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Cartas na era digital: a arte de se comunicar à moda antiga

Em tempos digitais, pessoas ainda preferem comunicar-se à maneira antiga, resgatando as tradições do passado

Foto: Pixabay

Os tempos da “era digital” nos permitem muitas coisas, inclusive, conversar com as pessoas instantaneamente por meio das redes sociais, seja por trocas de mensagens no WhatsApp, seja por chamada de vídeo, ou deixar aquele e-mail e logo depois receber a resposta. Mas nem sempre foi assim.

No passado, as cartas eram a única forma de comunicação, além de serem consideradas o meio mais antigo de comunicação, ou seja, existem há mais de 3.500 anos a.C., e diversas eram as formas pelas quais eram enviadas aos seus destinatários, como pombo-correio, navios e cavalos. Agora, imaginem o tempo que levavam para chegar aos seus destinos finais!

Com o passar dos anos, a chegada da modernidade e os avanços tecnológicos, a prática de escrever cartas foi aos poucos ficando esquecida, pois a tecnologia oferece uma grande praticidade que tornou rara uma ligação normal, sem o auxílio da internet, ou de uma carta escrita à mão.

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Os Correios hoje tem uma função simplesmente comercial, pois já não trazem mais aquelas boas correspondências. Geralmente chegam a nossas casas sem que nem percebamos.

Zenilda Rodrigues é carteira em Araticum, distrito de Ubajara, no Ceará, há cerca de 13 anos. Ela conta que ama a profissão, se sente bem com o que faz: “É gratificante ver o sorriso no rosto das pessoas, depois de receber a sua encomenda”, afirma.

Durante todo esse tempo de trabalho, foram raras as vezes em que entregou cartas: “Para ser sincera, nestes treze anos, se eu tiver entregue umas cinco cartas, foi muito. Hoje em dia, 100% das correspondências que chegam são boletos, cartões de banco ou produtos comprados pela internet”, complementa a carteira.

Porém, quem pensa que escrever cartas ficou no passado, está muito enganado. A acadêmica de Publicidade e Propaganda Nathália Saidelles Cunha, de 28 anos, desde criança sempre gostou de escrever.

Escrevia para os programas Bananas de Pijama e Pandorga, que era muito famoso no Sul. Em 2012, levada por um desejo de aperfeiçoar seu inglês, começou a pesquisar sobre pessoas que trocavam cartas. “Achei um site que na época era bastante conhecido, mas hoje já não existe mais. Começamos as trocas de cartas, fiz amigos, pois nunca fui uma pessoa de ter muitos amigos, sempre fui meio sozinha, e as cartas me proporcionaram isso, de ter com quem conversar, sabe? Me tiraram da solidão”, explica a estudante.

Até então, as correspondências eram trocadas somente com estrangeiros. No ano de 2015, porém, ela descobriu o blog “Mundo das Cartas” e, a partir daí, passou a se corresponder com brasileiros. “Atualmente, devo ter por volta de quarenta correspondentes nacionais e internacionais.” A jovem já viajou para São Paulo e Rio de Janeiro, a fim de conhecer as pessoas com as quais se corresponde por meio das cartas.

“A magia da comunicação no passado era de emoção entre o remetente e o destinatário, pois se sentia aquele carinho por meio das cartas escritas à mão. Apesar da tecnologia ter diminuído a distância e o tempo, contudo, pode-se incluir a frieza nesses meios digitais velozes.”

Foi ouvindo histórias como essas de seu pai que a publicitária e estudante de Jornalismo Mariana Loureiro, de 25 anos, que sempre foi apaixonada por escrita, se interessou por esse mundo.

“Meu pai tem 62 anos e sempre me contava que, na década de 1980/1990, costumava participar de um grupo de troca de cartas internacionais, com brasileiros e pessoas de outros países. Sempre achei esse hobby curioso e ao mesmo tempo legal; então, em 2016, comecei a pesquisar sobre o assunto, se ainda existiam esses grupos. Encontrei alguns, porém meio desatualizados, mas me inscrevi e comecei a trocar cartas”, conta Mariana.

