Serviço de Animação Bíblica (SAB)

O cântico dos três jovens no livro de Daniel e a ecologia

O capítulo 3 do livro de Daniel é um hino à fidelidade daqueles que seguem a Deus, mesmo que tenham que passar por perseguições e o risco de morte. É uma lição de vida de resistência à idolatria, que consiste em trocar o Deus vivo e verdadeiro por falsas divindades.

A história narrada se passa na região da Babilônia, onde o resto do Povo de Deus vivia no exílio, longe de sua terra. O Rei Nabucodonosor mandou fazer uma estátua de ouro com trinta metros de altura por três metros de diâmetro.

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A estátua foi construída para que todas as pessoas e os povos oprimidos pelo império babilônico se ajoelhassem para adorar o rei. Ele se considerava como um deus, tamanho era seu poder! Havia outros deuses que eram venerados pelos babilônios, como controladores da natureza e da sociedade.

Os jovens judeus Sidrac, Misac e Abdênago, segundo se diz, haviam recebido o encargo de administrar algumas províncias da Babilônia. Mas não se curvaram às exigências do rei, mesmo correndo o risco de perder suas funções e serem jogados na fornalha ardente (Dn 3,16-18).

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Os três são amarrados e jogados na fornalha, que estava sete vezes mais aquecida do que o normal. Deus os protege, criando uma proteção no meio do fogo. Abdênago é chamado na sua língua materna de Azarias, que significa “o Senhor ajuda”. Ele entoa um canto a Deus. Pede perdão em nome do povo judeu. Clama a Deus diante do sofrimento sofrido e pela falta de lideranças políticas e religiosas.

Pede ao Senhor que tenha piedade de seu povo, pois Deus é fiel, mesmo que seus servos não o sejam (vv. 33-45). Logo a seguir, os três jovens louvam e glorificam a Deus a uma só voz, com um cântico que até hoje nós cantamos no Ofício Divino, em dias de festa. Após cada evocação de louvor, repetem o refrão “a Ti, glória e louvor para sempre”.

Na primeira parte do cântico, reconhecem sua ancestralidade e pertença, dirigindo-se ao Senhor como “o Deus de nossos pais”. Louvam a Deus por seu nome santo, pelo templo que é o próprio céu, e pelos anjos (vv. 52-56). Então, começa um “canto ecológico”, que nos surpreende.

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Os três jovens convidam todas as obras de Deus a louvá-lo. Para começar, são chamados a louvar a Deus: o firmamento do céu, as nuvens, o sol e a lua, as estrelas, a chuva e o orvalho e os ventos (v. 57-65). Enfrentando as crenças daquela cultura, proclamam que esses seres não são deuses, mas estão a serviço do Deus criador.

O louvor continua. São chamados então a energia do sol e do fogo, o calor e o frio, as chuvas que fecundam o chão, a geada e a neve, o belo ritmo do dia e da noite, que trazem a luz e a escuridão. Novamente se lembra da chuva, por meio do relâmpago e das nuvens. Hoje, a ecologia mostra como é importante o equilíbrio desses fatores.

As mudanças climáticas, produzidas em grande parte pelo uso dos derivados do petróleo (gasolina, querosene de aviação e diesel), estão mudando o curso dos ventos, o ritmo das chuvas e da estiagem, o frio e o calor. Ao cantar esse hino, tomamos consciência de como essas criaturas são importantes para nós, humanos, as plantas e os animais (vv. 66-73).

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Papa Francisco, no documento Laudato Si’, afirma que a Terra, nosso planeta, é para nós como uma irmã com a qual partilhamos a existência, uma mãe que nos alimenta com seus frutos, e uma casa, na qual habitam todas as criaturas (LS 1). Essa intuição já está presente nesse hino bíblico. Os três jovens exclamam: “Terra, bendiga o Senhor”.

O convite a louvar a Deus com as criaturas se estende às montanhas e colinas, a todas as plantas (tudo o que brota do chão), às fontes, mares e rios. Na atualidade, descobrimos que o solo e a água estão profundamente relacionados, o que nos permite cultivar os alimentos (vv. 74-77).

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Como é bom louvar a Deus com todos os seres vivos que habitam as águas, o solo e o ar! O cântico cita: baleias e peixes, aves do céu e animais selvagens e domésticos (vv. 79-81). Podemos imaginar que tanto os macacos e as onças, como os cachorrinhos participam desse louvor. Esse olhar encantado pela criação perpassa o cântico inteiro. E, como diz o Papa Francisco: “nós e todos os seres do universo, sendo criados pelo mesmo Pai, estamos unidos por laços invisíveis e formamos uma espécie de família universal, uma comunhão sublime que nos impele a um respeito sagrado, amoroso e humilde” (LS 89).

Quem estava faltando nessa grande corrente de louvor? Os seres humanos. Somos convocados para louvar a Deus e exultar de alegria para sempre.

Todos os humanos, o povo de Deus, os sacerdotes e todos os servidores, aqueles que são fiéis a Deus, os vivos e os mortos (vv. 82-88).

O cântico de Daniel 3,51-90 tem semelhanças com os Salmos da Bíblia, que nos convocam para louvar a Deus pela criação e pela salvação, acontecendo na libertação histórica. O Sl 136 proclama: “porque eterno é seu amor”, recordando a ação de Deus na criação, na libertação da escravidão no Egito e na ocupação da terra prometida.

O Salmo 103 reconhece sua misericórdia e os imensos benefícios que Deus nos concede. E termina: “que todas suas obras bendigam a Deus”. Já o último Salmo da Bíblia se conclui assim: “Todo ser que respira, louve a Deus. Amém” (Sl 150,6).

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Séculos mais tarde, São Francisco de Assis entoou o “Cântico das criaturas”. As atitudes são as mesmas do hino dos três jovens em Dn 3, 91-90: encantamento, gratidão, louvor a Deus pela criação e sua ação libertadora, proclamação de sua misericórdia, convite às criaturas para louvarem a Deus conosco. Que nós, ao entoar esse cântico, reconheçamos a bondade e a misericórdia de Deus em toda a sua criação e nos empenhemos para cuidar dela! Amém.
 
Irmão Afonso Murad, marista, é doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma. Professor de Teologia na Faculdade Jesuíta em Belo Horizonte. Articula seu pensamento a partir de vários saberes. Especialista em Mariologia. Colabora no quadro “Na Escola de Maria” e “Vamos cuidar” na TV Aparecida. Membro da Academia Marial de Aparecida. Assessor voluntário da REPAM Brasil (Rede Eclesial Pan-Amazônica) e da Rede “Igrejas e mineração”. Autor de vários livros, entre os quais: Gestão e Espiritualidade; Maria, toda de Deus e tão humana; Janelas abertas: Fé cristã e ecologia integral.

 

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Livro de Daniel: “Dai graças ao Senhor, porque Ele é bom” (Dn 8,89)

 

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