
Imagem: Site CNBB
A Quaresma é sempre um tempo de reflexão, conversão e retomada da caminhada, mas também de contemplação do grande Mistério Pascal: mistério de amor de um Deus que deseja que toda a humanidade viva com dignidade. Por isso, a Igreja Católica no Brasil promove a Campanha da Fraternidade que, neste ano, tem como tema “Fraternidade e Moradia” e como lema: “Ele veio morar entre nós!”, extraído de Jo 1,14.
A campanha visa promover, a partir da Boa-Nova do Reino de Deus e em espírito de conversão quaresmal, a moradia digna como prioridade e direito, juntamente com os demais bens e serviços essenciais para toda a população (Texto-Base, 2025, p. 8).

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A moradia é um direito humano que ainda permanece distante para grande parte da população. A realidade é marcada pela precariedade habitacional e pela desigualdade socioespacial, afetando principalmente pessoas pobres, negras, pardas, povos indígenas e populações do campo.
O déficit habitacional envolve tanto a falta quanto a inadequação das moradias, refletindo políticas públicas insuficientes, a especulação imobiliária e um modelo econômico excludente.
Iniciativas da sociedade civil, movimentos populares, instituições e Igrejas têm promovido a produção habitacional por autogestão, a urbanização de favelas (aglomerados), melhoria em moradias precárias, a regularização fundiária e a defesa contra despejos, empenhando-se em fortalecer e tornar concretos os direitos à moradia e à cidade. Contudo, esse ainda é um grande desafio que interpela nossa vivência como cristãos e cristãs.
Ao contemplarmos Jesus Crucificado-Ressuscitado, o Filho de Deus que veio habitar a “carne” humana ‒ isto é, a realidade concreta do ser humano ‒, possamos nos fortalecer para exercer, com ousadia, nossa missão profética: denunciar todas as injustiças que ferem tantos irmãos e irmãs; denunciar o pecado social e estrutural que leva tantas pessoas à indigência; tomar consciência dos argumentos que justificam nossa acomodação e contribuem para a permanência de tantos em condições indignas e desumanas; anunciar o plano de amor que Deus tem para a humanidade e consolar as pessoas feridas pela injustiça, sustentando nosso compromisso sociotransformador junto aos mais pobres.
Autoria e finalidade do livro de Daniel
Nesta nossa caminhada de estudo do Mês da Bíblia, recordamos que o tema escolhido para 2026 é o Livro de Daniel e o lema: “seu Reino jamais será destruído”. Nos Dicas Bíblicas de fevereiro, refletimos sobre o contexto no qual Daniel foi escrito; neste mês, abordaremos sua autoria e finalidade.
Daniel, cujo nome provavelmente significa, em hebraico, “quem me julga é Deus”, protagonista principal do livro, é descrito como um jovem sábio (Dn 1,20; 2,23), fiel aos mandamentos de Deus, mesmo tendo sido levado para a Babilônia. Esse nome encontra-se em outros textos bíblicos (1Cr 3,1; Esd 8,2; Ne 10,6; Ez 14,14.20), mormente vinculado à monarquia, à sabedoria e à restauração do pós-exílio.
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Apesar de o livro receber seu nome, provavelmente não é de sua autoria. Mas quem escreveu esse texto? O livro passou por um longo processo de redação. Assim, podemos deduzir que houve vários autores, talvez grupos de escribas. Alguns estudiosos, ao analisarem o livro, afirmam que a parte mais antiga provinha de escribas formados na Mesopotâmia e, de certa forma, encontram-se também resquícios de escribas influenciados pela cultura persa.
A parte mais recente, devido à crítica aos reis selêucidas, supõe uma construção literária do período helenista, talvez por pessoas que viveram no período de Antíoco IV Epífanes. Apesar de serem autores anônimos, percebe-se nos textos que há marcas de um grupo de sábios, com a missão de ensinar a justiça, entendida como perseverança na observância da Aliança, apesar das adversidades.
A escolha do nome Daniel é uma estratégia literária, na qual se seleciona um nome do passado, conhecido e ligado à problemática do presente, em nosso caso da resistência religiosa. Daniel sobressai pelo testemunho que dá com sua vida, para servir de exemplo em tempos difíceis de perseguição política e religiosa, como acontecia no século II a.C.
Por isso, podemos dizer que o livro foi escrito quando a comunidade judaica sofria perseguição, por estar dominada pelo império greco-helenístico, de forma especial no tempo de Antíoco IV Epífanes e nos episódios que culminaram na revolta dos Macabeus. Contudo, é um texto que sintetiza vários períodos históricos; por isso menciona o império babilônico (Dn 2–4), o dos medos (Dn 2,39; 5,31), o dos persas com o rei Ciro (Dn 1,21; 6,29; 10,1) e o de Alexandre Magno (Dn 11,4-5).
Após a morte de Alexandre, Israel foi dominado pelos ptolomeus do Egito e pelos selêucidas da Síria, que se alternavam em disputas de expansão e dominação, marcadas ora por períodos de tranquilidade, ora por dura opressão. Deste modo, provavelmente, Dn é dirigido aos judeus do período em torno de 170–164 a.C., que enfrentavam grandes dificuldades para manter-se fiéis à Lei do Deus de Israel em meio à perseguição.
Em resposta a esse contexto de crise, a obra apresenta uma série de narrativas edificantes que mostram ser possível viver a fé mesmo nas situações mais adversas. Por isso, é perpassada por exemplos de pessoas de várias idades, especialmente de jovens.
A certeza que costura todas essas narrativas é a de que Deus é o Senhor da História e sustenta aqueles e aquelas que n’Ele confiam; por isso, incentiva a perseverança e a fidelidade a Deus, pois, no final, Ele triunfará sobre os poderes opressores. De fato, sua mensagem é clara: é preferível permanecer fiel, mesmo sob ameaça de sofrimento e morte, do que ceder às conveniências e comprometer a fidelidade religiosa.
Portanto, sua finalidade principal é oferecer esperança e sustentar espiritualmente os judeus perseguidos, encorajando-os a permanecer fiéis às suas tradições religiosas. Mais do que relatar acontecimentos passados, Daniel proclama uma fé inabalável no Deus que governa a história, sustenta os justos nas provações, conduz todas as coisas ao cumprimento de seu plano de salvação. Reafirma, assim, a convicção de que, apesar de tudo o que possa acontecer, o mal não prevalecerá, pois todos os reinos opressores serão destruídos, mas o Reino de Deus permanecerá para sempre!
O livro de Daniel e a CF 2026
Daniel nasce num contexto de perseguição política, cultural e religiosa. O povo judeu vivia sob domínio estrangeiro, especialmente no período de Antíoco IV Epífanes, quando práticas religiosas foram proibidas e a identidade do povo ameaçada. Permanecer fiel à Lei significava correr risco de morte.

