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Educar para o respeito: o caminho para formar homens sem machismo

Da infância à adolescência, o que está em jogo não é só comportamento, mas a forma como os meninos aprendem a sentir, se relacionar e existir no mundo

Foto: Pexels

Em um cenário onde ainda persistem modelos rígidos de masculinidade, cresce a pergunta: como educar meninos para que se tornem homens mais empáticos, respeitosos e livres de comportamentos machistas?

Para o psicanalista René Dentz, o caminho não passa por fórmulas prontas, mas por uma mudança profunda na forma de se relacionar com a infância – dentro de casa e na sociedade.

Igualdade não é tratar tudo igual

Educar para a igualdade vai além de dar o mesmo tratamento a meninos e meninas. “A igualdade não é apagar as diferenças, mas não transformá-las em desigualdade”, explica Dentz.

Na prática, isso significa reconhecer que cada criança tem seu modo de ser, sem impor modelos rígidos do que é “ser homem”. O desafio é oferecer referências sem aprisionar.

Tabata Virgilino Consorte e o filho Richard: “Eu converso, explico, oriento. Não é só corrigir, é ensinar”. Foto: Arquivo pessoal

O que os meninos aprendem sem ninguém dizer

Muito do que forma um menino não vem de regras explícitas, mas do que ele vive no dia a dia. A forma como os adultos se tratam, lidam com conflitos e expressam afeto ensina mais do que qualquer discurso. “Só aprende a respeitar quem foi respeitado”, resume Dentz.

A professora de Educação Física Tabata Virgilino Consorte vive isso na prática com o filho Richard. “Educar não é só falar, é mostrar todos os dias. Eu escuto, explico, oriento. O respeito precisa aparecer nas atitudes”, declara.

O papel do exemplo masculino

A presença de uma figura masculina de referência faz diferença, mas não pela autoridade rígida. O que marca é o exemplo. “Mais do que ensinar a ser homem, é mostrar, na prática, uma forma de existir sem violência, com responsabilidade e cuidado”, explica o psicanalista.

Tabata com os filhos: Richard, 11 anos e Hanna, 15 anos. Foto: Arquivo pessoal

Quando isso acontece, os efeitos aparecem. Na escola, Richard é descrito como um menino gentil, que acolhe os colegas e se posiciona quando vê injustiças. “Ele é aquele aluno que cuida do outro, tenho muito orgulho dele”, conta a vice-diretora da Escola Estadual Prof. Gastão Strang, de São Paulo, Simone Emy.

Ensinar a sentir também é educar

Um dos grandes desafios ainda é permitir que meninos expressem emoções. Frases como “menino não chora” continuam presentes e têm impacto. “Quando o menino não aprende a nomear o que sente, isso aparece de outras formas, muitas vezes na agressividade”, alerta Dentz.

Por isso, o diálogo emocional precisa fazer parte da rotina. Tabata aposta nisso: “Eu converso, explico, oriento. Não é só corrigir, é ensinar. Também incentivo ele a falar sobre sentimentos, porque é uma questão de saber se expressar. Ele pode estar triste, bravo, feliz. Tudo isso faz parte de ser humano”.

Foto: Pexels

Pequenos gestos que reforçam o machismo

Muitas atitudes do dia a dia acabam reforçando comportamentos machistas sem que os adultos percebam: valorizar apenas a força, incentivar a competição excessiva ou tratar a agressividade como natural.

Até o bullying, muitas vezes visto como “brincadeira”, entra nesse processo. “Quando a violência é minimizada, o menino aprende que ela é aceitável”, diz Dentz.

Foto: Pexels

Diálogo emocional na prática

Para René Dentz não há educação emocional sem testemunho. Nomear sentimentos, reconhecer erros e pedir desculpas abre espaço para que a criança também se expresse. “Além disso, é fundamental criar tempos de escuta sem julgamento, onde o menino possa falar sem medo de ser corrigido ou ridicularizado”, explica.

Educar meninos é cuidar do futuro

Uma masculinidade saudável não nega a força, mas também não exclui a sensibilidade. É a capacidade de lidar com frustrações sem violência, de sustentar vínculos e de respeitar o outro.

Falar da educação dos meninos hoje é também falar da qualidade das relações e da saúde emocional da sociedade.

Os irmãos Richard e Hanna. Foto: Arquivo pessoal

Para Tabata, o desafio é constante, mas vale a pena: “Eu não posso controlar o mundo lá fora, mas posso formar dentro de casa um menino que saiba pensar por si, que não siga o errado só porque todo mundo está fazendo, e que tenha coragem de fazer o certo, mesmo quando ninguém estiver olhando”, finaliza.

No fim, é no cotidiano que a transformação começa: na escuta, no exemplo e na forma como cada criança é reconhecida.

 

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