
Foto: Magnific
Nos dias em que a solidão pesa, a saudade transborda e as lembranças ganham detalhes vivos, pego-me em um diálogo silencioso com o tempo.
Por que não valorizei mais? Por que não me demorei em suas histórias prolixas, não me sentei ao seu lado para apenas saborear a sua presença, sentir o seu cheiro ou compartilhar mais uma cuia de chimarrão? Por que não contemplei com mais atenção a sua inteligência, o seu altruísmo e a generosidade que transbordava de tantos gestos de amor ao próximo?

Foto: Magnific
Acumulam-se os “porquês”. O ditado popular insiste que só damos valor quando perdemos, mas esta dor da saudade não nasce de um sentimento de culpa, mas sim do quanto ele marcou a minha trajetória de vida.
Nasce do desejo genuíno de parar o relógio. Quando um pai já não está entre nós, a alma não pede grandezas: daríamos o mundo apenas por mais um instante, uma conversa sem pressa, um olhar mais demorado para ele, observando com precisão os detalhes do seu rosto e a graça de mais um abraço.
O valor de um abraço que hoje só vive na lembrança
Lembro-me como se fosse hoje dos seus abraços contidos, quase tímidos, a cada despedida ao fim das férias. Era a marca silenciosa de quem a vida não ensinou a afagar — uma reserva herdada de uma infância em que os abraços também deveriam ser raros.
Mas o tempo, em sua sabedoria, foi abrandando os gestos. Aos poucos, a timidez deu lugar ao entrelaçar firme, até se transformar naquele abraço de urso, pleno e protetor.

Irmã Viviani e seu pai, Olívio. Foto: Arquivo pessoal
Minha fotografia favorita de nós dois eterniza justamente essa transição: estamos lado a lado, corpo a corpo, com o braço dele cruzando meus ombros como um escudo.
Diante dessa imagem, a saudade ganha contornos de gratidão. Percebo, finalmente, que aquele instante trazia em si algo de divino — e que o silêncio da ausência física nada mais é do que o reflexo do tamanho do amor que permaneceu.
25 anos de convivência e um legado de amor
Foram vinte e cinco anos de alegria ao conviver com ele — um verdadeiro presente que Deus me deu. Aprendi tantas coisas; outras, nem tenho consciência de que já estão intrínsecas em mim: seu jeito de ser, sua perspicácia, sua intuição, sua inteligência, sua sabedoria de vida e sua entrega aos outros.

Foto: Magnific
Sua passagem pelo mundo foi rápida. Às vezes, me pego questionando a Deus, pensando que Ele poderia tê-lo deixado mais tempo conosco. Mas reconheço que é um egoísmo meu: uma pessoa tão boa já estava pronta para encontrar o Criador.
Tenho certeza disso! Sua alma estava preparada, pois viveu passando e fazendo o bem. Nunca enganou ninguém e sempre esteve disposto a estender a mão a quem precisasse.
Foram Bodas de Prata de convivência ao lado do meu querido pai. Como ele gostava de contar histórias e dominar os assuntos! Era genioso também — como todo Moura, risos —, mas suas qualidades ultrapassavam de longe qualquer fragilidade humana.
O que aprendi com toda essa ausência é que ele permanece em mim. Toda vez que escrevo e traduzo em palavras o que vivo e sinto, ele se faz vivo. Afinal, o amor pelas palavras, eu herdei dele. E, a escrita passou a ser o próprio "chimarrão" compartilhado com ele.

Foto: Magnific
Já não tenho o abraço físico do meu pai, mas sinto sua presença espiritual todas as manhãs ao me levantar e nos momentos de dificuldade. É aquele abraço de urso, protetor, que continua sendo meu escudo contra todo o mal.
Neste Dia dos Pais, digo a ele: “Aí de cima, onde estás, bem perto de Deus, sinta o meu abraço. Sou eternamente grata por tudo!”
E você, qual é a lembrança mais marcante do seu pai? Deixe seu comentário abaixo.
A autora, Irmã Viviani Moura, pertence à Congregação das Irmãs Paulinas. É jornalista por formação e aprendeu com o pai o amor pelas palavras e o jeito de encarar o mundo. Há 13 anos, vive a cada Dia dos Pais o resgate dessa memória, traduzindo em palavras o imenso amor por quem a amou infinitamente.
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