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Hoje, embora o cenário seja diferente, também enfrentamos formas de opressão estrutural. A crise da moradia não é apenas uma questão material; ela revela um sistema que nega dignidade, fragiliza identidades e empurra milhões para a invisibilidade social. Se, no tempo de Daniel, o império tentava sufocar a fé e a esperança do povo, hoje estruturas econômicas excludentes sufocam o direito básico de habitar com dignidade.
A perseguição antiga ameaçava a fidelidade religiosa; a crise atual ameaça a própria dignidade da vida e, diante da encarnação do Filho de Deus, desafia também nossa fé e a missão profética do nosso ser batizado. Assim, quando a CF 2026 recorda: “Ele veio morar entre nós” (cf. Jo 1,14), afirma que Deus não permanece distante das crises humanas, e que em Jesus, habita a precariedade da “carne”. Isso ilumina a realidade atual: onde há exclusão habitacional, ali também está o Crucificado.

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Do mesmo modo, como o jovem Daniel escolheu manter a fidelidade a Deus, mesmo sob ameaça, hoje somos chamados e chamadas a manter a fidelidade ao Evangelho em defesa da dignidade humana ao não legitimar a desigualdade habitacional; não aceitar como inevitável a exclusão; não ceder à acomodação diante do sofrimento de tantas pessoas e sustentar a esperança de que os impérios de hoje também passarão e permanecerá o Reino de Deus: de justiça, de vida e de dignidade para todos e todas.
Cabe a nós, manter essa esperança por meio de nosso testemunho, tornando visível esse Reino de Deus em nosso cotidiano. Esse Reino que contemplamos por meio da vida e das palavras de Jesus.
Pausa para reflexão
- O que significa dizer que Jesus “veio habitar a carne humana”? Como o Mistério Pascal ilumina a questão da moradia digna?
- De que forma a encarnação de Jesus nos compromete com a realidade concreta das pessoas?
- Como podemos exercer hoje nossa missão profética diante das injustiças?
- Em nossa comunidade, quais sinais de desigualdade habitacional conseguimos perceber?
- Quais argumentos costumamos usar para justificar nossa acomodação diante dessas realidades?
- Que “impérios” ou poderes opressores desafiam hoje nossa fidelidade a Deus?
- Como o livro de Daniel pode fortalecer nossa esperança tendo presente o tema da Campanha da Fraternidade 2026, sobre a moradia?
Saiba mais:
- Minicurso Bíblico - Milagres de Jesus nos Evangelhos
- Itinerários de fé na Bíblia
