
A Igreja caminha sustentada pela oração. É nela que se unem as alegrias e dores do mundo, os desafios do presente e a esperança que nos move. A cada mês, o Papa convida os fiéis a assumirem essa missão comum por meio de suas intenções de oração, que nos ajudam a alargar o coração e a olhar a realidade com misericórdia.
Em abril, esse convite se torna ainda mais sensível: rezamos pelos sacerdotes em crise. Homens que, chamados a servir, também enfrentam cansaços, dúvidas e fragilidades e que, por isso mesmo, necessitam ser lembrados, acolhidos e sustentados pela oração do povo de Deus.
Neste mesmo mês, no dia 27, celebramos o Dia do Sacerdote. Mais do que uma data comemorativa, é um tempo oportuno para nos aproximarmos do mistério dessa vocação: um chamado que se constrói no silêncio, na entrega cotidiana e na fidelidade, muitas vezes escondida, de quem escolheu doar a própria vida.
Como forma de homenagear a data e lançar luz sobre o sentido dessa vocação, reunimos o depoimento de oito sacerdotes que, a partir de suas experiências, respondem a uma pergunta simples e ao mesmo tempo profunda: o que é ser padre? Suas palavras revelam rostos, histórias e percepções que ajudam a compreender, com mais verdade e humanidade, a grandeza e os desafios do ministério sacerdotal hoje.
Que este percurso seja também um convite à oração. Que, ao conhecer essas vozes, possamos renovar nosso olhar sobre aqueles que caminham à frente do povo, e aprender, como Igreja, a cuidar de quem cuida.
Vozes do sacerdócio

“Já completei 50 anos de ministério, sou natural de Franca (SP) e tive toda a minha formação com os missionários Claretianos (Congregação dos Missionários Filhos do Imaculado Coração de Maria). Há 15 anos faço parte do clero da arquidiocese de São Paulo.
50 anos de vida sacerdotal constitui um itinerário de alegria ao mesmo tempo de muitas realizações e tristezas, mas as alegrias são maiores. O sacerdote é aquele homem chamado por Deus para esse ministério de identificação com o que chama, não obstante as imperfeições, a própria fragilidade e o pecado. Ser padre é identificar-se com Jesus. E o que fez Jesus? Primeiro ensinou o Evangelho com a finalidade de salvar o mundo. A salvação nos foi dada por um ato de muita coragem, de muitíssimo amor. Faço da minha vida uma entrega consciente e toda entrega para o bem constitui uma dimensão do mistério da cruz.
Quando fui ordenado escolhi como lema “servir ao senhor com alegria” que é do Salmo 99. Procuro a cada dia servir a Deus na alegria, na simplicidade, na perseverança, na constância. Deixo a todos a benção de Deus todo poderoso”.
Cônego Helmo Cesar Faccioli, Auxiliar do Cura da Catedral Metropolitana de São Paulo.
Frei Luiz Sebastião Turra tem 55 anos de vida sacerdotal: “Aqui estou para servir”.
Frei Luiz Sebastião Turra pertence à Ordem dos Frades Menores Capuchinhos, é assessor de Música Litúrgica e Vigário Paroquial na Paróquia Imaculada Conceição em Caxias do Sul (RS).

“Ser padre, para mim, é ser discípulo de Jesus: viver constantemente no seu seguimento, escutando a sua voz e deixando-me conduzir por sua Palavra. É uma experiência diária de encontro com o Senhor, que chama, envia e sustenta a caminhada.
É também ser servidor da comunidade, procurando fazer-me presença na vida de cada pessoa, nas alegrias e nas dores, nas conquistas e nos desafios do cotidiano. O ministério presbiteral encontra seu sentido mais profundo no serviço, na escuta e na proximidade com o povo de Deus.
Ser padre é, ainda, ser construtor de pontes, promovendo comunhão, fraternidade e reconciliação entre as pessoas. Em um tempo marcado por tantas divisões, sinto que nossa missão é favorecer encontros, aproximar corações e cultivar a unidade.
O padre que procuro ser, apesar das minhas fragilidades, é aquele que acredita profundamente em uma Igreja que é Casa e Escola de Comunhão: uma Igreja acolhedora, fraterna e sinodal, onde todos se sintam pertencentes, amados e chamados a caminhar juntos no seguimento de Jesus”.
Padre Luis Fernando da Silva, Presbítero da Diocese de São João da Boa Vista (SP), Secretário Executivo do Regional Sul-1 da CNBB.

