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Estamos ficando mais “burros” na era digital?

Entre respostas fáceis, scroll infinito e Inteligência Artificial, especialistas alertam para um empobrecimento do pensamento crítico

Foto: Pexels

A tecnologia nunca foi tão eficiente em facilitar a vida. Com poucos cliques, encontramos rotas, respostas, diagnósticos, textos prontos e até ideias “criativas”. Mas, no meio de tantas facilidades, uma pergunta incômoda começa a ganhar espaço: estamos abrindo mão do esforço de pensar? Em outras palavras, será que a dependência das telas, dos algoritmos e da Inteligência Artificial está empobrecendo nossa capacidade cognitiva?

A dúvida não é paranoia coletiva. Pesquisas recentes e especialistas em saúde mental vêm apontando sinais de alerta sobre o impacto do consumo digital excessivo no funcionamento do cérebro, especialmente quando ele se baseia em estímulos rápidos, superficiais e de recompensa imediata.

O cérebro antigo em um mundo acelerado

Segundo o psiquiatra e psicoterapeuta Aderbal Vieira Junior, responsável pelo ambulatório de tratamento de dependências comportamentais da Unifesp, existe um descompasso central nessa história. “Nós continuamos funcionando, em muitos aspectos, como funcionávamos há centenas de milhares de anos. Nosso cérebro foi moldado por pressões evolutivas muito antigas, enquanto a cultura e a tecnologia mudaram rápido demais”, explica.

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O imediatismo, que hoje parece um defeito, já foi uma virtude. Na pré-história, reagir rápido significava sobreviver. O problema é aplicar esse mesmo funcionamento mental a um ambiente saturado de estímulos, informações e distrações que se apresentam sozinhas, sem esforço, sem busca, sem filtro.

É aí que entram os vídeos curtíssimos, o scroll infinito e os conteúdos que “pulam” na nossa frente. O cérebro, programado para buscar recompensas rápidas, encontra nas telas um prato cheio.

IA, respostas fáceis e o risco da preguiça cognitiva

Nunca tivemos tanto acesso à informação como agora e isso é uma vantagem inegável. “Hoje existe uma fartura de dados, de conhecimento, algo sem precedentes na história da humanidade”, reconhece Aderbal. Mas o excesso vem acompanhado de um problema: separar informação de ruído dá trabalho, e nem sempre estamos dispostos a fazê-lo.

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Ferramentas de Inteligência Artificial, como os chatbots, escancaram esse dilema. Elas respondem rápido, com fluidez e segurança, mas nem sempre com precisão ou verdade. “Você recebe uma resposta fantástica, mas não sabe o quanto confiar nela, de onde veio, se foi apurada ou simplesmente inventada”, alerta o psiquiatra.

Quando o esforço de estudar, pesquisar e elaborar é substituído por respostas prontas, o risco não é apenas errar, é deixar de exercitar o pensamento crítico.

Emburrecimento ou empobrecimento?

Mas afinal, estamos ficando mais burros? A resposta não é tão simples. Aderbal evita o termo “emburrecimento” no sentido estrito, mas chama atenção para algo talvez mais profundo: um empobrecimento estrutural do funcionamento mental.

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“O cérebro aprende com aquilo que a gente faz repetidamente. Se você passa a vida buscando estímulos rápidos, recompensas fáceis e atividades de baixo esforço, você vai construindo uma arquitetura cerebral voltada para isso”, explica. O famoso scroll nas redes sociais oferece pequenas doses constantes de prazer imediato e o cérebro passa a pedir mais do mesmo.

Esse mecanismo se assemelha ao de outros comportamentos compulsivos. “A lógica é parecida com a do jogador patológico, que acredita que vai enriquecer apertando um botão. Mas riqueza, conhecimento e profundidade não nascem do nada. São fruto de trabalho”, compara.

O psiquiatra e psicoterapeuta Aderbal Vieira Junior, responsável pelo ambulatório de tratamento de dependências comportamentais da Unifesp. Foto: Arquivo pessoal

Uma cultura que vende superficialidade

O problema não é só individual, é cultural. Vivemos em uma lógica de consumo que valoriza velocidade, cliques e retorno imediato. Conteúdos superficiais engajam mais rápido e são mais “vendáveis”. “A superficialização é ‘capitalista friendly’. Ela dá retorno”, aponta o especialista.

Isso não significa que estamos condenados a uma inteligência rasa, mas que nadar contra essa corrente exige esforço consciente, escolhas difíceis e, muitas vezes, solidão. Pensar profundamente dá trabalho e não rende likes imediatos.

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Dá para sair do piloto automático?

Para quem percebe que está preso ao vício do scroll infinito, Aderbal é direto: o primeiro passo é a consciência. “O único instrumento necessário para deixar de ser dependente é perceber que você é um. Saber como você está sendo abre a possibilidade de saber como pode vir a ser”, explica.

Na prática, isso significa interromper o comportamento automático (não seguir o dedo quando ele já vai deslizar para mais um vídeo) e preencher o espaço deixado pela tela com algo que exija mais esforço: leitura, estudo, silêncio, reflexão. 

Não é fácil, afinal não há recompensa imediata. Mas parar com o que faz mal não basta, é preciso substituir por algo que construa.

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Tecnologia como aliada, não como muleta

A tecnologia não é a vilã da história. A Inteligência Artificial, as redes e a internet têm potencial gigantesco para ampliar conhecimento, criar pontes e aprofundar saberes. O risco surge quando elas deixam de ser ferramentas e passam a ser muletas cognitivas.

No fim das contas, a pergunta talvez não seja se estamos emburrecendo, mas o que estamos treinando nosso cérebro para ser. E essa resposta, apesar de influenciada pelo mundo digital, ainda depende das escolhas que fazemos todos os dias.

 

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