COP30

Dom Teodoro Tavares: avanços do diálogo inter-religioso e desafios da missão na Amazônia

 

Dom Teodoro Mendes Tavares, Bispo da Diocese de Ponta de Pedras (PA). Foto: Ana Gleicy Tavares, fsp

Em entrevista ao Portal Paulinas, Dom Teodoro Mendes Tavares, CSSp — Bispo da Diocese de Ponta de Pedras (PA), presidente da Comissão para o Ecumenismo e Diálogo Inter-religioso da CNBB e recém-nomeado membro do Dicastério para o Diálogo Inter-religioso — fala sobre sua nova missão no Vaticano, os 60 anos da Nostra Aetate, o diálogo com os povos da Amazônia, a importância da COP-30 e os momentos mais marcantes de sua trajetória missionária no Brasil.


Dom Teodoro, o senhor foi nomeado recentemente como membro do Dicastério para o Diálogo Inter-religioso. De que forma o senhor pretende contribuir com esse organismo do Vaticano, trazendo sua experiência missionária na Amazônia?

O Dicastério para o Diálogo Inter-religioso tem a missão de incentivar, promover e realizar iniciativas de diálogo inter-religioso e ajudar na formação dos que se dedicam a esse serviço. Espero dar a minha humilde contribuição, promovendo a cultura do encontro e relações fraternas entre pessoas e comunidades de diversas crenças. Colaborarei para promover o conhecimento mútuo, o respeito, a humildade, a escuta e a estima, buscando relações fraternas e de respeito. Quero empenhar-me pela cultura da paz, sempre e em todas as circunstâncias, defendendo a liberdade religiosa e o respeito pelas tradições religiosas. Afirmo que a violência nunca pertence à essência das religiões, e é preciso evitar conflitos entre povos, etnias e religiões. Onde existirem diferenças, é preciso procurar o diálogo, a paz, a partilha e a compreensão. A Igreja se coloca aberta ao diálogo com todas as pessoas e religiões, permanecendo fiel às verdades e princípios da fé, reconhecendo e estimando o que há de verdadeiro e santo nas outras tradições religiosas.

Neste ano em que celebramos os 60 anos da Declaração Nostra Aetate, como o senhor avalia a aplicação prática desse documento nas comunidades católicas hoje?

A avaliação é positiva. Nostra Aetate foi um documento inovador e é considerada a Carta Magna para o diálogo inter-religioso. Ela representou uma mudança de paradigma: do eclesiocentrismo e exclusivismo para o reconhecimento do valor das religiões não cristãs. A Igreja anuncia Cristo, mas respeita e estima outras confissões religiosas. A Declaração introduziu uma visão mais inclusiva, reconhecendo a ação de Deus na história da salvação, que se realiza sob diversos nomes e em diferentes tradições. Nestes 60 anos, houve muitos frutos: abertura oficial da Igreja ao diálogo, criação de Comissões e Dicastérios, participação em encontros internacionais pela paz, visita e recepção de líderes religiosos, publicação de muitos documentos e gestos significativos dos Papas e das Conferências Episcopais. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) criou a Comissão Episcopal para o Ecumenismo e o Diálogo Inter-religioso, com grupos bilaterais como a Comissão Católico-Judaica, Comissão Católico-Candomblé e o Núcleo Católico-Muçulmano. Estes organismos e encontros são expressões concretas dos avanços propostos por Nostra Aetate.

Como o senhor percebe o papel da Igreja na promoção de um diálogo que respeite a fé e a sabedoria dos povos indígenas e ribeirinhos?

A Igreja respeita e reconhece o valor da fé e da sabedoria dos povos originários. Ela não rejeita nada daquilo que há de verdadeiro e belo nos povos que evangeliza. Pelo contrário, reconhece e valoriza tanto os bens espirituais e morais como também os valores socioculturais que esses povos têm. Sabemos que a evangelização deve ser inculturada. Este é o desejo e o ensinamento do Magistério da Igreja. Os documentos das Conferências Episcopais da América Latina e Caribe estão em sintonia com as decisões e orientações emanadas da Santa Sé sobre a importância de uma evangelização inculturada na realidade de cada povo, respeitando sua história, identidade, cultura, sua peculiaridade e seus valores. Em virtude do compromisso inequívoco da Igreja com a justiça e paz e integridade da criação, ela defende os povos indígenas, os quilombolas e ribeirinhos, enfim, todos os povos da Amazônia. Promove sua dignidade e vida plena para todos. O Evangelho de Jesus Cristo que anunciamos a todos os povos é uma proposta, nunca uma imposição. A Igreja defende a liberdade de consciência e a liberdade religiosa, como direitos fundamentais e inalienáveis para todas as pessoas e religiões!

