Foto: Juliene Barros
Todo texto bíblico adquire uma expressão particular quando atravessa o ambão. As palavras escritas recebem a voz de quem proclama, encontram o silêncio da assembleia e provocam uma resposta feita de escuta, canto, oração e gestos. Na liturgia, a Escritura torna-se acontecimento. Deus dirige sua Palavra a um povo reunido em um tempo e lugar concretos.
A Constituição Sacrosanctum Concilium afirma que Cristo “está presente na sua palavra, pois é Ele que fala ao ser lida na Igreja a Sagrada Escritura” (SC 7).
A proclamação litúrgica envolve, portanto, uma presença e um diálogo: Cristo fala; a assembleia escuta e responde. Por isso, o Concílio Vaticano II reconhece que “é enorme a importância das Sagradas Escrituras na celebração da Liturgia” (SC 24). Dela procedem as leituras, os salmos, as preces e os hinos. Também os gestos e os sinais encontram nela sua capacidade de significação.
O Livro de Daniel, escolhido pela Igreja no Brasil para o Mês da Bíblia de 2026, permite perceber a força dessa proclamação, já que suas narrativas, orações e visões nasceram entre comunidades que atravessavam perseguições, pressões culturais e tentativas de apagamento de sua identidade.
Daniel e seus companheiros viveram sob o domínio de impérios que desejavam controlar seus nomes, sua alimentação, sua oração e sua consciência. Quando essas páginas são proclamadas na liturgia, a assembleia reconhece nelas os próprios conflitos e escuta novamente o anúncio de que a história permanece nas mãos de Deus.

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Entre as imagens mais expressivas do livro está a fornalha ardente: os três jovens recusam-se a adorar a estátua erguida pelo rei e são lançados ao fogo. É dentro da fornalha que nasce um cântico. Azarias reconhece a aflição do povo e confia na misericórdia divina. Em seguida, toda a criação é convocada ao louvor: sol e lua, chuvas e ventos, noites e dias, montanhas, mares, animais e seres humanos (Dn 3,52-90). A liturgia acolheu esse cântico em sua oração cotidiana.
Na Liturgia das Horas, ele acompanha as Laudes dominicais e coloca a criação inteira na voz da comunidade orante. O fogo continua aceso, o império conserva sua aparência de força e os jovens cantam. Seu canto proclama que a violência do rei possui limites e a fidelidade de Deus alcança aqueles que resistem.
Outras páginas de Daniel aparecem em momentos significativos do ano litúrgico. Durante a Quaresma, a história de Susana (Dn 13) apresenta uma mulher vítima de assédio, abuso de autoridade, falsa acusação e julgamento injusto.
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Próximo ao encerramento do ano litúrgico, a visão de Daniel anuncia que os que dormem no pó da terra despertarão (Dn 12,1-3). Na solenidade de Cristo Rei do Ano B, a figura semelhante a um filho de homem recebe poder, glória e um reino eterno (Dn 7,13-14).
O Lecionário insere essas passagens no caminho celebrativo da comunidade. Cada texto encontra um tempo, dialoga com outras leituras e participa da pedagogia do ano litúrgico. A resistência dos jovens, a inocência de Susana, o julgamento dos impérios e a esperança da ressurreição são acolhidos à luz do mistério pascal de Cristo.
O Papa Bento XVI recordava que a liturgia constitui “o âmbito privilegiado onde Deus nos fala no momento presente da nossa vida” (Verbum Domini, 52).
Uma palavra nascida em tempos de perseguição chega a pessoas que também carregam medos, lutas e esperanças. Pela ação do Espírito Santo, ela se torna viva no coração de cada pessoa e fortalece a unidade da assembleia.
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O Papa Francisco desenvolve essa dimensão comunitária ao afirmar que a Bíblia pertence “ao povo convocado para a escutar e se reconhecer nesta Palavra”. A escuta reúne aqueles que se encontravam dispersos, pois “a Palavra de Deus une os crentes e faz deles um só povo” (Aperuit illis, 4). Na assembleia litúrgica, as experiências narradas em Daniel tornam-se memória compartilhada, oração comum e fonte de discernimento para a vida.
Essa escuta exige cuidado. O leitor oferece seu corpo e sua voz para que o texto alcance a comunidade. O salmista transforma a resposta em canto.
A homilia ajuda a reconhecer os vínculos entre a Escritura, o mistério celebrado e a vida. O silêncio permite que a Palavra encontre morada. Cada ministério participa dessa ação comum, pois “na Liturgia Deus fala ao seu povo, e Cristo continua a anunciar o Evangelho” (SC 33).
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Ao celebrar o Mês da Bíblia, as comunidades são convidadas a reencontrar Daniel no lugar para o qual suas palavras também se dirigem: a assembleia reunida. Ali, a antiga narrativa volta a respirar. Em meio às fornalhas de cada tempo, a Palavra sustenta a fidelidade, educa a consciência e faz nascer o canto. Enquanto os impérios passam, a assembleia proclama e celebra a esperança de um Reino que jamais será destruído.
Referências
BENTO XVI. Exortação apostólica pós-sinodal Verbum Domini: sobre a Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja. Vaticano, 30 set. 2010. Disponível em: Verbum Domini: Exortação Apostólica Pós-Sinodal sobre a Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja (30 de setembro de 2010) Acesso em: 14 set. 2026.
A BÍBLIA. São Paulo: Paulinas, 2023. 1984 p
CONCÍLIO VATICANO II. Constituição Sacrosanctum Concilium: sobre a sagrada liturgia. Vaticano, 4 dez. 1963. Disponível em: https://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19631204_sacrosanctum-concilium_po.html Acesso em: 15 set. 2026.
FRANCISCO. Carta apostólica sob forma de motu proprio Aperuit illis, pela qual se institui o Domingo da Palavra de Deus. Vaticano, 30 set. 2019. Disponível em: Carta Apostólica sob forma de Motu Proprio Aperuit illis pela qual se institui o Domingo da Palavra de Deus (30 de setembro de 2019) Acesso em: 14 set. 2026.
Karoline Menezes é teóloga, doutoranda em Ciências da Religião da Universidade Católica de Pernambuco. Integrante do Instituto Humanitas UNICAP. E-mail: [email protected]
