ao Pai, na unidade do Espírito Santo.
b) Expressão do caráter ministerial de toda a Igreja – O Corpo de Cristo é uno e diverso. Assim é a Igreja que celebra com membros e funções diferentes. A alguém cabe animar, a outro interpretar. A um cabe presidir, a outros responder. A um proclamar, a outros escutar. Com ministérios diferentes, todos somos chamados a comungar na mesma fé e cantar em uníssono a mesma esperança e o mesmo amor.
c) Dimensão ritual da música Litúrgica – Destaca-se aqui o seu caráter funcional. Este exige adequação ao específico de cada momento, ou elemento ritual de cada tipo de celebração, da originalidade de cada Tempo Litúrgico e da singularidade de cada festa.
d) Canto Litúrgico a serviço da Palavra – A música litúrgica não é feita apenas para comunicar belas melodias, nem apenas precisos ritmos, mas para realçar a força da Palavra e ser a sua serva. Aqui, todo cuidado é pouco, para que os instrumentos não sufoquem a Palavra, nem os cantores roubem a participação orante da assembleia.
e) Expressão do Mistério Pascal de Cristo – Aqui faz-se importante a sensibilidade e atenção ao tempo litúrgico e suas festas. Este Mistério perpassa o ano litúrgico do Cristão, dando sentido à vida, educando a fé, animando a esperança e justificando o amor-caridade. Neste clima Pascal, a música Litúrgica é componente animador daquela alegria que o mundo não pode tirar.

Frei Luiz Turra. Foto: Arquivo Pessoal
Música Ritual
A música ritual faz parte essencial da Celebração Litúrgica; é parte da natureza sacramental da Liturgia. Nós somos filhos do estilo da sinagoga Judaica, onde o canto ritual e os agentes do canto fazem parte integrada do memorial celebrado. Não há nada e ninguém justaposto, mas tudo e todos fazem parte do todo da ritualidade vivida. Para clarear a beleza e unidade das alternâncias de uma celebração, é bom dar-nos conta das diferenças:
a) Cantos que são rito – São aqueles que se canta, conforme as Palavras rituais da
Liturgia e são rito: Ato penitencial, Glória, Salmo Responsorial, Santo, Aclamação
durante a Oração Eucarística, Pai Nosso.
b) Cantos que acompanham um rito – São aqueles que se canta enquanto acontece um rito: Canto de procissão na entrada, de Aclamação ao Evangelho, apresentação das oferendas, o Cordeiro de Deus que acompanha o rito da fração do Pão, canto processional de Comunhão.
Discernir e escolher o repertório adequado
A qualidade e o resultado do bom discernimento são revelados na proporção da boa formação litúrgica de quem prepara e presta este serviço à assembleia.
Felizmente, hoje, a Igreja garante critérios bem mais claros da natureza da Liturgia, no todo da vida cristã, e também das partes que a compõe. Cantar a Liturgia é um caminho ainda longo a ser percorrido. Além da riqueza de cantos que são ritos oferecidos no Missal Romano, temos outras sugestões que nos são oferecidas por compositores que buscam colaborar.

Foto: Juliene Barros
Cantando os Evangelhos
Sabendo que o canto processional de Comunhão, idealmente, deve ser conectado com o Evangelho do dia, procurei compor todos os Evangelhos dos Domingos do tempo comum: Ano A, B e C, bem como os de Advento e Quaresma. Paulinas - COMEP e uma equipe de músicos e cantores competentes, com muito cuidado e maestria, gravaram as composições de forma artística e didática.
Pela prática na liturgia dominical da Paróquia onde sou Pároco, confirmo a validade desta experiência, como ajuda na vivência desta conexão: Mesa da Palavra e Mesa da Eucaristia. No canal de Músicas Litúrgicas da Paulinas-COMEP e nas plataformas digitais estão os álbuns de cada Ano Litúrgico.
- Cantando os Evangelhos - Tempo Comum A
- Cantando os Evangelhos - Tempo Comum B
- Cantando os Evangelhos - Tempo Comum C
- Cantando os Evangelhos - Quaresma B
- Cantando os Evangelhos - Quaresma C
- Cantando os Evangelhos - Advento C
