Comunicação

Irmã Joana Puntel: “a cultura digital não é mais online ou offline, ela é onlife”

 

Irmã Joana Puntel. Foto: Luis Miguel Modino

A irmã Joana Puntel acaba de completar 80 anos. Em vez de receber presente, ela tem nos presenteado, junto com Marcus Tullius, com mais um livro: “Pastoral Digital: uma mudança paradigmática”.

Sobre a temática do livro, ela afirma que “a pastoral digital não é uma pastoral diferente da pastoral de comunicação, mas é ajudar a pastoral da comunicação que nós já conhecemos a entrar cada vez mais dentro de uma cultura que é uma cultura digital. Não é simplesmente usar os meios, mas é dentro desse todo que nós vivemos numa cultura digital. E a cultura digital não é mais online ou offline, ela é onlife”, fazendo referência ao novo paradigma de Luciano Floridi, “onde leva em conta a pessoa, porque infelizmente quando se fala em comunicação, se pensa em meios”, inclusive na Pastoral da Comunicação. A irmã Puntel insiste em, sem deixar os meios de lado, incluir a pessoa nisso.

Um livro dedicado à memória do Papa Francisco, que é definido como pastor da escuta e do discernimento, comunicador exemplar. A religiosa paulina vê o Papa Francisco como alguém que praticou o que ele disse sobre comunicação, “que é essa escuta, ser firme, porque escutar e deixar fazer a mesma coisa não é realizar a comunicação.” O livro mostra que Francisco é um homem do processo, que leva a se perguntar “quais são os sinais dos tempos para você poder entrar em diálogo com o contexto de hoje”, uma reflexão que aparece numa conferência que ele fez para a Cúria Romana no Natal, “onde ele mostra essa questão dos processos que precisa abrir”, superando dinâmicas que levam a ficar parado, dando passos que levem a prestar atenção aos sinais dos tempos hoje.

Foto: Luis Miguel Modino

Algo que leva a refletir sobre a Inteligência Artificial, “que não se trata só de uma ferramenta, é de tudo que ela está provocando no ser humano, no sentido de repensar, de nova antropologia”, reflete a irmã Puntel. Ela destaca a necessidade de “escutar os sinais dos tempos, porque é ali que o Espírito fala também”.

O ‘onlife’

Aprofundando no conceito ‘onlife’, a religiosa fala dos manguezais, onde convivem a água doce e a água salgada, uma metáfora usada por Luciano Floridi. O filósofo italiano defende que não é igual antigamente, quando era ligado ou desligado um aparelho, hoje “você está continuamente ‘onlife’, porque a comunicação, o digital, ele está ao redor, ele está no que você pensa, não é mais assim que você puxa a gavetinha para dizer aqui está o digital. Nós nos movemos dentro desse digital, seja por aquilo que nós queremos usar no negócio, seja por aquilo que nós queremos consumir, você está continuamente ligado".

A religiosa vê esse fenômeno especialmente presente entre os jovens, falando da síndrome do FOMO (fear of missing out), o medo de ficar fora das novidades e eventos das redes sociais. Isso leva à necessidade de sentir a vibração do celular, o que “mostra que vivemos dentro de um todo que se movimenta.” Nesse sentido, “quando a gente fala que tudo está interconectado, é nesse sentido, tudo. E isso está ficando assim, planetário.” A irmã Puntel lembra que agora saiu um livro chamado “A Soberania Planetária”, que é a questão da inteligência, as camadas neuronais.

Magistério e Inteligência Artificial

Diante do receio frente à Inteligência Artificial, também em ambientes eclesiais, a religiosa paulina destaca a importância de conhecer o Magistério da Igreja em relação a essa temática. Ela lembra a mensagem de Papa Francisco para o Dia Mundial da Paz de 2024, afirmando que “quem quiser saber o que é a Inteligência Artificial e como é que a igreja se comporta, vai lá olhar essa carta”, aparece o tema da ética. Uma reflexão que tem se dado em diversos momentos, enfatizando que “a dignidade humana precisa ser defendida na Inteligência Artificial”.

Foto: Luis Miguel Modino

A religiosa insiste na necessidade de a Igreja reconhecer os progressos que nascem da Inteligência Artificial, “para a medicina, para a engenharia, para tanta coisa, serve. Mas sempre precisa estar a serviço da pessoa humana. E nós sabemos que tem muitas coisas ali pelo meio que estão a serviço das grandes big techs", que faz primar o que os algoritmos lá dentro fizeram. Diante disso, sublinha que “quem colocou os programas lá foi o humano. Frente à análise das produções, “hoje a Igreja chama atenção com a questão da algorética, a ética do algoritmo”, uma reflexão que desenvolve frei Paolo Benanti. Daí a importância de formar aqueles que programam os algoritmos, segundo a irmã Puntel.

Diante da realidade da geração digital e a pergunta se Deus pode estar presente no celular e nesse espaço Ele se comunica, a religiosa parte da premissa de que “Deus está presente em todo lugar”. A irmã Puntel disse trabalhar e seguir os aportes da pesquisadora da PUC de São Paulo, Lúcia Santaella, “e ela trabalha muito com a questão cognitiva, a questão das camadas neuronais.” A pesquisadora defende a necessidade de começar com a ética com as crianças, não com regrinhas, mas com comportamento, o que demanda acompanhamento das crianças, também quando elas estão com o celular, dado que “isso aí penetra dentro do coração dele”.

Proposta a seguir na Pastoral Digital

Na Pastoral Digital, a irmã Joana Puntel destaca três pontos importantes: estarmos atentos ao contexto, quais são os sinais dos tempos hoje; os novos paradigmas, que é o ‘onlife’; as pistas para você levar adiante uma pastoral que leva em conta os caminhos para uma pastoral digital, segundo recolhe o capítulo VI do livro, que no prefácio, dom Joaquim Mol Guimarães, pelo começar por ele a leitura. A religiosa destaca alguns verbos que, no livro, “apontam atitudes e processos existenciais que devem orientar a ação pastoral da Igreja na cultura digital: sair, anunciar, habitar, educar, transfigurar, dar rosto cristão à cultura digital, formar comunidades conscientes online”.

A irmã Joana Puntel destaca a importância das paróquias criarem comunidades online, inclusive com as pessoas idosas, “isso vai unindo a comunidade”, dado que “é aquilo que nós estamos vivendo.” A religiosa insiste na importância das pistas da ação para a pastoral digital, como é incorporar o Magistério ao planejamento pastoral; promover a formação permanente; partir do sentido da missão; fomentar o diálogo entre fé e ciência.

 

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