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Mais do que adotado: filho

No Dia da Adoção, mãe relembra o processo até a chegada do filho e afirma: “A adoção foi o caminho pelo qual ele veio até mim”

Gabriel no meio dos pais Vagner e Flávia: vínculo construído através dos pequenos cuidados. Foto: Arquivo Pessoal


A maternidade pode despertar de muitas formas. Para algumas mulheres, ela nasce na gestação; para outras, nasce no encontro, na espera e na decisão de amar um filho que chega por outro caminho. No Dia Nacional da Adoção, celebrado em 25 de maio, histórias como a de Flávia Cuzziol de Carvalho mostram que os laços familiares são construídos, sobretudo, pelo cuidado, pela presença e pelo amor cotidiano.

Moradora de Indaiatuba (SP), Flávia, de 44 anos, é mãe de Gabriel, de 7 anos, adotado ainda bebê. Ao lado do marido, Vagner Pinheiro de Assis, de 47 anos, ela viveu o processo de habilitação, a espera e a chegada do filho que transformou a vida da família. Hoje, fala da adoção com naturalidade e carinho, sem romantizar os desafios, mas destacando a beleza da maternidade construída pelo coração. Confira:

“Eu sempre quis ser mãe por adoção. Ainda adolescente, quando ouvi de médicos que talvez tivesse dificuldade para engravidar, pensei: ‘Tudo bem, então vou adotar’. Isso nunca foi um problema para mim. Eu até perguntava para a minha mãe: ‘Se eu adotar, você vai ser avó do meu filho?’. E ela respondia: ‘Claro, se é seu filho, é meu neto’.

Depois que casei, eu e meu marido decidimos tentar uma gravidez natural. Tentamos por alguns meses, mas, quando procurei ajuda médica, começaram os exames e a possibilidade de fazer fertilização assistida. Foi um processo muito difícil emocionalmente para mim. Achei os exames invasivos, doloridos, e me senti muito sozinha em vários momentos. Então entendemos que aquele não era o nosso caminho.

"A adoção foi a forma como o Gabriel chegou até nós, não aquilo que define quem ele é". Foto: Arquivo Pessoal

A decisão definitiva aconteceu durante uma viagem ao Rio de Janeiro. Assistimos ao filme ‘Lion: Uma Jornada para Casa’ e saímos muito emocionados. Na volta, meu marido falou: ‘A gente já decidiu que quer ter filho e que não quer fazer fertilização. Então vamos iniciar o processo de adoção. No dia seguinte, eu já estava no fórum.

O processo foi cheio de aprendizados. Fizemos encontros com grupos de apoio, avaliações psicológicas e sociais, exames… E uma coisa que  aprendi é que o sistema não procura uma criança para os pais; ele procura os pais mais adequados para cada criança. Isso muda completamente a perspectiva.

Nós aceitamos crianças de ambos os sexos, de até quatro anos. Eu imaginava que viria uma criança mais velha, porque pensava que a maioria das famílias queria bebês. Então, seguimos nossa vida normalmente. Não montamos quarto, não compramos nada, porque eu não queria alimentar a ansiedade.

Foto: Arquivo Pessoal

Dois anos depois, o telefone tocou. O fórum disse que havia um menino compatível com o nosso perfil: o Gabriel. E ele tinha apenas três meses de idade. O período de adaptação foi muito rápido. Em 12 dias, precisei organizar licença-maternidade, preparar a casa e começar as visitas diárias ao abrigo. No começo, eu ainda mantinha os pés no chão. Eu queria muito que desse certo, mas o vínculo foi sendo construído aos poucos, nos pequenos cuidados.

Nunca esqueço o dia em que levei o Gabriel para tomar vacina. O médico explicou tudo o que precisava ser feito caso ele tivesse febre durante a noite. E eu saí de lá chorando, porque percebi que eu não estaria com ele naquela noite — ele ainda voltaria para o abrigo. Foi nesse momento que pensei: ‘Agora não consigo mais deixar essa criança’.

Ele veio morar com a gente no feriado de Corpus Christi de 2019. Hoje, o Gabriel sabe toda a história dele. Sabe que não nasceu da minha barriga, sabe que morou em outra casa antes de chegar até nós e adora ver os vídeos do dia em que chegou.

A adoção é a única maternidade que eu conheço, então não tenho comparação. Mas posso dizer que é uma maternidade completamente real, com alegrias, desafios, medos e muito amor. E hoje eu costumo explicar que a adoção foi a forma como o Gabriel chegou até nós, não aquilo que define quem ele é. Ele foi adotado, assim como uma criança pode ter nascido de parto normal ou cesárea, mas isso não resume a vida dela. O Gabriel nasceu para mim por meio da adoção, mas hoje ele é, simplesmente, meu filho”.


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