
Ir. Márcio Costa. Foto: Elisabete Alonso
Religioso marista, psicólogo e autor de livros voltados à juventude e à animação vocacional, Ir. Márcio Costa compartilha, nesta entrevista, sua experiência pessoal de descoberta vocacional e os caminhos que percorreu até assumir a vida consagrada como irmão marista.
Com simplicidade e profundidade, ele fala sobre discernimento, encantamento, desafios da juventude e o papel essencial do acompanhamento vocacional. A conversa também apresenta seus dois livros publicados por Paulinas, voltados a animadores, educadores e comunidades engajadas na formação de novas vocações.
Fale um pouco da sua própria experiência, da sua descoberta vocacional. Houve um momento em que você percebeu que era isso que queria para sua vida? Como foi essa descoberta? Com quantos anos aconteceu?
Márcio Costa: Bom, eu sou religioso, irmão marista, há 20 anos. Faço parte da Congregação dos Irmãos Maristas. Minha família é de Fortaleza, no Ceará. Meus pais sempre tiveram contato com os Irmãos Maristas ali na região onde moramos. Desde pequeno, com uns 4 ou 5 anos, já convivia com os irmãos.
Minha mãe chegou a trabalhar com eles, na cozinha, cuidando das refeições. E, naturalmente, fui me aproximando também. Estudei no Colégio Marista de Fortaleza, participei dos grupos pastorais e, ali, convivia bastante com os irmãos, que também atuavam na dimensão pastoral da escola.
Quando me tornei adolescente, senti que Deus foi plantando a semente. Comecei a me encantar pela vocação marista. Até que, um dia, conversei com um irmão e manifestei meu desejo de entrar na congregação. Foi ali que tudo começou.
Naquela época, a congregação passava por um processo de reestruturação. Então, recebi o convite para sair do Ceará e ir para Minas Gerais, onde fiz minha primeira experiência de formação: o aspirantado. Ali fui me aproximando mais do carisma, da missão, da vida comunitária e da espiritualidade marista. Isso foi preenchendo meu projeto de vida. Fui me encantando diariamente por esse caminho. E até hoje estou na vocação que escolhi para viver.
Sinto-me muito feliz como irmão. Foi um processo de encantamento, mas também tive dúvidas e dificuldades no começo. Fui questionado pelos meus pais: “É isso mesmo que você quer para sua vida?”. E é um passo importante. Escolher uma vocação nunca é simples, porque você sempre escolhe entre coisas boas.
Eu também queria casar, ter filhos, construir uma família – o que também é uma belíssima vocação. Mas me encantei pela vida religiosa, e nela me encontrei. Sinto-me realizado na vida marista, que é onde sou feliz. Nossa congregação tem o caráter de vida religiosa consagrada – não é sacerdotal. Nunca quis ser padre. Se fosse para ser padre, eu não teria entrado. Sempre tive clareza de que o que eu queria era ser irmão, consagrado.
Busquei aquilo que me fizesse bem, que me realizasse como ser humano. E esse caminho foi sendo construído aos poucos. Graças a Deus e aos animadores vocacionais que me acompanharam, fui compreendendo tudo isso. Minha vocação começou com o envolvimento com os irmãos e com os aspectos pastorais. Eu já era uma liderança na minha comunidade, uma referência para os jovens. Gostava desse movimento, e isso se conectou com o que é essencial na congregação. Foi assim que tudo começou.
E qual é a importância do exemplo na descoberta da vocação?
Márcio Costa: É fundamental. Hoje existe uma grande carência de referencialidades na realidade juvenil. O jovem busca referência. Eu também busquei. Talvez o que me tornou o irmão marista que sou hoje foram justamente as referências que tive na época. Por isso, o testemunho de vida é essencial. Viver a vocação com intensidade, com entrega total, é um sinal para os outros.
Quem está vivendo sua vocação precisa ter consciência disto: é preciso viver com alegria. Deus não quer que sejamos infelizes, mas que sejamos felizes onde estivermos. Eu me sinto feliz como irmão marista porque vi outros irmãos felizes. Vi pessoas que abraçavam esse carisma e faziam dele um sinal no mundo. Isso me encantou e me inspirou.
Seu livro destaca muito o acompanhamento vocacional. O que é essencial para animadores e educadores nesse processo?
Márcio Costa: Nos dois livros que publiquei por Paulinas, eu destaco muito o olhar com ternura e com misericórdia – dimensões que o Papa Francisco trabalha em seu ministério. É preciso olhar com atenção e cuidado. E isso exige acompanhamento. Essa é uma das maiores carências da juventude hoje.
Acompanhar é se envolver com responsabilidade no desenvolvimento do jovem. Não é um envolvimento imaturo, mas um compromisso com o crescimento dele. E o melhor exemplo de acompanhamento é Jesus. Jesus se aproximava com leveza, amor e cuidado. Ele não julgava, mas conhecia a pessoa, se interessava por ela. Basta ver o episódio dos discípulos de Emaús: Jesus caminha com eles, escuta, questiona. Esse é o verdadeiro acompanhamento.
Como percebemos a própria vocação? Existe uma forma de reconhecer isso ao longo da vida?
