
Foto: Magnific
Uma mãe escuta, do lado de fora do quarto, o filho jogando on-line com os amigos. Logo depois, ele grava um vídeo para as redes sociais na expectativa de conquistar mais seguidores.
No quarto ao lado, a filha se prepara para publicar uma selfie, mas se entristece porque a foto não alcançou o número de curtidas esperado. Cenas como essas expressam o cotidiano da chamada Geração Z, a primeira geração inteiramente imersa no universo digital.
Embora a tecnologia tenha ampliado as possibilidades de comunicação, também trouxe novos desafios para a construção da identidade, dos vínculos e da saúde mental.
Uma revisão narrativa realizada por Anderson et al. (2024) aponta diversos estudos em que o uso excessivo das mídias digitais, associado a fatores prévios de sofrimento psíquico, contribui para o aumento de sintomas de ansiedade e depressão entre crianças e adolescentes.
Em contrapartida, relações familiares sólidas e redes de apoio constituem importantes fatores de proteção. Emerge, então, um paradoxo: nunca foi tão fácil conectar-se, mas nunca se falou tanto sobre solidão.

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Segundo Cacioppo e Patrick (2008), a solidão não corresponde simplesmente à ausência de pessoas, mas à percepção de que os vínculos existentes não respondem às necessidades emocionais do indivíduo.
Assim, a qualidade das relações torna-se mais importante do que sua quantidade. Entretanto, a lógica das redes sociais parece inverter essa perspectiva.
Curtidas, seguidores e compartilhamentos passam, muitas vezes, a representar uma medida de pertencimento, isto é, a quantidade importa mais que a qualidade.
Han (2019) observa que a hiperconectividade nem sempre favorece encontros verdadeiros; ao contrário, pode intensificar a comparação, a autoexposição e a dificuldade de reconhecer o outro em sua singularidade.

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Em sintonia com essa reflexão, Bauman (2021) descreve uma sociedade marcada pela fragilidade dos vínculos, pela rapidez e pela insegurança nas relações.
Talvez esse seja um dos maiores desafios da Geração Z: viver cercada por conexões e, ainda assim, experimentar um profundo sentimento de isolamento.

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Mas será que a solidão pode ser compreendida apenas como consequência das transformações sociais e tecnológicas? Ou ela também revela algo sobre nossa vida interior?
A Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung oferece uma perspectiva que amplia essa compreensão. É sobre ela que refletiremos no próximo artigo.
Isabela Maria Corrêa Condé (CRP 06-165586). É mestra em Psicologia Clínica pela Universidade Federal do Paraná. Especialista em Psicologia Analítica. Atua como psicóloga clínica remota e presencialmente na cidade de São Paulo, onde fundou o Religar Psicologia, projeto voltado à promoção de saúde mental para a vida religiosa e presbiteral. Contato: @isabelamaria.psi (Instagram) e [email protected] (e-mail).
Referências
ANDERSON, T. L. et al. Fatores que contribuem para o aumento da ansiedade na adolescência e transtornos mentais associados: uma revisão narrativa da literatura atual. Journal of Child and Adolescent Psychiatric Nursing, 38(1), e70009, 2024.
BAUMAN, Z. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2021.
CACIOPPO, J. T.; PATRICK, W. Loneliness: Human Nature and the Need for Social Connection. New York: W. W. Norton, 2008.
HAN, B.-C. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2019.