Contudo, segundo ela, ainda faltava algo; foi então que, um ano depois, sentiu necessidade de ter seu próprio clube de troca de cartas. Dessa forma, nasceu O envelope de papel: “Organizei-o do jeitinho que imaginava que as pessoas iriam se interessar, para que elas pudessem ver que as minhas intenções eram sérias. Para minha surpresa, no dia seguinte apareceu uma inscrição. Mas como, se não havia nem comentado com meus amigos, e apareceu uma pessoa da Paraíba? Eu sou de Minas Gerais e nunca fui lá. A empolgação tomou conta de mim e percebi que muitos outros tinham esse desejo. Cada dia que passava as inscrições aumentavam. Foi aí que a ficha caiu e percebi que não era somente eu que tinha esse interesse”.

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Até o final de 2019, o site tinha 500 inscritos. Mas foi no período da pandemia que Mariana viu seu projeto ganhar ainda mais força e triplicar as inscrições, chegando a 150 por mês: “Era como se as pessoas tivessem descoberto um novo hobby, algo para fazer. E, em dezembro de 2021, havia mais de 3.200 pessoas participando”, ela conta. Como é o caso da Rebeca Galvão, de 14 anos, que faz parte do grupo teen, já que o clube O envelope de papel é dividido por idade (adultos e teen).

“Eu tinha muito tédio, não consegui fazer nada em casa. Na pandemia eu fiquei muito irritada, agitada. Eu só ficava no celular, não saía de casa. Então, eu descobri o grupo, entrei e me apaixonei pelas cartas; eu sou, assim, maravilhada com elas. Confesso que no início foi meio estranho, não era como pegar no celular e ver as fotos das pessoas. Mas isso que é o mais legal, você ter que imaginar como elas são, a voz, as expressões que fazem escrevendo uma carta. Por exemplo, em uma mensagem de texto você pode mandar emojis; já em uma carta, não tem muito como se expressar. Com isso, comecei a sair mais do celular, praticar esportes; parece que trocar cartas me deu mais motivação para a vida”, comenta a jovem.

Para que tudo isso fosse possível, Mariana encontrou nas redes sociais a ajuda que precisava para a divulgação. Por meio do seu perfil no Instagram @oenvelope_, que soma 4.803 seguidores, a maioria das pessoas descobre o clube. Além dele, ela também tem um grupo no Facebook e no Telegram: “É muito gratificante ver um projeto fazendo bem às pessoas, que dizem se sentir em uma família, acolhidos. Sempre tive esse desejo desde criança de fazer algo que pudesse mudar a vida das pessoas, e hoje vejo esse sonho sendo realizado”.

Fazer o bem por meio de cartas

Após assistir a uma matéria na TV, na qual se falava da importância de escrever cartas para pacientes em hospitais, a assistente administrativa Kátia Cilene Martineli, de 52 anos, conta que teve esse desejo: “Ao ver o relato de duas acadêmicas e de uma médica sobre a importância das cartas no tratamento e na melhora no quadro dos pacientes, falei comigo mesma: ‘Vou escrever’. Com a ajuda de um amigo, que fazia trabalho voluntário no hospital de Campo Mourão (PR), as correspondências eram entregues ali. Cheguei a ir duas vezes entregá-las, mas, com a chegada da pandemia, me proibiram”. 

Esse simples gesto leva afeto, carinho e faz com que os doentes saibam que são importantes para alguém. É fazer o bem, mesmo sem ser reconhecido; é demonstrar sentimentos neste mundo tão caótico.

“O meu amigo, que entregava as cartas e conversava com os pacientes, via o sorriso deles quando recebiam aquele simples papel, mas que continha sentimentos, e ficavam muito felizes. Quando soube que a ex-esposa de outro amigo ficou doente por um longo período, escrevi para ela falando coisas boas, e todas as vezes que alguém entrava no quarto e tinha um tempo para ler para ela, a carta estava ali, à disposição. A família ficou bastante edificada com este simples gesto”, comenta Kátia.