Márcio Costa: No meu livro “Despertar para a vocação”, trabalho três aspectos fundamentais: identificação, consciência e encantamento. A identificação é o momento em que o jovem sente que aquilo tem a ver com ele, que se conecta com seus valores e objetivos. Depois vem a consciência: ter clareza de que a escolha exige compromisso, esforço e dedicação. Toda vocação tem exigências, seja matrimonial, seja religiosa, laical ou sacerdotal. Por fim, o encantamento: os olhos precisam brilhar; o coração, vibrar. Só assim se vive a vocação com sentido e alegria.
O animador vocacional precisa ajudar o jovem a desenvolver esses aspectos. O mundo de hoje oferece outras referências, especialmente por meio da tecnologia, e isso pode afastar o jovem desse processo. Por isso, é preciso um olhar estratégico para ajudá-lo a amadurecer.
Esses exercícios do projeto de vida que você propõe se aplicam apenas à vida consagrada?
Márcio Costa: Não. O material pode ser adaptado para qualquer contexto: escolar, paroquial ou congregacional. Há indicações práticas ao fim de cada capítulo. É só adaptar conforme a realidade. A ideia é justamente esta: não ficar preso ao conteúdo do livro, mas usá-lo como ferramenta. Qualquer orientador vocacional ou profissional pode aplicá-lo.
E quanto à volatilidade das escolhas na juventude? A vocação pode mudar?
Márcio Costa: Sim, pode. Como psicólogo, vejo que essa volatilidade é natural. Somos influenciados por nossas experiências e pelo ambiente. Decisões podem mudar. Por isso, é essencial começar o discernimento vocacional na juventude – para criar valores, sentido e identificação.
A vocação precisa fazer sentido para você. Precisa preencher você. E isso pode mudar ao longo da vida. Conheço religiosos que, após 25 anos, perceberam que precisavam viver outra vocação. Isso é humano. O importante é encontrar um lugar onde se possa viver com plenitude e respirar com liberdade.
Quais são os maiores desafios para encontrar a vocação com coragem?
Márcio Costa: O primeiro é o autocuidado. Precisamos olhar para nossos sentimentos, nossa saúde mental, nosso corpo, nossas relações. Hoje, há muita ansiedade, depressão, isolamento. Outro desafio é aprender a se relacionar com os outros de forma madura. E, claro, toda escolha exige renúncia. Se escolho ter uma família, abro mão de outras coisas. Se escolho a vida religiosa, também. Toda escolha tem um custo, mas é esse custo que dá valor à vocação.
Para finalizar, que mensagem você deixa para os jovens que estão em discernimento vocacional?
Márcio Costa: O momento atual é tempo de se abrir ao discernimento. É tempo de escutar o que Deus quer de nós. A vocação é uma relação íntima com Deus. É Ele quem chama. E a resposta é pessoal – não vem dos pais, dos amigos, de ninguém além de você. Deus não vai aparecer em forma de milagre para dizer o que fazer. Mas Ele se manifesta nas pequenas coisas, nos gestos, nos testemunhos. Por isso, é preciso estar atento à vida e ao coração.
Você teve algum momento-chave no seu discernimento?
Márcio Costa: Sim, quando vi os irmãos atuando nas comunidades, com os jovens, com os pobres, levando esperança. Vi neles uma presença significativa, profética. Aquilo me tocou. Pensei: “Será que Deus me chama para isso também?”. E entendi que sim. A vida religiosa, para mim, não é só contemplação, mas presença ativa no mundo.
Agora, deixe um convite para conhecer seus livros!
Márcio Costa: Claro! Trabalho com vocação há bastante tempo. Os dois livros que publiquei por Paulinas são fruto dessa caminhada. Eles têm conteúdo teórico e propostas práticas, que ajudam o animador vocacional no seu dia a dia. Você encontra esses livros em qualquer livraria Paulinas do Brasil. E são materiais que têm iluminado muitas comunidades, paróquias, dioceses e escolas. Leiam, estudem em grupo, adaptem conforme sua realidade. O mais importante é fortalecer a cultura vocacional.
Livros citados
Despertar para a vocação - O livro propõe caminhos práticos e teóricos para animadores, educadores e orientadores que acompanham jovens no processo de discernimento vocacional ou profissional. Com exercícios e propostas de atividades, o material pode ser aplicado em escolas, comunidades e grupos de reflexão, inclusive no componente Projeto de Vida do Novo Ensino Médio.
Discernimento vocacional - Voltado a agentes de pastoral e animadores, o livro apresenta um itinerário completo de discernimento, com etapas como despertar, cultivar, acompanhar e comprometer-se. Propõe atividades práticas, modelos de projeto de vida e estratégias para fortalecer a cultura vocacional nas realidades eclesiais e educativas.
Os livros estão disponíveis nas Paulinas Livrarias, no site paulinas.com.br, pelo 0800 70 100 81 ou pelo WhatsApp (11) 97204-2814.
Sobre o autor
Márcio Henrique Ferreira da Costa é religioso da Congregação dos Irmãos Maristas. É bacharel em Teologia pela PUC-PR, licenciado em Pedagogia pela Faculdade Mauá de Brasília e graduado em Psicologia pela Universidade Católica de Brasília. Reside em Fortaleza-CE e atua com juventudes e formação vocacional.
