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Para muitos jovens, o vestibular representa a porta de entrada para o futuro profissional. É tempo de estudar, revisar conteúdos, fazer simulados e enfrentar provas que podem definir os próximos passos da vida acadêmica. Mas, quando a preparação ocupa todos os espaços da rotina, o sonho de conquistar uma vaga pode vir acompanhado de ansiedade, cobrança e medo de fracassar.
Aos 18 anos, Ana Luiza Ferreira está no cursinho pela segunda vez e se prepara para prestar vestibular para Medicina. A experiência anterior trouxe aprendizados, mas também uma nova pressão: a sensação de que, desta vez, precisa conseguir.
Para a psicóloga clínica Juliana Ribeiro, a ansiedade diante de uma prova faz parte da expectativa. O sinal de alerta aparece quando ela deixa de estar relacionada apenas ao desempenho e começa a atingir a percepção que o jovem tem de si mesmo. “A ansiedade que adoece é aquela em que o jovem duvida de quem ele é e do que ele representa naquele grupo, sua função e importância”, explica.
A seguir, Ana Luiza conta como vive essa preparação e Juliana ajuda a reconhecer sinais de sofrimento e aponta caminhos para preservar a saúde mental.
“Minha vida não se resume a uma prova”

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A estudante Ana Luiza Ferreira, 18 anos, está no cursinho e se prepara pela segunda vez para o vestibular de Medicina.
- Como é sua rotina de estudos?
É bem intensa. Como estou fazendo cursinho pela segunda vez, já conheço um pouco melhor o ritmo. Tenho aulas praticamente todos os dias, além de revisões, exercícios e simulados. Tenho sempre a sensação de que existe alguma coisa que ainda preciso estudar.
- O que mais gera ansiedade?
Acho que é principalmente o resultado. Quero muito passar em Medicina e, como essa é a segunda vez que presto vestibular, existe uma sensação de que agora eu preciso conseguir.
A comparação também pesa. No cursinho, você vê pessoas que acertam mais questões, tiram notas maiores ou parecem estar muito mais preparadas. É difícil não pensar que está ficando para trás.
Minha família me apoia muito, mas eu mesma sinto que não quero decepcioná-los. Acho que boa parte da cobrança acaba vindo de dentro.

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- Como a ansiedade aparece no dia a dia?
É como uma preocupação constante, como se eu nunca estivesse fazendo o suficiente. Também fico mais agitada e tenho dificuldade para me concentrar. Há dias em que estou tão preocupada com a prova que até descansar parece perda de tempo.
- A fé ajuda nesses momentos?
Sim. A oração é uma das coisas que mais me ajuda, principalmente quando sinto que estou tentando controlar tudo. Peço a Deus tranquilidade e sabedoria para fazer a minha parte. A fé me ajuda a lembrar que tenho um sonho e estou me esforçando por ele, mas minha vida não se resume a uma prova.
- O que faria diferente para cuidar da saúde mental?
Entenderia que descansar também faz parte da preparação. No ano passado, muitas vezes achava que, se não estivesse estudando, estava perdendo tempo. Hoje percebo que cuidar da saúde mental também deve fazer parte da preparação para o vestibular.
“O desempenho não pode ser a medida do valor”

"Existe vida após aquela prova. A nota não representa quem o jovem é, mas uma etapa de sua caminhada", afirma a psicóloga Juliana Ribeiro. Foto: Arquivo pessoal
A psicóloga clínica Juliana Ribeiro explica como reconhecer quando a ansiedade deixa de ser esperada e passa a afetar a saúde mental.
- O que diferencia a ansiedade comum diante de uma prova daquela que merece atenção?
A ansiedade diante de uma prova é uma expectativa baseada no que o jovem pode ou não fazer, focada na produtividade diante do teste. Já a ansiedade que adoece é aquela em que o jovem duvida de quem ele é e do que representa naquele grupo. A frequência e a intensidade desses momentos indicam que é hora de pedir ajuda.
- Quais sinais mostram que a pressão está afetando a saúde mental?
Podem aparecer dores no estômago e de cabeça sem razão biológica aparente, acompanhadas de um cansaço intenso. Outro sinal é o afastamento das atividades cotidianas, como sair com amigos ou assistir a um filme em família.
Também pode surgir culpa ao fazer qualquer coisa que não seja estudar, como se viver o ordinário fosse “perda de tempo”.
- Como a cobrança por desempenho afeta a autoestima?
Quanto maior for a cobrança, mais intensa é a comparação com outros colegas. Ao se comparar, o jovem deixa de enxergar suas próprias conquistas e sua caminhada. Assim, não consegue gerar autoconfiança, que é um dos pilares da autoestima.
Quanto mais confio em mim, mais sinto vontade de investir em mim. Sem esse combustível, o desempenho ideal fica mais distante.

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- Quando procurar ajuda profissional?
Quando o jovem ou a família percebe alterações no sono, como insônia ou sonolência excessiva, ou na alimentação, quando passa a comer em excesso ou deixa de se alimentar. Quando o corpo começa a sofrer, já é um sinal de que algo está desregulado em relação às expectativas.
- Quais cuidados não devem ser deixados de lado?
Sono regular, pausas para alimentação sem estudar ao mesmo tempo, momentos de higiene sem pressa, contato com amigos e família, comunidade de fé, reflexão e contato com a natureza.
Antes da prova, é importante lembrar que ela não mede todo o conhecimento e que o erro faz parte do aprendizado. Não é necessário tentar absorver mais conteúdo minutos antes do teste. Existe vida após aquela prova. A nota não representa quem o jovem é, mas uma etapa de sua caminhada.
- Que mensagem deixaria para quem sente que seu futuro depende daquela prova?
Existe vida após essa prova. E essa vida já existia antes dela: uma vida imperfeita, cheia de pequenos momentos que constroem o lugar para onde vocês podem voltar. O abraço, o olhar atento, a escuta que acolhe e a fala que conecta são mais importantes que a competição e o desempenho.
O afeto de quem te conhece sempre será mais relevante que as avaliações que tentam te validar. Você constrói seu futuro sabendo de onde vem e quem está sendo neste momento.
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