
Foto: Viviani Moura, fsp
A Cúpula dos Povos, realizada entre 12 e 16 de novembro, transformou Belém (PA) em um grande território de participação popular. Mais de 1.100 organizações se reuniram para apresentar ao mundo suas reivindicações por justiça climática, defesa dos territórios e participação direta nas decisões que moldam o futuro do planeta.
O encontro se encerrou com a entrega da Declaração da Cúpula dos Povos Rumo à COP30 ao presidente da COP30, embaixador André Corrêa do Lago, em um momento simbólico que consolidou a força política desse processo coletivo, reafirmando o compromisso na defesa da justiça socioambiental.

Leitura da Declaração da Cúpula dos Povos Rumo à COP30. Foto: Natanne Carla Silva de Miranda
O que é a Cúpula dos Povos dentro da COP30?
A Cúpula dos Povos funciona como o coração social da COP30. Enquanto as negociações oficiais tratam de metas e acordos entre países, a Cúpula reúne povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, movimentos urbanos, juventudes, organizações ambientais e coletivos de todo o mundo.

Foto: Natanne Carla Silva de Miranda
É o espaço onde as comunidades que mais sentem os impactos da crise climática constroem suas próprias propostas e pressionam governos por decisões justas, urgentes e baseadas nos territórios.
Os principais pontos da Carta da Cúpula dos Povos
A declaração entregue ao presidente da COP30 defende, entre outros pontos:
• Fim das falsas soluções de mercado e reconhecimento de bens comuns (água, florestas, ar) como não mercadorias.
• Demarcação e proteção de terras indígenas e territórios tradicionais.
• Desmatamento zero, restauração ecológica e recuperação de áreas degradadas.
• Transição energética justa e popular, com superação da dependência de combustíveis fósseis.
• Combate ao racismo ambiental e construção de cidades justas, com saneamento, moradia e mobilidade sustentável.
• Reparação integral por danos causados por mineração, combustíveis fósseis e desastres ambientais.
• Fortalecimento da agroecologia, reforma agrária popular e soberania alimentar.
• Proteção a defensores ambientais e enfrentamento à criminalização dos movimentos sociais.
• Responsabilização do Norte global e das corporações pelos danos climáticos e socioambientais.
As infâncias também falaram

Foto: Viviani Moura, fsp
A Cúpula das Infâncias, com participação de crianças e adolescentes, aprovou sua própria carta — um documento forte, emotivo e político.
Entre os trechos mais marcantes:

Leitura da Carta das Infâncias. Foto: Natanne Carla Silva de Miranda
“Cuidem do nosso planeta agora. Queremos continuar vivos e vivas.”
“Não temos poder, dinheiro ou cargos importantes, mas temos o futuro.”
“Os adultos devem fazer sua parte… E devem nos ouvir – porque muitas vezes mandam a gente calar a boca quando tentamos falar.”
As falas que marcaram o encerramento
Raoni Metuktire, indígena do povo Kayapó. Foto: Natanne Carla Silva de Miranda
Entre as falas estava a do cacique Raoni Metuktire, indígena do povo Kayapó: “Mais uma vez, peço a todos que possamos dar continuidade a essa missão de poder defender a vida da Terra, do planeta. Eu quero que tenhamos essa continuidade de luta, para que possamos lutar contra aqueles que querem o mal, que querem destruir a nossa terra”, disse Raoni.

Foto: Natanne Carla Silva de Miranda
André Corrêa do Lago, presidente da COP30, afirmou: “Estou muito emocionado de estar aqui com vocês. Porque o Brasil está organizando uma COP única, e grande parte do fato de ela ser única é por causa da sociedade civil que está tão ativa. (…) Saber que a sociedade civil mundial tem voz em Belém é absolutamente sensacional. (…) Que a COP30 seja lembrada como a COP da virada.”
A ministra dos Povos Indígenas, Sônia Guajajara, ressaltou conquistas e desafios: “A COP30 já está marcada como a COP que registrou nos documentos o tema de florestas, o tema de territórios, o tema de povos indígenas, porque passaram a COP1, a COP2, a COP3, a COP4, até a COP15, nenhuma dessas vozes aqui estava sendo representada. Mas agora, 10 anos após o acordo de Paris, nós estamos aqui com a Conferência do Clima na Amazônia, com a Conferência do Clima no Brasil. Nós já registramos nesta COP30 a maior e melhor participação indígena da história das COPs. Agora, aqui em Belém, nós temos 950 indígenas registrados na zona azul. A Amazônia tem gente além das árvores — e essa gente que está cuidando, que está protegendo muitas das vezes com a sua própria vida, afirmou a ministra.

Da direita para a esquerda: André Corrêa do Lago, Marina Silva e Sônia Guajajara. Foto: Natanne Carla Silva de Miranda
A mensagem do presidente Lula — lida por Marina Silva
Marina Silva abriu seu discurso e leu a mensagem enviada pelo presidente Lula:“É uma enorme satisfação me dirigir aos participantes da Cúpula dos Povos. A COP30 não seria viável sem a participação de vocês. (…) Mudar nossa relação com o planeta é uma tarefa urgente. Queremos um mundo em paz, mais solidário, menos desigual, livre da pobreza, da fome e da crise climática. (…) Precisamos de um mapa do caminho, para que a humanidade, de forma justa e planejada, supere a dependência dos combustíveis fósseis, pare e reverta o desmatamento e mobilize recursos para estes fins. Não podemos sair de Belém sem decisões sobre estes temas.”
Em seguida, a ministra enfatizou a centralidade da democracia:“Só na democracia é possível que o operário, a seringueira, a indígena cheguem onde chegamos. (…) O clima já mudou. Não é mais urgência, é emergência climática.”

Foto: Natanne Carla Silva de Miranda
Boulos: “É hora de colocar os pingos nos is”
O ministro-chefe da Secretaria-Geral, Guilherme Boulos, destacou responsabilidades:
“Quem encheu a nossa atmosfera de carbono, quem poluiu os rios, quem envenenou a terra, quem desmatou as florestas, foram as grandes corporações multinacionais e os países do Norte global. A responsabilidade maior é deles. (…) Agora é a vez de eles colocarem a mão no bolso para resolver o aquecimento global.”
E anunciou uma vitória concreta da mobilização: “Haverá consulta prévia, livre e informada antes de qualquer projeto relacionado ao rio Tapajós. Esse é um compromisso do Governo Federal”, destacou Boulos.
Leia também
• Carta completa da Cúpula dos Povos – com suas reivindicações por justiça climática.
• Carta das Infâncias – escrita e votada por crianças e adolescentes de todo o país.
- COP30 e os livros para um futuro sustentável: histórias, saberes e ações pelo planeta.