O Papa Francisco falava de uma “Igreja com rosto amazônico”. O que isso significa na prática do cotidiano pastoral? Quais são os maiores desafios e esperanças de evangelizar e dialogar em meio às realidades amazônicas?

O Papa pediu uma Igreja inculturada, com o rosto dos povos da Amazônia, especialmente dos povos originários e das comunidades locais. Essa Igreja já existe e está sendo lapidada. Na prática, isso significa dar protagonismo aos povos, fortalecer comunidades, formar lideranças e promover vocações autóctones. Também envolve compromisso com a justiça, paz e integridade da criação. Os desafios são grandes: falta de missionários, comunidades que não celebram a Eucaristia aos domingos, vastas distâncias, longas viagens, acesso difícil e realidade multiétnica, multicultural e multirreligiosa, que exige diálogo ecumênico e inter-religioso. Apesar das dificuldades, há muitas conquistas e testemunhos de fé, e seguimos com esperança.

A COP30 coloca a Amazônia no centro das discussões globais. Como o diálogo entre religiões pode contribuir para o cuidado com a Casa Comum? Há iniciativas inter-religiosas na Amazônia que o senhor destacaria como sinais concretos de esperança?

O diálogo é exigência da fé e caminho de paz, aproximando pessoas, derrubando muros e construindo pontes. No contexto de pluralidade religiosa, é necessário dialogar, conviver com as diferenças e promover o respeito. As religiões podem contribuir na fraternidade universal, defesa da vida, ecologia integral e paz. Muitas propostas incluem ecoespiritualidade, conversão ecológica e cuidado com a Casa Comum. Destaco a abertura ao encontro e ao diálogo. Tenho participado de momentos de estudo, partilha e oração com lideranças de diferentes credos. Já realizamos o Dia Mundial de Oração, o Encontro Inter-religioso para o Cuidado da Casa Comum em Manaus e em Belém, a Vigília Inter-religiosa pela Terra, celebrações ecumênicas e inter-religiosas antes e durante a COP30, além de outras iniciativas na Amazônia e no Brasil. São sinais concretos de esperança e incentivo para o diálogo, a paz e a ecologia integral.

Foto: Arquivo Pessoal

O senhor chegou ao Brasil em 1994 e viveu intensamente a missão amazônica. O que mais o marcou nessa trajetória?

Tenho muitas e boas lembranças. No início, senti o “choque térmico” e o impacto cultural, mas fui-me adaptando e inculturando. Ser missionário na Amazônia tem sido uma das maiores bênçãos de Deus. Servi como presbítero na Prelazia de Tefé, depois como bispo auxiliar de Belém e agora em Ponta de Pedras. O povo santo destas “águas e deste chão” marcou-me profundamente. Como padre, na Prelazia de Tefé, destaco a formação do clero local e dos cristãos leigos e leigas, sobretudo as lideranças locais; a defesa do meio ambiente, as visitas pastorais (chamadas “desobrigas”) às comunidades indígenas e ribeirinhas, a amizade e a boa convivência com aquele povo amigo e acolhedor. Recordo a ordenação episcopal, a acolhida em Belém e o Círio de Nazaré, experiência ímpar de fé. Guardo a convivência fraterna com bispos, a missão na CNBB, o Sínodo da Amazônia, ordenações sacerdotais, visitas pastorais, a visita Ad Limina Apostolorum, jornadas mundiais e outros eventos. No Marajó, apesar dos desafios hidrográficos, as alegrias pastorais superam tudo. Dou graças a Deus pela vocação e pela missão na “Querida Amazônia”.

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