E por que não incentivar os outros a fazerem o mesmo? Kátia acabou levando esta ideia para outros lugares. “Passei para as crianças da turma de escola do meu filho esse projeto de escrever para pacientes; elas escreveram cartas lindíssimas. Repassei também para o grupo de catequese e para outras paróquias aqui da minha cidade, e muitas pessoas passaram a me mandar as cartas por e-mail. A gente, então, imprimia cada uma delas e remetia aos pacientes, como, por exemplo: ‘Para uma linda dama’, ou ‘Para o senhor cavalheiro’. Endereçávamos mais ou menos dessa forma, porque não tínhamos nomes de ninguém. Quando chegou a pandemia, começamos a escrever para os funcionários, médicos, maqueiros, enfermeiros, cozinheiros, para todo mundo”, completa a assistente administrativa. Hoje, ela faz parte do grupo de troca de cartas.

Escrever faz bem

Para Jardan Chandley dos Santos Leal, psicólogo que atende no Sistema Único de Saúde (SUS), escrever nos traz um efeito terapêutico: “As cartas são o que há de mais íntimo quando o assunto é expressar sentimentos pela escrita. A importância que elas têm para nós é imensa, pois nem sempre conseguimos demonstrar nossos sentimentos apenas pela fala. Nesses casos, as cartas caem como uma luva, pois conseguimos não só demonstrar aquilo que queremos dizer como também apresentar de forma esquematizada, com começo, meio e fim”.

Inspiração para outras pessoas 

Durante a pandemia, Nathália criou um projeto na faculdade para inspirar as pessoas a trocarem cartas. Ela fez bilhetes escritos à mão explicando os cinco motivos pelos quais as pessoas deveriam começar a trocar cartas, e saiu os entregando nas casas do seu bairro.

A jovem conta como é gratificante ser inspiração para as pessoas: “Saber que estou espalhando uma mensagem tão boa, positiva. Eu mesma fiz muitos amigos, muitos contatos, já troquei muitas experiências por meio das cartas. E quando as pessoas chegam e me falam: ‘Ah, comecei a trocar cartas por sua causa, vendo seus vídeos no canal’, isso enche meu coração e me dá mais ânimo para continuar escrevendo no meu blog, postando vídeos no canal sobre essa troca de cartas”.

Além disso, ela também tem um blog, um canal no YouTube e participa de todas as redes sociais (Instragram, Facebook e Twitter). Por esses meios, ela compartilha a rotina de escrever e receber cartas, dá dicas de como começar a escrever, além de possuir uma lojinha de papelaria. Para conhecer seu trabalho, acesse https://www.natxhypy.com/.

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O valor das cartas

Não só Mariana como também todos destacam o valor que as cartas de papel escritas à mão tem. Mariana compara as cartas com as redes sociais: “Com as cartas é diferente, a pessoa tem que dedicar aquele tempinho para você, capricha. Se eu sei que determinada pessoa gosta do Harry Potter, eu vou decorar a cartinha com aquele tema. Por meio delas pode-se descobrir, pela forma de escrever do remetente, se ele é ansioso, se tem o pulso firme, por conta do relevo que se forma do outro lado do papel. As pessoas caminham até o correio, pagam para enviá-las para você”, completa a jovem.

Como participar

Para participar do clube de cartas de Mariana, a primeira coisa é se inscrever no site (www.oenvelopedepapel.com), preenchendo a ficha para poder ser aprovado. O clube é dividido em duas categorias: o teen (menores de idade) e o adulto (maiores de 18 anos), por questões de segurança, para deixar os pais tranquilos sobre com quem as crianças estão se correspondendo. Após se cadastrar, o participante receberá uma senha para desbloquear a lista de endereços e escolher quantos quiser.

 

Dalila Lima é jornalista, correspondente da Rede Vida no Ceará. Teve sua monografia entregue ao Papa Francisco e recebeu uma carta em agradecimento do Santo Padre. Instragram: @dalilalimajornalista.

 

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