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Cada vez mais pessoas recorrem a ferramentas de inteligência artificial para falar sobre sentimentos, pedir conselhos ou simplesmente desabafar. Em redes sociais e fóruns da internet, multiplicam-se relatos de quem usa o ChatGPT como se fosse um espaço de escuta emocional. O fenômeno chama a atenção de especialistas e levanta uma pergunta importante: até que ponto a tecnologia pode ajudar e onde estão os limites?
Para o psiquiatra Ary Gadelha de Alencar Neto, professor da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo, essa busca tem várias explicações. Falar sobre questões íntimas nem sempre é fácil, e procurar ajuda profissional envolve tempo e custo.
“Ferramentas como o ChatGPT podem parecer uma saída simples e acessível. Mas muitas pessoas não têm clareza sobre as limitações e os riscos desse tipo de uso”, explica.

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Segundo ele, o contexto atual também pesa. A vida cotidiana se tornou mais acelerada e cheia de estímulos, o que pode aumentar a sensação de sobrecarga emocional. “O volume de informações cresceu muito e tudo acontece muito rápido. Esse ritmo pode gerar pressão e aumentar a ansiedade”, afirma.
Sensação de acolhimento
Um dos fatores que ajudam a explicar o fenômeno é a forma como as novas inteligências artificiais se comunicam. Com linguagem natural e respostas rápidas, elas dão a impressão de um diálogo.“A interface conversacional pode gerar uma sensação de acolhimento, mas isso não equivale a um vínculo terapêutico real”, diz Gadelha.
Na psicoterapia, a relação entre paciente e profissional é parte essencial do tratamento. Não se trata apenas de responder perguntas ou oferecer conselhos. “A relação terapêutica envolve presença, olhar, postura corporal e o ambiente em que ocorre o atendimento. Esses elementos ajudam a compreender melhor o sofrimento da pessoa e orientar o tratamento”, explica.

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Quando a tecnologia entra na conversa
Apesar dos limites, alguns profissionais também veem na popularização dessas ferramentas uma oportunidade de reflexão sobre a própria prática clínica.
Para o psicólogo Renan Silva Carletti, professor da Fundação Armando Alvares Penteado, o fenômeno não deve ser analisado apenas pelo lado dos riscos. “Muitos especialistas criticam o uso da IA, e os riscos existem. Mas também é importante olhar para o que as pessoas já estão fazendo e tentar entender esse movimento”, afirma.

O psicólogo e professor da área de Psicologia e Comunicação na FAAP, Renan Silva Carletti: “A terapia é, sobretudo, o encontro entre duas pessoas”. Foto: Arquivo pessoal
Entre os fatores que ajudam a explicar esse comportamento estão a facilidade de acesso e o custo mais baixo em comparação com a terapia tradicional. Ao mesmo tempo, ele observa que a interação com a inteligência artificial pode estimular algo importante: a reflexão.
“O ChatGPT tem uma qualidade interessante, que é a disposição para fazer perguntas. Às vezes, essas perguntas ajudam a pessoa a pensar sobre a própria experiência”, afirma.
Ainda assim, o psicólogo reforça que a psicoterapia vai além de um espaço para desabafo ou tomada de decisões: “A terapia é, sobretudo, o encontro entre duas pessoas.”

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Um alerta importante
Os especialistas concordam que a inteligência artificial pode ser usada como ferramenta complementar, por exemplo, para organizar pensamentos ou registrar dúvidas que depois serão levadas para a terapia.
O problema surge quando a tecnologia passa a ocupar o lugar das relações humanas. Renan Carletti aponta um sinal de alerta: quando a conversa com a IA se torna um espaço fechado, sem compartilhamento com outras pessoas. “Se alguém conta coisas apenas para a inteligência artificial e não consegue dividir isso com mais ninguém, pode ser um indicativo de isolamento”, observa.

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Nesses casos, procurar ajuda profissional é fundamental. Segundo Ary Gadelha, o momento de buscar apoio especializado é quando as emoções passam a interferir na vida cotidiana. “Quando o sofrimento começa a prejudicar as atividades do dia a dia (no trabalho, na família ou nas relações sociais) e essa situação persiste, é importante procurar um profissional”.
Entre tecnologia e cuidado humano
O avanço da inteligência artificial abre novas possibilidades de diálogo e reflexão, mas especialistas lembram que o cuidado com a saúde mental continua profundamente ligado às relações humanas.
Em um momento difícil, conversar com uma inteligência artificial pode até ajudar a organizar pensamentos ou colocar sentimentos em palavras. Mas, quando o sofrimento se torna persistente, lembre-se de que o cuidado com a saúde mental continua passando por algo essencial: o encontro entre pessoas e a escuta de quem pode ajudar de verdade.
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