Notícias
Notícias

Depois da enchente, a luta por recomeço no Rio Grande do Sul

Relato de moradora da Ilha Grande dos Marinheiros revela as marcas deixadas pela tragédia de 2024 e a mobilização de comunidades atingidas

Região do porto, Centro Histórico de Porto Alegre. Foto: Ricardo Stuckert / PR

Quando entrou em casa naquela noite de maio de 2024, a água estava na altura do joelho. Duas horas depois, já chegava à cintura. Perto da meia-noite, Keise Luciana Almada Lopes recebeu a ligação que ainda hoje ecoa em seus pesadelos: a enchente já havia coberto a porta de sua casa na Ilha Grande dos Marinheiros, em Porto Alegre (RS).

Quase dois anos depois do maior desastre natural da história do Rio Grande do Sul, ela ainda tenta reconstruir a vida. “Antes da enchente de maio de 2024, já havíamos passado por inúmeras outras cheias, mas dessa vez foi diferente”, conta.

Keise Luciana Almada Lopes: "Você não esquece. O corpo começa a viver como se estivesse sempre preparado para uma guerra".

Keise trabalhava vendendo açaí. Em novembro de 2023, uma cheia já havia causado perdas parciais. Mesmo assim, ela conseguiu recomeçar e abriu um pequeno espaço para continuar trabalhando fora da ilha. Poucos meses depois, tudo seria novamente destruído.

“Em maio minha casa e o espaço que eu tinha foram totalmente atingidos. Perdi tudo no trabalho e perdi tudo em casa. Fiquei com a roupa do corpo e algumas mudas que levei para as crianças”.

Ela lembra com detalhes o dia em que a água começou a subir rapidamente. “Levei minha filha para a creche às 8h e às 11h me chamaram às pressas porque o espaço estava alagando. Consegui levar as crianças para a casa de um familiar e voltei para tentar salvar minhas coisas”.

Detalhes da casa de Keise. Foto: Arquivo pessoal

Quando entrou em casa, por volta das 18h, a água estava na altura do joelho. Duas horas depois, já chegava à cintura. “A última ligação que recebi da minha mãe foi perto da meia-noite. Ela disse que a água já tinha coberto a porta da minha casa. Essa ligação ainda ecoa nos meus pesadelos”.

Durante dias, Keise não teve notícias da família, que estava na BR-290 sem bateria nos celulares. Ela conta que passou cerca de cinco dias sem conseguir contato com ninguém. Quando finalmente conseguiu retornar à ilha, o cenário era de devastação. “Foi ali que caiu a ficha de que não havia mais nada.”

Imagem de satélite da Grande Porto Alegre  - Imagem do OLI (Operational Land Imager) do Landsat 8. Foto: Domínio público

O maior desastre natural da história do estado

De acordo com levantamento da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico, as enchentes de 2024 foram provocadas por chuvas com duração, intensidade e abrangência territorial nunca registradas no Brasil.

A cheia fez o nível do Lago Guaíba atingir o recorde histórico de 5,37 metros em Porto Alegre, provocando alagamentos em grande parte da região metropolitana.

Segundo o relatório As Enchentes no Rio Grande do Sul – Lições, Desafios e Caminhos para um Futuro Resiliente, cerca de 2,4 milhões de pessoas foram afetadas em 478 municípios, com 183 mortes registradas e prejuízos econômicos estimados em bilhões de reais.

Médicos e enfermeiros atendem população de abrigo. Foto: Marinha do Brasil

O episódio deixou marcas profundas na vida de quem perdeu casas, bens e referências de vida. Mesmo após quase dois anos, o estado ainda enfrenta o desafio da reconstrução.

Recomeçar do zero

Para quem perdeu tudo, o impacto vai muito além das perdas materiais. “Você não esquece”, diz Keise. “Às vezes chora do nada, entra em pânico. O corpo começa a viver como se estivesse sempre preparado para uma guerra”, relata.

A preocupação com os filhos também marcou esse período. “Eu precisava esconder o desespero das crianças e pensar como garantir alimentação, abrigo e escola para eles, sem material, sem uniforme e sem nada do que eles tinham como referência de casa."

Em agosto de 2024 ela conseguiu voltar para o seu lar e desde então luta para acessar programas de reconstrução habitacional.

Doações de alimentos e água recolhidas em Brasília sendo encaminhadas para as vítimas das chuvas. Foto: Joel Rodrigues / Agência Brasília

Ajuda que veio da organização popular

Foi nesse momento de incertezas que Keise conheceu o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB). Segundo ela, o movimento teve um papel fundamental no apoio às famílias atingidas.

“O MAB entregava marmitas e garantia a alimentação para crianças e adultos. Também organizava grupos para esclarecer dúvidas sobre os direitos que tinham sido violados”, conta.

Criado na década de 1990, o MAB reúne comunidades impactadas por barragens, enchentes e outros grandes empreendimentos relacionados à água e à energia. O movimento atua na defesa de direitos das populações atingidas, na luta por reparação e por políticas públicas que garantam proteção às comunidades.

Processo de limpeza na casa de Keise. Foto: Arquivo pessoal

Um dia de luta pelos rios e pela vida

A mobilização dessas comunidades ganha destaque especialmente no Dia Internacional de Luta contra as Barragens, pelos Rios, pela Água e pela Vida, celebrado em 14 de março.

A data surgiu de articulações internacionais de movimentos sociais que denunciam os impactos sociais e ambientais causados por barragens e defendem modelos de desenvolvimento que respeitem os rios e as populações que dependem deles.

Para quem viveu a tragédia das enchentes, o significado da data é concreto. “Quem não foi atingido não entende. Tem gente pagando 36 parcelas de uma geladeira que nunca mais vai voltar. Famílias inteiras perderam tudo”, diz Keise.

Ela também alerta para consequências menos visíveis da tragédia. “Hoje temos crianças no quarto ano do ensino fundamental que ainda não sabem ler por consequência da enchente”.

Histórias como a dela mostram que, mesmo quando as águas baixam, os impactos permanecem por muito tempo e a reconstrução envolve muito mais do que erguer paredes novamente.

 

Leia também

- A solidariedade fortalece o amor
- O que fazer para evitar o desequilíbrio ambiental?
- Sacristia Sustentável
- Como promover o desenvolvimento de uma cultura ambiental?
- Ciclone é tragédia socioambiental, não somente natural
- Amizade social se concretiza em solidariedade ao Rio Grande do Sul
 

Site Desenvolvido por
Agência UWEBS Criação de Sites