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Cisternas, o “Ovo de Colombo” no Semiárido Brasileiro

Cisternas de Placas levam 30% dos beneficiários do Bolsa Família a renunciar a esse benefício social porque já produzem e vivem melhor

 

Foto: Ana Lira/ASA - Brasil

Quando nos deparamos com a Cisterna de Placas no Semiárido Brasileiro, sabíamos que estávamos diante do “Ovo de Colombo” para superar a sede humana na região. Tudo que estava na música de Luiz Gonzaga, nas pinturas de Portinari, nos romances de Raquel de Queiróz e Graciliano Ramos, na poesia de João Cabral de Melo Neto, realidade vivida até a década de 80, agora poderia encontrar caminhos de superação. O segredo estava na captação da água da chuva em reservatórios seguros para consumo humano, posteriormente ampliada para a produção de alimentos e dessedentação dos animais.

Porém, talvez poucos imaginassem que a proposta seria transformada em realidade em pouco mais de 20 anos, tendo a sociedade civil como organizadora e implementadora dessas inovações, pouco depois financiadas em larga escala pelos governos Lula e Dilma, ainda que com muitos confrontos, em razão da disposição governamental de prosseguir no velho paradigma de combate às secas.

 

Foto: ASA - Brasil

Mas, o que era uma tecnologia social, transformou-se em símbolo pequeno e grandioso do que hoje chamamos de Paradigma da Convivência com o Semiárido. Ele inclui novas tecnologias sociais, a educação e a comunicação contextualizadas, a decifração do bioma Caatinga e seu clima semiárido, a descoberta de seus potenciais e limites, o diálogo com os saberes populares, o processo organizativo e coletivo que envolve mais de 3 mil entidades, uma multidão de técnicos agrícolas que visitam as comunidades acompanhando obra por obra, a implantação já de 1.111.695 cisternas para beber e de 215.570 tecnologias voltadas ao armazenamento de água para animais e produção (MDS, 2024). 

O resultado é impressionante, a mortalidade infantil desabou de 140 para 16 por mil nesses vinte anos, aliviou o trabalho feminino de buscar água, já não se fala em sede na região nordestina, em migrações intensas, em fome, em saques. Ainda mais, a região tida como inviável, feia, seca, sem futuro, tornou-se em poucos anos espaço de disputa das empresas eólicas, solares, de irrigação e mineradoras atrás de terras raras e minerais estratégicos para a transição energética, embora essas sob domínio do capital.

 

Foto: Ana Lira/ASA- Brasil

Ainda há muito que caminhar, mas também já caminhamos muito. O que parecia um sonho hoje é realidade. O jornal Valor Econômico publicou um estudo acadêmico, afirmando que 30% dos beneficiários do Bolsa Família renunciaram a esse benefício social porque já produzem e vivem melhor após receber essas cisternas de beber e produzir.

 

Foto: João Gabriel Marins/ASA- Brasil

O diagnóstico correto, a seriedade da sociedade civil, sua capacidade de organização e gestão dos recursos, sua disponibilidade em tecer essa rede de cisternas e outras tecnologias, a agroecologia adequada ao Semiárido, com o apoio de políticas públicas, colocam a região na vanguarda da adaptação às mudanças climáticas em território brasileiro. 

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