A recente decisão judicial que concedeu perdão a Monique Medeiros, mãe de Henry Borel, reacendeu um debate fundamental para a sociedade: o que significa perdoar? E, sobretudo, o que não significa?

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Vivemos em uma cultura que frequentemente confunde perdão com esquecimento. A palavra "anistia" possui uma origem reveladora. Ela deriva do grego amnestia, da mesma raiz de "amnésia". Historicamente, significava a suspensão da lembrança de determinados atos para possibilitar a reconstrução da vida coletiva.
O problema surge quando essa lógica é aplicada indiscriminadamente às experiências de sofrimento humano. Nem toda anistia produz reconciliação. Algumas produzem apenas silêncio.

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O perdão autêntico não nasce da amnésia. Nasce da memória.
Paul Ricoeur insistiu que a memória é uma forma de justiça para com aqueles que sofreram. Recordar não significa permanecer aprisionado ao passado, mas reconhecer que algo aconteceu, que uma ferida foi aberta, que uma vida foi marcada.
O esquecimento imposto ou prematuro pode transformar-se em uma segunda violência. Não cura a dor; apenas a empurra para regiões mais profundas da alma individual e coletiva.

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Toda sociedade precisa desenvolver espaços de elaboração do sofrimento. A psicologia chama isso de catarse; a psicanálise fala em elaboração; a tradição religiosa conhece esse movimento como lamento, confissão e reconhecimento da verdade. Em todos os casos, existe um elemento comum: a dor precisa ser narrada para não se transformar em ressentimento ou repetição.
Quando a memória é interrompida antes de completar esse percurso, corre-se o risco de banalizar o mal. A filósofa Hannah Arendt alertava que a banalidade do mal surge precisamente quando deixamos de refletir sobre as consequências dos atos humanos.
O esquecimento social pode produzir essa banalização. Aquilo que deveria provocar reflexão transforma-se apenas em mais uma notícia esquecida pelo fluxo incessante das redes sociais.

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O perdão, ao contrário, exige maturidade moral. Ele não apaga os fatos. Não reescreve a história. Não elimina a responsabilidade. O perdão verdadeiro é capaz de olhar diretamente para a ferida e dizer: "isso aconteceu". Somente depois dessa verdade reconhecida é possível falar em reconstrução.
Por isso, decisões judiciais envolvendo sofrimento humano profundo sempre carregam uma dimensão simbólica que ultrapassa os tribunais. Elas comunicam valores. Elas educam a memória coletiva. Elas moldam a maneira como uma sociedade compreende culpa, responsabilidade e reparação.
Não se trata de negar a importância da misericórdia. A tradição cristã jamais confundiu misericórdia com negação da verdade. Ao contrário, a misericórdia só possui sentido porque existe algo real a ser perdoado.

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O Evangelho não elimina a memória da cruz; transforma-a. A ressurreição não apaga as chagas de Cristo. As chagas permanecem, mas recebem um novo significado.
Talvez esse seja um dos maiores desafios do nosso tempo. Aprender a construir uma cultura da reconciliação sem sacrificar a memória. Aprender a perdoar sem absolver a verdade. Aprender a seguir adiante sem fingir que nada aconteceu.
O perdão não é amnésia moral. É a difícil arte de recordar sem permanecer prisioneiro da lembrança. Quando a memória desaparece cedo demais, o que resta não é reconciliação. É apenas esquecimento.
E o esquecimento, muitas vezes, prepara o terreno para que as mesmas feridas retornem sob novas formas.
René Dentz é psicanalista, pós-doc pela Freiburg Universität, na Suíça, professor de Filosofia da PUC-Minas, autor finalista do Jabuti Acadêmico 2025 com o livro “Perdão: diálogos entre a filosofia e a teologia” (Paulinas Editora), comentarista da Rádio Itatiaia (BH) e pai da Sofia e da Beatriz.
