O apóstolo Paulo, em sua saudação, já nos introduz na Leitura Orante: “Que a Palavra de Cristo permaneça em vocês com toda a sua riqueza, de modo que possam instruir-se e aconselhar-se mutuamente com toda a sabedoria. Inspirados pela graça, cantem a Deus, de todo o coração, salmos, hinos e cânticos espirituais”. (cf. Cl 3,16)
Paulo fala aos colossenses de uma vida nova alicerçada na Palavra. Este é o objetivo da Leitura Orante.
É uma dinâmica tão encarnada que o próprio Jesus diz que são de sua família aqueles que ouvem e vivem a Palavra: "Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a Palavra de Deus, e a põem em prática” (cf. Lc 8,21).
Na Bíblia, a Palavra
Foto: Juliene Barros
A Bíblia, antes de ser escrita, foi transmitida oralmente. Antes de ser transmitida, era vivida. Acolhida no coração, era revelada na prática. Assim, Isaías proclamava: “Como a chuva e a neve descem do e para lá não voltam sem antes molhar a terra, tornando-a fecunda e fazendo-a germinar, a fim de produzir semente para o semeador e alimento para quem precisa comer, assim acontece com a minha palavra que sai de minha boca: ela não volta para mim sem efeito, sem ter realizado o que eu quero e sem ter cumprido com sucesso a missão para a qual eu a mandei (cf. Is 55,10-11).
Uma identidade
Não levamos a Palavra de Deus aos confins do mundo numa pasta, num pendrive, pela internet. Nós a levamos em nós, não na nossa memória organizada, registrada num arquivo. São Paulo mais uma vez nos ajuda: “Vistam-se do Senhor Jesus Cristo”(cf. Rm 13,14). Não apenas é um novo modelo. É uma identidade.
Segundo M. Delbrêl, “a tendência viva da Palavra é fazer-se carne, encarnar-se em nós. E quando estivermos habitados por ela, estaremos aptos para a missão”. (M. Delbrêl, Il Cristo della porta acanto, Paoline, 2000).
A Leitura Orante revela a identidade de quem é habitado pela Palavra e se torna comunicador dela.
Na história
Uma longa história, desde Orígenes (+254), na Carta a seu discípulo Gregório Taumaturgo em que recomenda a lectio das divinas Escrituras. Os cenobitas dos séculos III e IV fazem com muito empenho um exercício de ler, meditar, saborear e memorizar os textos da Sagrada Escritura.
Assim, surgem outras ordens e a espiritualidade monástica ocupam-se da lectio divina. No século XII, Ugo de S. Vitor (1141) propõe a experiência da seguinte forma: lectio, meditatio, oratio, operatio. Pouco depois, o monge cartuxo Guigo II (1188), em sua carta Scala Claustralium, propõe quatro degraus: lectio, meditatio, oratio, contemplatio.
Esta proposta chegou até nós e é muito bem acolhida.
O Papa Francisco diz que a Leitura Orante nos transforma, ilumina e renova: “Há uma modalidade concreta para escutarmos aquilo que o Senhor nos quer dizer na sua Palavra e nos deixarmos transformar pelo Espírito: designamo-la por 'lectio divina'. Consiste na leitura da Palavra de Deus num tempo de oração, para lhe permitir que nos ilumine e renove” (EG 152-153).
O Método praticado hoje
Recomendada pela Igreja em vários documentos, inicia-se com a luz do Espírito de Deus e se pede sua ajuda.
Foto: Juliene Barros
Depois, seguem-se os quatro passos: Leitura, Meditação, Oração, Contemplação.
1º - Leitura
O que o texto diz?
Ler na Biblia, reler, tornar a ler, até conhecer bem o que está escrito, até assimilar o próprio texto tal como ele é, sem interpretações precipitadas, sem achar que já conhece esse texto. Estar atento para as palavras, as repetições, o jeito como está escrito, quem aparece no texto, em que lugar, o que fazem, o que falam... Muitas vezes é preciso lançar mão de algum subsídio ou textos bíblicos paralelos que ajudem a contextualizar, dicionários bíblicos, livros, a ciência, a teologia e outros meios. Assim, descobrimos o que o texto diz em si mesmo.
2º - Meditação
O que Deus fala para nós, hoje?
A meditação é o segundo passo. Trata-se de repetir de memória, com a boca, o que foi lido e compreendido. “Ruminar” até que, da boca e da cabeça, passe para o coração. Já não é mais só o que o texto diz, mas o que a palavra está dizendo hoje, o que diz concretamente dentro da realidade em que vivemos. O que Deus falou no passado e o que está falando hoje, através deste texto? Ver o que há de semelhante e o que há de diferente ao texto na realidade atual.
3º Oração
O que o texto nos faz dizer a Deus?
A meditação nos faz subir o terceiro passo. A leitura e a meditação se transformam em um encontro mais direto, íntimo e pessoal com Deus. O texto bíblico e a realidade de hoje motivam a rezar. A oração pessoal pode se transformar em oração comunitária, expressão espontânea das convicções e sentimentos mais profundos. A oração pode ser com a própria Palavra: salmos, orações, cânticos...
4º - Contemplação
Qual o nosso novo olhar? A partir da Palavra. É o quarto passo.
Contemplar não é algo intelectual ou mental, que se passa na cabeça, mas é um agir novo que envolve todo o ser. É contemplativa a pessoa que tem o “jeito novo” de ser, viver, ver e assumir a vida.
Faça a Leitura Orante da Palavra seguindo as propostas:
- https://leituraorantedapalavra.blogspot.com
- https://www.comeceodiafeliz.com.br/evangelho/
Livros:
Leitura orante da Bíblia – Carlos Mesters
Leitura orante da Palavra de Deus
