Um pouco de história...
Ao longo de décadas, o livro ilustrado para crianças foi denominado de diferentes nomenclaturas: livro ilustrado, livro infantil, livro paradidático, livro infanto-juvenil e hoje, livro para infâncias.
O primeiro livro ilustrado é atribuído a obra Orbis Sensualium Pictus (O mundo visível, 1658), de Comenius. E qual a sua novidade? Trazia pela primeira vez textos e imagens com uma abordagem específica para crianças (Salisbury e Styles, 2013). Contudo, a obra possuía características mais didática que literária.
No Brasil, só a partir do século XIX que surgiram os primeiros livros infantis para atender a demanda de educar as crianças da recém-formada classe média urbana (Zilberman, 2014). No início da década de 1920, Monteiro Lobato (1982-1948) começa a se dedicar a escrita para o público infantil, sendo considerado um dos pioneiros deste tipo de edição no Mercado Editorial. Um dos objetivos de Lobato era usar o livro infantil para educar as crianças, por meio de contos de fadas adaptados à realidade brasileira.
Objetivo do livro ilustrado para crianças
É importante observar que o livro ilustrado tinha como objetivo apenas “ilustrar” ou “decorar” o texto, tornando mais atraente e agradável a leitura das crianças... Isso mesmo, a leitura que era literalmente destinada às crianças, em seu processo de alfabetização. Infelizmente, até hoje, muitas pessoas acreditam que o livro ilustrado é apenas para crianças.

Ir. Fabíola Medeiros de Araújo, fsp, é especialista em Educação Literária, Ensino de Português e Literatura na Educação Básica. Foto: Arquivo pessoal
Esses primeiros livros ilustrados se encontravam basicamente em bibliotecas, livrarias, na Catequese e poucas pessoas tinham acesso, pois acreditava-se que seu objetivo primeiro era educar, ensinar algo. Essa mentalidade é tão forte ainda hoje que muitos educadores ainda chamam “livro paradidático”, como se estas obras, para serem lidas, precisassem do suporte do “livro didático e vice-versa”.
Porém, no decorrer dos anos, pesquisadores e estudiosos de literatura foram percebendo que o livro ilustrado tem uma função bem mais ampla que “didatizar”, o próprio projeto gráfico do livro já é uma obra de arte, que traz em si inúmeros elementos que vão além da escola ou do “ensinamento” de algo, pois estes livros identificam-se como arte literária, que possui, no mínimo duas camadas de texto (escrita e visual) e não apenas um texto escrito com imagens, pois a ilustração já é uma narrativa visual, e não está colorindo as páginas apenas para ilustrar, mas para complementar o “não-dito” na narrativa verbal.
Neste sentido, acredita-se que “uma das principais qualidades do livro infantil ilustrado é permitir e incentivar as crianças a leitura verbal e/ou imagética, tornando possível que extraiam diferentes compreensões de uma mesma narrativa” (Nikolajeva e Scott, 2011). Junto a esse avanço da compreensão do livro ilustrado para crianças, amplia-se também a compreensão de seu público-alvo, quando denomina-se hoje, por muitos críticos literários de livros para infâncias.
Livro para infâncias
A atualização do termo “infantil” para “infâncias” amplia a compreensão do livro literário ilustrado, mostrando ao leitor que a infância aqui não se refere apenas aquela da primeira década de vida, mas contempla a vida de 0 a 100 anos, ou seja, enquanto estamos vivos carregamos a infância dentro de nós. Deste modo, o conceito de infância não é estável ou cronológico. E como perceber que a infância está viva em nós, e que não ficou lá atrás, no passado? Basta observar quando nos encantamos por algo, quando choramos ou rimos e não sabemos explicar, nesses momentos de ebulição emocional estamos revisitando a nossa infância, que construiu a base de nossa identidade. A infância vivida por cada um de nós será sempre como um “quebra-cabeças” de experiências, que foi nos moldando até formar a personalidade que temos hoje.
Portanto, é altamente adequado chamarmos um livro literário ilustrado de “livro para infâncias”, pois uma boa literatura tem a magia de despertar nossos sentimentos mais adormecidos, ao nos proporcionar a experiência da catarse. O livro literário ilustrado com suas múltiplas camadas possui essa epifania de encontros: do leitor com o autor, com o ilustrador, consigo mesmo, abrindo seus olhos para um ato social ético, pois quando lemos descobrimos outros mundos ou outra forma de ser e estar no mundo.
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