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É possível celebrar o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza?

Ao longo de séculos, há um vínculo entre fé e pobres 

Para Leão XIV, “existe um vínculo indissolúvel entre a nossa fé e os pobres”, e prova disso é também o testemunho deixado por inúmeros santos, beatos e missionários que, ao longo dos séculos, encarnaram a imagem de “uma Igreja pobre e para os pobres”.

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Além de Francisco de Assis e do seu gesto de abraçar um leproso, Leão XIV recorda Madre Teresa de Calcutá, ícone universal da caridade dedicada aos pobres da Índia “com uma ternura que era oração”, e ainda São Lourenço, São Justino, Santo Ambrósio, São João Crisóstomo, Santo Agostinho, que afirmava: “Aquele que diz amar a Deus e não se compadece dos necessitados, mente”. Entre nós, Santa Dulce dos Pobres, Pe. Júlio Lancelotti.

O Papa lembra ainda o trabalho dos Camilianos junto aos doentes, das congregações femininas em hospitais e casas de repouso, dos mosteiros beneditinos no acolhimento às viúvas, crianças abandonadas, peregrinos e mendigos, e dos Franciscanos, Dominicanos, Carmelitas e Agostinianos que iniciaram “uma revolução evangélica” por meio de um “estilo de vida simples e pobre”, com os Trinitários e Mercedários que, lutando pela libertação dos “cativos”, testemunharam o amor de “um Deus que liberta não só da escravidão espiritual, mas também da opressão concreta”.

Manifesta ainda o exemplo de São José de Calasanz, que fundou a primeira escola popular gratuita da Europa, as irmãs Ursulinas, que “criaram escolas nos pequenos vilarejos, nas zonas de periferia e nos bairros operários”, para destacar a importância da educação dos pobres, que “para a fé cristã, não é um favor, mas um dever”, como também a missão da Família Paulina de divulgar a todos a Palavra de Deus com a cultura da comunicação, reconhecida pelo Papa na audiência do dia 2 de outubro às Irmãs Paulinas.

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São muitos exemplos que precisam ser seguidos, inspirando novas formas de ação diante das pobrezas e escravidões no mundo de hoje: o tráfico de pessoas, o trabalho forçado, a exploração sexual, as diversas formas de dependência, e também o drama dos migrantes, aos quais Leão XIV dedica vários parágrafos nesta primeira exortação apostólica.

Recordando a imagem do pequeno Alan Kurdi, o menino sírio de apenas três anos que o mundo inteiro viu na areia de uma praia do Mediterrâneo, já sem vida, em 2015, o Papa lamenta que “infelizmente, à parte de alguma momentânea comoção, acontecimentos semelhantes estão a tornar-se cada vez mais irrelevantes, como se fossem notícias secundárias”.

A ação da Igreja junto aos migrantes, hoje, “expressa-se em iniciativas nos centros de acolhimento para refugiados, nas missões nas fronteiras, e nos esforços da Cáritas e em outras instituições”.

“Onde o mundo vê ameaça, a Igreja vê filhos; onde se erguem muros, ela constrói pontes. Pois sabe que o Evangelho só é crível quando se traduz em gestos de proximidade e de acolhimento; e que em cada migrante rejeitado, é o próprio Cristo que bate às portas da comunidade”.

Considerando que “ao longo dos séculos da história cristã, devemos igualmente reconhecer que a ajuda aos pobres e a luta pelos seus direitos não envolveu apenas indivíduos, algumas famílias, instituições ou comunidades religiosas”.

Na História da Igreja

A exortação apostólica Dilexi te faz também referência às contribuições históricas dos Papas para o desenvolvimento da Doutrina Social da Igreja desde Leão XIII – que inspirou a escolha do nome do atual Papa –, com a encíclica Rerum novarum (1891), a Bento XVI, passando por João XXIII, Paulo VI e João Paulo II, que reforçaram o compromisso da Igreja com os pobres, destacando a dimensão “cristocêntrica” da Doutrina Social e a defesa da dignidade humana e dos direitos sociais.

