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Mais uma vez chega a Quaresma e traz a Campanha da Fraternidade, já se passaram 61 anos desde a primeira Campanha lançada pela Igreja. Como se diz: “É uma longa história!”. Ver um percurso histórico à luz de Deus é também o fio iluminador do estudo de Daniel, livro escolhido neste ano para o Mês da Bíblia.
Vai-te, Satanás
O primeiro domingo da Quaresma traz o Evangelho segundo Mateus 4,1-11, no qual Jesus dirige ao tentador o imperativo: “Vai-te, Satanás! Antes do anúncio e da prática de sua missão no meio do povo, o Senhor, de antemão, estabelece a vitória do Reino dos Céus sobre o pecado, ao enfrentar o anti-reino, representado por Satanás.
As consequências do pecado são a morte injusta e todos os males que oprimem a humanidade e a Criação. Por isso, a Campanha da Fraternidade faz a hermenêutica do Evangelho e ilumina realidades atuais impactantes para quem tem fé. São questões candentes que, analisadas e divulgadas pelas comunidades cristãs, já contribuíram para a consciência ética e libertadora de boa parte da sociedade nestes 61 anos de história: “genuíno fermento na massa”, diria Jesus!
Neste ano, o tema é Fraternidade e moradia e o lema bíblico iluminador: Ele veio morar entre nós (cf. Jo 1,14). Jesus assumiu a condição humana. Fixou morada na terra, porque morar em um lugar e pertencer a um ambiente e a um grupo é uma necessidade básica. Por isso, a Campanha de 2026 dirige o holofote da fé para quem não tem moradia, por mil motivos, dentre os quais os pecados que causam a desigualdade injusta.
Vossas casas vão virar entulho
Conta o Livro de Daniel (2,5), que o rei Nabucodonosor da Babilônia ameaçou exterminar as casas dos temíveis magos caldeus que entendiam os deuses. O rei sádico sabia que com as casas podia sufocar as famílias, a linhagem, os bens e a razão de viver daqueles respeitáveis adivinhos, porque a casa é o espaço existencial de toda pessoa.
Daniel e alguns companheiros israelitas exilados na Babilônia, foram escolhidos para morar junto ao palácio e comer à mesa do rei. Mas nada fez sentido para aqueles jovens arrancados da terra natal e da família, que queriam guardar a fé e a espiritualidade da casa paterna. Por isso, nunca provaram dos banquetes da idolatria.
Conta em Dn 2,29-45, que o rei teve um sonho assustador e os magos não puderam decifrar. Daniel soube e foi para casa, conversou com os companheiros e passaram toda a noite em súplica ao Deus de Israel. Foi em casa, numa terra estrangeira hostil, que o profeta encontrou Deus ao seu lado, recebeu sabedoria e coragem para interpretar o sonho, que os adivinhos não entendiam.
Existe um deus que revela mistérios
Deus revelou a Daniel (2,29-45) que o rei viu em sonho a estátua de uma figura humana formada por materiais diferentes, desde a argila dos pés até o ouro da cabeça. Era grandiosa, mas uma minúscula pedra desprendida da montanha a pulverizou ao vento e fez desaparecer. Daniel advertiu o rei de que existe só um deus que revela mistérios, e esse deus havia mostrado que cada membro da estátua era símbolo dos grandes impérios que sucederiam ao reinado de Nabucodonosor.
Depois, Daniel conduziu o olhar do rei babilônio para o futuro e o fez ver os quatro impérios que personificavam a idolatria e o pecado, mas iriam surgir e desaparecer na história, ficando só o pequeno reino de Israel, porque Deus não iria permitir que nenhuma nação forte e grandiosa fosse destruir seu povo.
Deus julga a história e os povos
O Livro de Daniel situa o sonho do rei e a ação dos jovens israelitas no tempo do exílio do reino de Judá na Babilônia, por volta do século 6º antes de Cristo, e apresenta a história futura em quatro épocas dominadas pelos impérios Babilônios, Medos, Persas e Gregos (cf. Dn 2,36-40).
A narrativa representa o esforço dos autores em transmitir o sentido de uma experiência de fé e ensinar algo para as gerações futuras sobre a ação libertadora de Deus. Se Daniel fosse um livro de crônicas históricas, cobriria um período de mais de 400 anos. Todavia, alguns elementos do livro permitem identificar um tempo mais recente, por volta do século 2º antes de Cristo, quando o império grego ou helênico impôs sua cultura de idolatria ao povo de Israel.
A sociedade israelita reagiu de formas diversas, houve quem se conformou e quem lutou até a morte contra a ordem do rei grego. Por isso, os jovens do livro de Daniel, que no exílio, 400 anos antes, haviam enfrentado a morte para manter a fé judaica e foram salvos por Deus, tornaram-se exemplos para os cidadãos do século 2º. Os autores do Livro, ao construir o relato testemunhal, tiveram em mente incentivar e fortalecer a fidelidade à Lei da Aliança e a certeza da proteção de Deus, que nunca abandonou quem confiasse nele, nem no exílio, nem muito menos agora na própria pátria.
O nome do protagonista da profecia, “Daniel”, significa: “Deus julga”. Diante das atrocidades dos dominadores, que ameaçavam a religião judaica, o livro quis mostrar que também Nabucodonosor da Babilônia foi cruel e atroz, e depois dele outros reinos exerceram grande poder, mas todos foram aniquilados, porque só o Deus de Israel julga a história e a conduz, de modo a sempre preservar seu povo.
A profecia de Daniel será retomada nos próximos meses aqui nas Dicas Bíblicas, porque o livro tem catorze capítulos e traz outras histórias emblemáticas para a formação do Povo de Deus e das comunidades cristãs atuais, que lutam para reavivar o testemunho da fé, na certeza de que Deus julga a história e dela o pecado e o mal já foram expulsos.
Pausa para reflexão
- Quais temas foram lançados pela Campanha da Fraternidade em anos anteriores e estão ajudando a mudar a mentalidade de nosso povo?
- Que exemplos reais podem ser citados para se entender que o pecado causa os males que afligem a humanidade e a Criação?
- Como a profecia de Daniel apresenta a ação de Deus em favor dos israelitas?
- Como nós hoje entendemos a presença de Deus em nossa história?
