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Filhos sob pressão: o que está por trás da cobrança constante por resultados

Mais do que incentivo, muitos pais impõem aos filhos o reflexo de suas próprias frustrações. Neuropsicóloga explica como transformar cobrança em apoio saudável

Foto: Pexels

Da escola aos campos de futebol, o cenário se repete: crianças cercadas por expectativas, metas e olhares ansiosos. A cada nota, a cada gol, uma pressão silenciosa cresce: a de corresponder aos sonhos e frustrações dos adultos.

A decisão da Federação Paulista de Futebol (FPF) de proibir a presença dos pais e familiares em jogos das categorias Sub-11 e Sub-12 expôs um fenômeno que vai muito além do esporte. A medida veio após sucessivos episódios de ofensas, brigas e cobranças vindas das arquibancadas e protagonizadas pelos próprios responsáveis das crianças.

Para a neuropsicóloga e educadora infantil Ana Paula Alves Rodrigues, a proibição é apenas um sintoma de algo mais profundo: “Os adultos estão emocionalmente adoecidos. Querem vencer pelos filhos o que perderam por si. Cobram desempenho de quem ainda está descobrindo o prazer do jogo”.

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Segundo ela, as arquibancadas, que deveriam ser abrigo, se transformaram em trincheiras. “O pai grita com o juiz, a mãe xinga o técnico, o tio discute com o pai do adversário. O menino, no meio do campo, só queria jogar bola, mas virou o campo de batalha dos sonhos frustrados dos outros”, completa.

Essa confusão de papéis tem raízes em uma geração de adultos exaustos, carentes de validação e que confundem o sucesso dos filhos com a própria identidade. “Vivemos um tempo em que ‘meu filho é campeão’ virou tradução moderna de ‘eu sou alguém’”.

Medo de decepcionar

As consequências para as crianças são sérias. A pressão constante pode gerar ansiedade, medo de errar e baixa autoestima. “Quando o medo de decepcionar os pais se instala, a criança deixa de brincar para tentar agradar. E o jogo, que deveria ser aprendizado e prazer, vira fonte de tensão”, aponta Ana Paula.

A neuropsicóloga e educadora infantil Ana Paula Rodrigues: “Os adultos estão emocionalmente adoecidos". Foto: Divulgação

O impacto não se limita ao esporte. O mesmo padrão de cobrança aparece na escola e em outras áreas da vida. “A infância está se transformando em uma corrida sem linha de chegada. Os adultos cobram resultados, mas esquecem que o desenvolvimento emocional nasce da leveza, da descoberta e do erro”.

Para a neuropsicóloga, a decisão da FPF pode, contraditoriamente, ser pedagógica. “O silêncio das arquibancadas talvez devolva às crianças aquilo que os pais tomaram delas: o direito de brincar. O jogo, no fim, não é sobre o placar, é sobre crescer sem medo”, afirma.

O papel dos pais: apoiar é saber calar

Apoiar não é controlar, é estar presente com leveza. “O que a criança mais precisa ouvir durante o jogo é o som da própria respiração. Quando o adulto grita, orienta e corrige o tempo todo, o que ela sente é pressão, não incentivo”, explica Ana Paula.

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Ela propõe cinco atitudes simples para que pais e responsáveis possam realmente apoiar:

1 - Seja plateia, não técnico. Seu papel é torcer, não escalar.
2 - Elogie o esforço, não o resultado. O placar passa, o processo fica.
3 - Fale depois e só se a criança quiser ouvir. Às vezes, o silêncio é a melhor conversa.
4 - Celebre o jogo, não o talento. O talento é dom; o jogo é construção.
5 - Sorria. O sorriso de um pai ou de uma mãe vale mais que qualquer troféu.

No fim, o que forma uma criança emocionalmente saudável não é o grito da arquibancada, mas o abraço depois do jogo. “A criança não quer um treinador em casa. Quer um porto seguro. O filho que joga sem medo erra mais, mas aprende melhor. E o pai que observa sem gritar ensina mais do que imagina: ensina a ser leve num mundo que anda bem pesado”, finaliza a neuropsicóloga.

 

Saiba mais

Ana Paula Alves Rodrigues mantém no Instagram o perfil @aprendendoaserleve. No seu site é possível conhecer o livro “Infância Futebol Clube”, que tem tudo a ver com essa matéria que você acabou de ler! A história que narra uma partida de futebol, traz orientações para que os pais possam fazer as melhores escolhas para o seu filho.

 

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