
Pintura "Mulheres Santas na Tumba do Cristo", de Annibale Carracci. Domínio Público
Hoje me deparei com a narrativa de João sobre a experiência de Maria Madalena com seu amigo Jesus, que ela vai afirmar ser o Mestre de sua Vida. O texto se encontra em João 20,11-18.
Li a narrativa do Evangelho não só com o intelecto, que é importante, mas insuficiente. Dei lugar ao coração e li com afeto. Senti-me envolvida e abraçada por essa linda experiência, que podemos chamar “encontro e-TERNO”. E é com ternura e desejo que escolho compartilhá-la com você. Venha comigo!
Com a morte do Amigo, a mente, o coração, os desejos de Madalena, estavam todos confusos, na noite escura mais densa. O tempo e o espaço, como uma prensa em alta potência, esmaga o caroço de azeitona para extrair o óleo mais puro e curativo de oliva, esmagava o seu corpo, seus sentimentos, suas emoções, suas seguranças, sua esperança...
Imagino que na turbulência em que estava imersa, Madalena dava-se conta somente da única pergunta: E agora, como posso ser e viver? Aquele primeiro encontro com Jesus transformou minha vida e passamos a compartilhar os sonhos e desejos de despertar novos corações para SER! E agora? Como posso ser e viver?
Sim, Madalena experimenta a dor do abandono. Aliás, ela já havia enfrentado essa dor no seu ambiente familiar e social. Conhecia o tamanho da dor de não pertencer a ninguém, nem a si mesma. Que tal pensar que Madalena poderia ser eu, você, o outro? Qual a sua dor? O que lhe falta?
Madalena acreditava que a ferida do abandono, do não- pertencimento, de ser rejeitada, da autorrejeição, havia cicatrizado desde o momento em que encontrou o amigo. Não era qualquer amigo, era aquele que havia devolvido a ela o amor-próprio: Jesus, o Amor.
Este primeiro encontro foi o início de tantos outros! E ela sentiu que precisava revisitar o “seu túmulo”. Voltar ao “túmulo existencial”, entrar dentro de si mesma e chegar lá onde só a Luz do Amigo Jesus sempre esteve. Revisitar o que se acreditava estar “sepultado” é um movimento para dentro que precisa de muita coragem, de muito desejo e muita fé! O anseio de entender a si própria e o que estava acontecendo ao seu redor a faz decidir revisitar-se.
Madalena passa pela noite escura. O amor pelo amigo foi provado. Na verdade foi novamente passado pela prensa para ser dele extraído o óleo mais fino e puro de oliva, aquele que vai curar, para sempre, a sua dor de se sentir só, abandonada, não pertencente. E isso dói, ah! Como dói! O choro até pode ficar preso na garganta. Mas, como a força do sol que desponta no horizonte ao raiar da primeira hora, o choro sai como nunca antes. “Por que choras? A quem procuras” (Cf. Jo 20, 15).
Já ouvi e li também, que o choro cura, limpa, libera, ... Madalena chora e no seu pranto de dor escuta novamente a voz suave do seu amigo. Ah! E que voz familiar, carregada de afeto, ternura, aconchego! “Por que choras?” (v. 15) O amigo se interessa pela sua dor, pelo soluço que rompe as barreiras da repressão e sai como uma fonte que jorra livremente. É preciso externar a dor – chorar – para que chegue aos ouvidos e ao coração a pergunta do amigo: “Por que você está chorando? Qual o nome de suas lágrimas?
O amigo Jesus quer que sua amiga volte ao desejo, e a chama pelo nome: “Maria” (Jo 20,16). Qual desejo? O desejo de SER, ser ela mesma! Era necessário recuperar a sua identidade. Dentro de MARia tem um MAR para ser desejado, contemplado, acolhido e ressignificado. Ela sente a pulsão da vida dentro de si e corre, vai lá no fundo de sua dor, reconhece que necessita ser amada, e o seu pranto se transforma em alegria.
Porém, ainda não estava segura de si e tem a tentação ou tendência de ficar no passado, pois este já lhe era bem conhecido. “Não me segure” – pede Ele (Cf. Jo 20,17). Não, Madalena! Não fique presa, agarrada ao passado! Olhe o horizonte descortinando diante de si, veja o MAR que você tem para navegar. Coragem! Siga o novo! Viva o presente que terá o futuro!
Madalena, envolvida pelo novo, pelo Amor sincero do amigo... dá lugar à confiança, à esperança, à coragem, à fé, à vida, ao MAR de amor dentro dela: MARia! Na experiência do “segundo encontro” amadurecido, ressignifica o “primeiro encontro” ainda imaturo. Abre-se ao novo, a vida pulsante que como o mar tem seu fascínio, seu encanto e seu mistério.
E qual o passo seguinte? Mergulhar cada vez mais para dentro, reconhecer-se nova Mulher, com uma música nova nunca tocada e escutada. Na verdade é uma sinfonia! “EU VI O SENHOR!” (Jo 20, 17). “Eu Vi a mim mesma e agora sei que sou habitada por uma presença que me faz inteira – reconciliada com meu passado, abraçada ao presente e aberta ao futuro”. “EU VI O SENHOR!”. E agora sei Quem Sou e Para Quem Sou!
Maria Madalena sabe quem é e a quem pertence seu coração. Por isso, cantará a sua música. E nós “sabemos quem somos e a quem pertencemos”? O que deseja nosso coração?
Amada como nunca se sentiu antes, Maria Madalena sai, deseja compartilhar a sua música, o Amor amadurecido que agora vive lá no mar de dentro e, como uma sinfonia harmoniosa, desperta o desejo de SER-Servir-Viver-Compartilhar-anunciar! (Cf. Jo 20,18).
Vamos! Agora o caminho do Amor, para o Amor, com o Amor e no amor, é nosso!
Leia Mais
- Maria Madalena, discípula predileta do Senhor