“O sacerdócio é um dom e um chamado divino, cuja resposta humana se expressa no serviço amoroso ao povo de Deus. A autoridade se justifica pelo serviço — como nos ensinou Jesus no Lava-pés. Como recorda o Papa Francisco, o sacerdote é chamado a ser um pastor com “cheiro de ovelhas”, próximo de Deus, do bispo, dos irmãos presbíteros e, sobretudo, da comunidade.
O padre é ungido para uma missão e, por excelência, um missionário. Um de seus grandes desafios é organizar comunidades, como fazia São Paulo. Há uma alegria profunda em celebrar os sacramentos em comunidades vivas e fortalecidas.
Logo no início da Evangelii Gaudium, o Papa Francisco afirma: “A alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus”. E isso é essencial: ninguém evangeliza de verdade sem alegria. A evangelização acontece também por contágio — uma vida que encontrou Jesus irradia.
Quando o padre vive assim, a comunidade sente: a paróquia ganha vida, a Igreja se torna missionária quase sem perceber. A alegria abre portas que a obrigação não abre.
O padre é um homem de missão: visita, celebra, escuta, perdoa, orienta, recomeça a cada dia. Sua vida é repartida. E, quando vivida com fidelidade e alegria, faz nascer comunidades mais vivas, missionárias e cheias de esperança. Que Deus abençoe os padres da nossa Igreja!”.
Dom José Mário Scalon Angonese, arcebispo metropolitano de Cascavel (PR).
Padre Zezinho responde à pergunta: “O que é ser padre para você?”.
José Fernandes de Oliveira, o Pe. Zezinho, scj, possui mais de 50 anos de evangelização, é compositor, cantor, escritor, pregador, comunicador e descobridor de talentos.

“Ser padre é um desafio. Isso porque uma vocação assim é, por um lado, tremenda e fascinante, mas, por outro, cheia de surpresas. Eu quero ser padre desde criança. Digo “quero” porque é um “sim” diário: um cultivo, uma presença, um sonho que se fez real na minha vida há 21 anos.
Naquele tempo, um coroinha olhava seu pároco — Monsenhor Estanislau Polakowski — levantar a hóstia e o cálice, e queria fazer o mesmo. Hoje, com 92 anos, ele sabe que me desafiou quando eu tinha 10 anos. Certa vez, estando doente, me disse: “Vou morrer, alguém tem que ficar no meu lugar. Você quer ficar no meu lugar?” Eu, que já pensava em ser padre, passei aquela noite refletindo: “Eu preciso ficar no lugar dele!”. Aquela pergunta, há 35 anos, foi um verdadeiro desafio vocacional.
Agora, os desafios são outros, diferentes dos que já passei e dos que ainda podem vir. Atualmente, sou doutorando em Direito Canônico, estudando em Roma. Já fui vigário paroquial, reitor de seminário menor e maior, professor, formador, diretor de escola, juiz eclesiástico, entre outras funções.
Contudo, os desafios continuam, e o maior deles, a meu ver, é buscar fazer a vontade de Deus, corresponder ao chamado, como Jesus que disse: “Ó Pai, não se faça a minha vontade, mas a tua!” (Lc 22,42). Conto com as orações do povo de Deus para que eu possa ser um presbítero segundo o coração de Jesus Cristo. Eis o desafio vocacional!”.
Padre Fabiano Dias Pinto, Doutorando em Direito Canônico na Pontifícia Universidade Santa Cruz em Roma e Monsenhor Estanislau Polakowski, pároco emérito e vigário paroquial do Santuário Nossa Senhora de Fátima em Curitiba (PR).

“’Vem e segue-me’ (Mt 19,21). O chamado de Cristo, que ressoa no coração de tantos que desejam viver a santidade — cada qual a seu modo, como recorda a Lumen Gentium — também ecoou em mim desde a infância. No meu caso, sempre ligado ao sacerdócio.
A vida sacerdotal sempre me encantou. No testemunho dos padres com quem convivi antes do seminário, via uma alegria viva e cheia de sentido: homens que, agindo in persona Christi, visitavam os doentes, celebravam a missa, atendiam confissões e acompanhavam o povo de Deus.
Foi essa alegria que me levou a dizer “sim”. Em 2017, ingressei no seminário da Arquidiocese de São Paulo; em 2024, fui ordenado diácono; e, em 2025, padre. Com o tempo — e sobretudo no exercício do ministério — compreendi que esse chamado é ainda mais profundo: o padre participa da própria missão de Cristo, levando adiante o seu Reino (cf. Mt 28,19-20). Ser padre é ser discípulo, seguir seus passos e fazer “tudo o que Ele nos disser” (Jo 2,5).
Mas não se trata apenas de imitá-lo. O sacerdócio realiza no ministro uma verdadeira transformação: o padre não é padre por si mesmo, mas em Cristo. É Cristo quem age nele. Por isso, ser padre é tornar Cristo presente em todos os momentos e junto a todas as pessoas. Ele é mestre, pastor, irmão, servo, missionário e filho, chamado a ensinar, cuidar, acompanhar, servir e levar Deus a todos.
Responder a esse chamado é um compromisso diário, firme e corajoso, que santifica e se deixa santificar. Uma entrega em que, pouco a pouco, já não aparece o padre, mas o próprio Cristo, que vive nele (cf. Gl 2,20).
Padre Vitor F. Battisti Petris, Vigário paroquial na Paróquia Cristo Rei (SP), Assistente Eclesiástico para a Pastoral da Liturgia na região Lapa.
Padre Elismael Silva Ferreira afirma: “Sempre tive o desejo de servir à Deus”.
Padre Elismael Silva Ferreira, Pároco da paróquia de São Sebastião em Apuí (AM).
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