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O Papa lembra que o caminho foi longo e que há ainda muito por fazer, especialmente numa época em que continua a vigorar a “ditadura de uma economia que mata”. 

O papel de todos os cristãos

Afirma o Papa qual é a tarefa de todos os cristãos: “Mesmo correndo o risco de parecer ‘estúpidos’, é tarefa de todos os membros do Povo de Deus fazer ouvir, ainda que de maneiras diferentes, uma voz que desperte, denuncie e se exponha. As estruturas de injustiça devem ser reconhecidas e destruídas com a força do bem, através da mudança de mentalidades e também com a ajuda da ciência e da técnica, através do desenvolvimento de políticas eficazes na transformação da sociedade.”

O texto cita ainda a constituição pastoral Gaudium et spes, do Concílio Vaticano II, que sublinhou o “destino universal dos bens da terra e a função social da propriedade”. 

Leão XIV coloca-se em continuidade com este magistério, evocando o Concílio Vaticano II, as Conferências do Episcopado Latino-Americano em Medellín, Puebla, Santo Domingo e Aparecida, que se realizaram nas últimas décadas.

Recomendação da esmola

Se “o auxílio mais importante para uma pessoa pobre é ajudá-la a ter um bom trabalho, para que possa ter uma vida mais condizente com a sua dignidade, desenvolvendo as suas capacidades e oferecendo o seu esforço pessoal”, por outro lado “se ainda não existe essa possibilidade concreta, não devemos correr o risco de deixar uma pessoa abandonada à própria sorte, sem o indispensável para viver dignamente”.

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Sendo assim, o Papa fala sobre a importância da esmola, que “não só é raramente praticada, como às vezes, é até desprezada”.

“Como cristãos, não renunciamos à esmola”, diz Leão XIV. “Um gesto que pode ser feito de várias maneiras. A esmola não isenta as autoridades competentes das suas responsabilidades, nem elimina o empenho organizativo das instituições, muito menos substitui a legítima luta pela justiça”. É preciso “parar e a olhar nos olhos da pessoa pobre, tocando-a e partilhando com ela algo do que se tem”.

Acima de tudo, é necessário que “todos nos deixemos evangelizar pelos pobres”, diz o Papa. São para eles as palavras de Jesus que dão título à exortação apostólica: “Eu te amei”.

Pobre entre os pobres: cumplicidade no sofrimento

A jornalista Edla Lula apresenta, em vídeo da Ciranda da Comunicação, Irmão Henrique Peregrino. Henrique narra sua belíssima vocação de “pobre entre os pobres”. O Peregrino junta-se à população de rua, aprende com ela e ali descobre que “dormindo sobre o mesmo papelão toda a diferença desaparece”, tornam-se irmãos e partilham a cumplicidade das pessoas que “vivem o mesmo sofrimento”, “as mesmas dificuldades”. 
A Ciranda da Comunicação abriu-se para enxergar o desafio de escutar os descartados (Desafio 7 da Assembleia Eclesial).

Testemunho de Elias

A Comunidade da Trindade surgiu para acolher os peregrinos da vida. Há uma experiência de vida religiosa intercongregacional onde se reúnem irmãos e irmãs que partilham o mesmo chamado a uma vida comunitária e peregrina. A comunidade da Trindade, na Cidade Baixa, em Salvador (BA), restaurada pelo Irmão Henrique, hoje está cheia de vida dos pobres. Elias é um deles que conta sua vida.

“Elias e Irmão Henrique sentem o cheiro das ovelhas esfarrapadas. Dão colo humano tão necessário neste tempo conturbado. Profecia e missão”, Diz Irmã Sônia de Fátima Batagin, pastorinha.

Como celebrar

Um dos principais objetivos do Dia Internacional de Erradicação da Pobreza é reconhecer as lutas dos pobres e fazer com que suas vozes sejam ouvidas por governos e cidadãos comuns. A participação das pessoas mais pobres é um aspecto importante da observância do dia.

Onde quer que homens e mulheres sejam condenados a viver em extrema pobreza, os direitos humanos são violados. Reunir-se para garantir que esses direitos sejam respeitados é nosso dever. Como cidadãos e como cristãos, vamos lá!

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