
São João Batista Scalabrini. Foto: Arquivo Paulinas
Cardeal e arcebispo da Igreja
Carlos Borromeu nasceu na cidade de Arona, em outubro de 1538, e faleceu na cidade de Milão, em novembro de 1584, ambas ao norte da Itália. Com a idade de 25 anos, foi ordenado sacerdote e, logo em seguida, consagrado bispo. Com apenas 27 anos, recebe o título e a responsabilidade de Cardeal, sendo nomeado arcebispo de Milão. Por seu testemunho e dedicação como pastor, São Carlos Borromeu foi beatificado em 1602, pelo Papa Clemente VIII, e depois canonizado em 1610, pelo Papa Paulo V.
Na memória da Igreja, desde cedo, é considerado um modelo de santidade, o que levou São João Batista Scalabrini, o “apóstolo dos migrantes”, a escolhê-lo como padroeiro do carisma scalabriniano, fundamentado na acolhida aos migrantes e refugiados. Falecido em 3 de novembro, sua memória é celebrada no dia 4 do mesmo mês.
Tendo se formado em Direito canônico e em Direito civil, São Carlos manifestou uma participação importante na fase conclusiva do Concílio de Trento (1562-1563). Devido a seu estudo, lucidez e solicitude pastoral, como também devido a seu ministério exemplar, acabou se tornando um dos protagonistas fundamentais da contrarreforma.
Tratava-se então de responder à reforma protestante, desencadeada pelo monge agostiniano Martin Luther, o qual acusava o clero, entre outras coisas, de venda e comércio das indulgências plenárias. Tais acusações sobre a prática do catolicismo romano levaram o monge à publicação, em 1517, de suas 95 teses contrárias à Igreja de Roma. Retomando a figura de São Carlos, profundo conhecedor dessa doutrina, colaborou também na redação e difusão do “Catecismo Tridentino”.
Santo de caridade incansável
Na segunda metade do século XVI, mais precisamente entre 1576 e 1577, uma grave epidemia se abateu sobre vários países da Europa, golpeando de forma particular o norte da Itália e a região de Milão. Febre e doença, agonia e morte, medo e escassez se tornaram chagas vivas de um cotidiano macabro e pestilento.
O livro A peste, do escritor francês Albert Camus, descreve um cenário ao mesmo tempo ilustrativo e horripilante da epidemia. Enquanto os mortos, às dezenas e centenas, são atirados às calçadas e ruas, na esperança de que os carroceiros os recolham, os vivos se isolam e se escondem com temor de contrair o mal. Em algumas cidades, a epidemia dizimou parte expressiva da população, deixando um rastro de morte e luto.
Não tendo a quem apelar, o povo aflito se voltou para o arcebispo. O pastor, que havia escolhido como lema episcopal o conceito de “Humilitas”, diante do flagelo que dizimava a cidade, fez jus à humildade, à prontidão e à caridade. Desfez-se de muitos bens, tanto seus como da Igreja, para socorrer os feridos e famintos em desespero, prisioneiros no interior das próprias casas.
O bispo fez questão de percorrer toda a cidade, levando os últimos sacramentos e o conforto da fé aos que tinham a sorte de sobreviver. Sua atuação representou uma solicitude tão marcante entre os enfermos e agonizantes que o período da peste passou para a história como a "praga da São Carlos". “Tamanha é a força da caridade”, dirá mais tarde o escritor italiano Alessandro Manzoni no romance Promessi Sposi (Os noivos, em português). Dedica várias páginas aos horrores da epidemia.
Formação do clero
Como resposta à citada reforma luterana, e no sentido de curar um outro tipo de epidemia, desta vez a enfermidade espalhada pelo corpo do clero daquela época, acusado da venda de indulgências, como vimos acima, São Carlos desempenhou papel relevante seja na construção de seminários para uma formação mais firme e cuidadosa dos futuros sacerdotes, seja na promoção e realização de sínodos diocesanos.
Da mesma forma que o ambiente dos seminários, também os sínodos tinham por objetivo varrer os males que assolavam o corpo da própria instituição, numa grande tarefa de moralização.
Seu conhecimento do direito canônico e da doutrina da Igreja católica tornou-se decisivo na busca por um antídoto a uma prática não somente escandalosa e nociva ao Corpo Místico de Cristo, mas sobretudo contrária aos princípios evangélicos.
Pe. Alfredo J. Gonçalves,cs, é sacerdote da Congregação dos Missionários de São Carlos (scalabrinianos), cujo carisma é atuar com migrantes e refugiados. Durante 5 anos, foi assessor do Setor Pastoral Social da CNBB, depois Superior Provincial e Vigário Geral na Congregação supracitada. Hoje, exerce a função de vice-presidente do Serviço Pastoral dos Migrantes (SPM). Recentemente lançou o livro Retratos da Metrópole, organizado pela Missão Paz.
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