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O direito e o avesso da liberdade

Foto: Pexels

Que sirva de abertura uma frase aparentemente paradoxal do filósofo alemão Immanuel Kant: “Você é livre quando faz o que não quer”! 
Em outras palavras, a verdadeira liberdade não induz a seguir irreflexivamente nossos instintos, desejos, paixões e interesses pessoais.

Pelo contrário, torna-se imperativo resistir a esses impulsos imediatos, e não raro egocêntricos e narcisistas, se e quando eles contradisserem a moralidade, a razão e até mesmo o bom senso. Com efeito, semelhantes sentimentos centrados numa espécie de “eu quero, eu posso” acabam escravizando o sujeito à voracidade insaciável das entranhas, bem como ao faro do próprio nariz.

Numa sociedade notoriamente marcada pela egolatria e pelo individualismo, com frequência inusitada, confundimos liberdade com o fato de dizer e fazer o que vem à cabeça.

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O jogo da liberdade envolve um campo muito mais amplo e complexo do que o ambiente pessoal, familiar, partidário ou corporativo. Seu palco privilegiado, hoje em dia profusamente iluminado por luzes e sons das mais diversas cores e tonalidades, abarca uma rede inextrincável de relações humanas.

Os fios invisíveis que costuram essa rede se cruzam e recruzam em todas as direções para formar o que se convencionou chamar de tecido social. E este último, por sua vez, une e reúne saberes e sabores que não se limitam, digamos, ao aqui e agora, mas se estendem contemporaneamente ao passado e ao futuro.

Em termos mais simples, no quesito liberdade, não estão em disputa somente nossos conterrâneos, nossos contemporâneos ou os membros de certa classe, categoria e conjunto de pessoas. A geração presente herdou de seus antepassados, e deverá legar às gerações vindouras, determinados critérios e valores inegociáveis.

Parece relativamente superficial a tarefa de fazer, desfazer e refazer um esboço de jardim. Mas os contornos de canteiros e ruelas geométricos, tortuosos e labirínticos, requerem não pouca engenhosidade.

O traçado exige, por um lado, que se conheça a fertilidade do terreno e, por outro, a qualidade e adaptabilidade das plantas. O desenho, em última instância, deve obedecer às características biológicas do lugar, do ambiente e do solo em que se pisa.

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Com semelhantes precauções, logo se verá que a beleza do jardim reflete não apenas os gostos, aptidões e habilidades do jardineiro, mas de modo particular uma série de conhecimentos sobre a realidade local, associada às conveniências do tempo e da história. Não será diferente o cenário fértil e complexo da liberdade, num mundo cada vez mais multiétnico e pluricultural.

A atitude de liberdade, quando enraizada no solo vívido e concreto de um povo, nação ou qualquer tipo de agrupamento humano, significa, antes de tudo, libertar-se dos instintos primários que brotam de regiões por vezes selvagens e desconhecidas do coração. Em seguida, através do encontro e do diálogo, trata-se de ver o que convém ao maior bem do maior número de pessoas.

Liberdade de, no primeiro caso, ou seja, desimpedir o caminho egoísta e demasiado estreito dos interesses particulares e/ou individualizados. 
Liberdade para, no segundo caso, quer dizer, terraplenar o terreno para a construção do edifício coletivo, onde conta não o que se quer, e sim o que contribui para o bem-estar comum. 

Dessa maneira, supera-se paulatinamente o muro que divide o “nós e os nossos” do “eles e os outros”, abrindo-se ao mesmo tempo a perspectiva de erguer pontes de ligação: amigas, fraternas e solidárias.

Voltando ao sofisma de Kant, a liberdade construtiva nos inspira a dizer e fazer não o que bem se entende, e sim a assumir compromissos para uma tarefa conjunta de reconstrução.

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Os desejos obscuros e imediatos de uma liberdade destrutiva nos conduzem, por exemplo, aos becos sem saída da droga e do crime, da guerra e da violência, das assimetrias e desigualdades sociais, dos abusos de poder e da corrupção, da devastação do planeta Terra – tragédias sub-repticiamente anunciadas, mas ignoradas.

O paradoxo revela seu significado mais profundo: dizer e fazer o que se quer nada tem a ver com a liberdade, mas equivale a ser escravo dos ditames nem sempre conscientes e sensatos de nossos impulsos, por mais disparatados e estapafúrdios que eles sejam. O conceito de liberdade ou livre-arbítrio, ao contrário, pressupõe uma análise cuidadosa dos prós e contras de cada ação, no sentido de discernir e distinguir o que destrói e o que pode construir.

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Sentimentos, emoções e desejos, em geral inconscientes e incontroláveis, passam pelo crivo de uma razão atenta e alerta ao bem-estar da pessoa e da coletividade, em vista da justiça e da paz. Como se pode notar, o dever para com a sociedade nem sempre coincide com o motor que move os desejos secretos, o que, desde o ponto de vista ético e moral, nos leva a optar não pelo que se quer, mas pelo que é imperativo, urgente e necessário.


Pe. Alfredo J. Gonçalves,cs, é sacerdote da Congregação dos Missionários de São Carlos (scalabrinianos), cujo carisma é atuar com migrantes e refugiados. Durante 5 anos, foi assessor do Setor Pastoral Social da CNBB, depois Superior Provincial e Vigário Geral na Congregação supracitada. Hoje, exerce a função de vice-presidente do Serviço Pastoral dos Migrantes (SPM). Recentemente lançou o livro Retratos da Metrópole, organizado pela Missão Paz.

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