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O Advento começa nos lembrando que a vida é instável.
Talvez essa seja a palavra que melhor define a nossa existência: instabilidade.
Nada permanece o mesmo.
Hoje estamos cheios de fé, amanhã distraídos;
Hoje sorrimos, amanhã lutamos para encontrar sentido...
Mas é justamente essa instabilidade própria da vida humana que nos põe em movimento.
Se tudo fosse estável e previsível, talvez não houvesse espaço para o advento — para o “advir”, para o que ainda pode nascer de nós.
A consciência da nossa fragilidade e das nossas ausências é o que nos desperta para a esperança. O vazio que sentimos não é apenas sinal de falta, mas também sinal de possibilidade.
O Advento nos ensina isso: não há esperança sem falta, nem fé sem espera.
É próprio e belo do ser humano essa incompletude.
Incompletude que gera busca. Que gera desejo.
É curioso perceber que a própria palavra “advento” carrega em si a ideia de chegada, de algo que vem — mas que ainda não se realizou.
E é aí que entra a expectativa e o desejo.
A palavra “desejo”, tem origem na expressão latina que significa “afastamento das estrelas”.
Como quem olha para o céu e só vê escuridão
Um céu de uma noite que não vemos nenhuma estrela
De uma única estrela capaz de nos orientar
Como a estrela que guiou os Reis Magos.
Desejar, portanto, é sentir falta de algo que nos orienta,
é reconhecer a distância entre:
o que somos e o que poderíamos ser.
O desejo, portanto, é ferida e impulso ao mesmo tempo
Nasce da ausência, mas aponta para a esperança.
No fundo, o Advento nos coloca exatamente aí: entre a estrela que ainda não brilhou
e o céu que a espera;
Entre o que falta e o que pode nascer.
É essa tensão que nos põe a caminho.
São Paulo, na segunda leitura, nos sacode com suas palavras: “Já é hora de despertar.”
O Advento é um chamado a acordar do sono da indiferença e da distração.
De despertar do sono interno. Da repetição fria da vida. Do automático que consome o sentido.
Despertar é voltar a sentir a beleza da vida, é reencontrar o sentido da fé. São as escuridões da vida pelas “armas da luz”: a fé, a esperança, a caridade.
O Evangelho fala justamente do sono da alma.
Assim como nos dias de Noé, quando as pessoas viviam suas rotinas, comendo, bebendo, casando-se, sem perceber que algo novo estava para acontecer.
A vida seguia e, de repente, veio o dilúvio.
O problema não estava no comer ou no casar-se, mas em viver anestesiado, sem perceber os sinais do tempo de Deus.
Jesus compara ainda sua vinda à chegada de um ladrão.
É uma imagem forte, mas real: o ladrão não avisa a hora. Simplesmente chega e leva algo que, muitas vezes, é valioso para nós.
A vigilância, portanto, não é medo, pois Jesus não é um ladrão — é atenção amorosa.
Tem um coração desperto, aquele que vive de olhos abertos, que percebe Deus chegando nos detalhes do cotidiano.
Estar preparado é viver cada instante como dom, sabendo que o tempo de Deus pode acontecer a qualquer momento.
Na primeira leitura Isaías nos apresenta o monte do Senhor, alto e luminoso.
Subir esse monte é símbolo da vida espiritual: deixar-se conduzir, redescobrir o sentido, reacender os sentidos apagados pela rotina e pela dor. Isso exige maturidade — a maturidade de quem já entendeu que nós cabemos nos planos de Deus.
Cabemos no seu Advento.
O Advento é um tempo de conversão, não de medo.
É o tempo de abrir espaço para Deus refazer o que está cansado dentro de nós. O pecado não é apenas fazer o mal; é também impedir que o bem aconteça.
É deixar de crescer, é estagnar-se.
Por isso, o Senhor nos pede: Desperta!
Viver o Advento é praticar uma esperança operante — não esperar de braços cruzados, mas preparar o coração como quem prepara a casa para receber uma visita.
Antecipamos a vinda de Jesus toda vez que tornamos o mundo mais humano, mais justo, mais luminoso.
Onde um cristão vive com amor e verdade, ali o Senhor já está voltando.
Mas para isso é preciso reconhecer nossa instabilidade.
A vida é instável, e justamente por isso é cheia de possibilidades.
O que nos mantém vivos não é o que já conquistamos, mas o que ainda buscamos.
Esse vazio que sentimos, essa incompletude, é o espaço onde Deus age.
A instabilidade, longe de ser um problema, é a força que nos empurra para o crescimento, para o amadurecimento, para o encontro com o novo de Deus.
Como Noé, somos chamados a construir a arca da fé antes que chegue o dilúvio.
A amizade com Jesus é essa arca — construída pouco a pouco, nos gestos diários, nas escolhas fiéis, nas pequenas conversões.
O Evangelho ainda diz: “Enquanto dois trabalham no campo, um será levado e o outro será deixado. Duas mulheres estão moendo no moinho: uma será levada e outra será deixada”.
Fazem as mesmas coisas, mas, talvez, com disposições diferentes.
Uns vivem de modo desperto; outros, distraídos. O que faz a diferença não é o que fazemos, mas como fazemos.
A vida espiritual é assim: quem vigia transforma a rotina em lugar de encontro.
Quem dorme espiritualmente transforma o dom da vida em repetição sem sentido.
O Advento vem para despertar em nós esse olhar novo — o olhar de quem ainda acredita que Deus pode fazer nascer algo belo, mesmo no meio das ruínas.
Eis o desejo do Advento: o novo.
Amados irmãos e irmãs, que este Advento nos encontre despertos, sensíveis e abertos ao inesperado de Deus.
Estejamos como que à porta de nossas casas esperando ansiosamente por alguém que amamos.
Esse alguém que não disse a hora que chegaria,
Mas sabemos que chegará.
Que o tempo da espera se torne um tempo de gestação, de amadurecimento, de fé viva.
E que Maria, a Virgem do Advento, nos ensine a esperar sem pressa, a confiar sem ver, e a acolher o novo que Deus deseja realizar em nós.
Amém.
Diácono Eduardo Willian da Silva é salesiano de Dom Bosco. Graduado em Filosofia e Teologia pelo Centro Universitário Salesiano de São Paulo.
