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Cerca de 200 anos após a ressurreição de Jesus, os cristãos dedicavam três dias para a oração, meditação e oração com o intuito de obter os frutos espirituais da Páscoa. Foi a partir do século III que os cristãos passaram a considerar a Quaresma como tempo de preparação para a Páscoa. No começo, reservada de modo particular aos catecúmenos e aos penitentes que procuravam a reconciliação.
Os penitentes eram aqueles que haviam cometido pecados públicos e que desejavam retornar à fé cristã. Eles não eram readmitidos rapidamente. Primeiro passavam por um tempo de prova, e na quinta-feira apresentavam-se ao bispo vestidos de sacos, com a cabeça coberta de cinzas.
Declaravam publicamente seu arrependimento e o bispo ia ao seu encontro, abraçava-os como gesto de perdão e acolhimento na comunidade cristã. Com o passar dos anos, esse tempo de conversão foi estendido a toda a comunidade cristã. Todavia, não havia ainda a celebração da Quarta-Feira de Cinzas como início da Quaresma. Somente por volta do ano 350 o tempo da Quaresma foi definido.
O que é a Quaresma?
Quaresma vem do latim quadragesima dies, que significa o quadragésimo dia antes da Páscoa. É um tempo de preparação. Mas a quaresma não é apenas uma preparação para a Páscoa.
Trata-se de um caminho de fé que tem sua fonte na escuta da Palavra de Deus, nos sinais sacramentais celebrados na comunidade de fé durante todo o período quaresmal que se inicia na quarta-feira de cinzas. Recordamos aqui que sacramentais são diferentes de sacramentos.
Os sacramentos são sete e têm sua centralidade no Mistério Pascal, por isso a Igreja sugere que o Batismo, Crisma e Eucaristia sejam celebrados na Vigília Pascal.

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Na Quaresma, ao receber as cinzas, o fiel participa de um sacramental. Isto é, o gesto de receber as cinzas não confere graça, mas dispõe o coração para a graça. Os sacramentais foram instituídos pela Igreja e contribuem para a santificação do fiel cristão no cotidiano, dando-lhe força para viver os sacramentos. Receber as cinzas não significa que os pecados estão perdoados, mas desperta a pessoa para a conversão.
Quando começa a Quaresma?
A Quaresma tem início na quarta-feira de cinzas e termina antes da missa vespertina da ceia do Senhor ou da missa do lava-pés, como conhecemos popularmente. A missa da ceia do Senhor principia o Tríduo Pascal. A quaresma começa com as cinzas e a páscoa com o fogo.

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A cinza com a qual somos assinalados na quarta-feira de cinzas é um produto de combustão, isto é, algo que é consumido pelo fogo. Portanto, faz sentido que a Quaresma tenha início com as cinzas dos ramos que foram consumidos pelo fogo. Ela nos recorda a brevidade da vida, que para o cristão ganha sentido quando vivida à luz da fé na ressurreição.
As cinzas são um símbolo de humildade, fragilidade e conversão. Ela também nos faz pensar na dor e no luto. É um forte convite a tomar consciência da própria pequenez diante de Deus. O presbítero ou ministro, na quarta-feira de cinzas, diz: “Lembra-te de que és pó e ao pó voltarás.” Isto não deve soar como ameaça, mas como um convite ao reconhecimento de que não somos eternos aqui, não controlamos tudo. A riqueza, aparência e status não são essenciais. Precisamos conectar nossa vida com o que é eterno.
Implicações das cinzas para a vida cristã
Essa frase “Lembra-te que és pó e ao pó voltarás” é um convite a tirar as máscaras, reconhecer limites e recomeçar. Quaresma é um chamado de atenção para mudarmos a rota. Para aqueles e aquelas que não praticam a fé cristã, a Quaresma pode ser um antídoto contra a superficialidade. Na sociedade do barulho, as cinzas podem ser um sinal silencioso que grita: volte para o essencial!

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Quem corre o risco do narcisismo espiritual, cuide para não confundir virtude com identidade digital. Porque o evangelho que a liturgia nos apresenta neste dia é um confronto direto contra essa tentação. Preste bem atenção! Quando chegar a nossa hora, a pergunta não será quantos viram o que postamos, mas para quem e o que postamos.
Para o cristão, a vivência quaresmal tem suas implicações pessoais e pastorais. Isto vai se manifestar na espiritualidade quaresmal, na prática do jejum, que ajuda a reordenar os desejos e a libertação da autossuficiência; da oração, como reconhecimento da nossa dependência filial de Deus Pai; da caridade, que ajuda a superar o egocentrismo nos abrindo ao outro independente da etnia, religião ou gênero. Para o homem e a mulher que creem em Jesus Cristo, o pó não significa dissolução definitiva, mas matéria destinada à transfiguração.
Sugestão de leitura para viver a espiritualidade quaresmal
Convertei-vos e crede no Evangelho - Meditações para o tempo da Quaresma e Tríduo Pascal
