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O que Nossa Senhora das Dores ensina a quem sofre?

Celebrada no dia seguinte à Exaltação da Santa Cruz, a memória litúrgica de Nossa Senhora ensina que, diante de sofrimentos inevitáveis, a fé nos convida a permanecer no amor e na esperança


Mater Dolorosa por Bartolomé Esteban Murillo. Foto: Stanislav Traykov


Algo inerente à experiência humana é o sofrimento. Há situações em que conseguimos encontrar uma solução, pedir ajuda, tomar uma decisão e seguir adiante.

Mas também existem momentos em que não há nada que possamos fazer para mudar imediatamente aquilo que está diante de nós. Uma doença, a perda de alguém querido, uma separação, uma injustiça, o sofrimento de um filho, uma espera que parece não ter fim. Nesses momentos, uma das perguntas que mais inquietam é: como permanecer de pé quando a vida parece nos derrubar?

A Igreja nos oferece uma resposta olhando para Maria.

A proximidade entre a Festa da Exaltação da Santa Cruz, celebrada em 14 de setembro, e a memória de Nossa Senhora das Dores, no dia seguinte, não é uma simples coincidência no calendário. As duas celebrações estão profundamente ligadas. Primeiro, a Igreja contempla a Cruz de Cristo; depois, contempla a Mãe junto à Cruz, mistério retratado na canção Mater Dolorosa de Pe. Zezinho, scj.


 

Em 2006, Bento XVI chamou atenção justamente para essa relação, afirmando que as duas celebrações podem ser sintetizadas na imagem tradicional da Crucificação, com Maria aos pés de Jesus. Essa imagem expressa justamente uma das respostas mais profundas para quem sofre.

A Cruz que revela o amor

À primeira vista, pode parecer estranho falar em “exaltação” de um instrumento de tortura e morte. A própria pregação cristã nasceu diante desse escândalo. São Paulo escreve aos Coríntios: “Nós anunciamos Cristo crucificado” (1Cor 1,23).

A Cruz, porém, não é exaltada por ser instrumento de sofrimento. Ela é exaltada por causa de Cristo, que nela se entregou por amor.

Bento XVI explicou que os cristãos não veneram uma cruz qualquer, mas aquela que Jesus santificou com seu sacrifício. Por isso, aquilo que era sinal de morte tornou-se, em Cristo, sinal do amor que gera vida e vence o ódio e a violência.

A Cruz, portanto, não nos ensina a procurar o sofrimento. Contudo, revela que o sofrimento não precisa ter a última palavra.
A fé cristã não diz que devemos desejar a dor ou aceitar passivamente toda forma de sofrimento. Ela anuncia que, quando a dor forçosamente entra na nossa história, podemos atravessá-la unidos a Cristo, confiando que Deus é capaz de fazer nascer vida mesmo em meio àquilo que parece apenas perda.

Pietà por Michelangelo (Basílica de São Pedro, Vaticano - Itália)

Maria estava de pé junto à Cruz

O Evangelho de São João narra: “Junto à cruz de Jesus estavam de pé sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria de Cléofas, e Maria Madalena” (Jo 19,25).

Uma expressão merece atenção: de pé.

Maria não está distante. Não foge. Não abandona o Filho no momento mais difícil. Ela está ali.

Isso não significa que não esteja sofrendo. Pelo contrário. Sua dor é imensa. Ela vê o Filho Amado sendo humilhado, ferido e morto. Não pode retirar Jesus daquela situação. Não pode impedir a violência.

Bento XVI descreveu a dor de Maria no Calvário como uma dor “cheia de fé e de amor”. Para ele, a Virgem participa do sofrimento do Filho, unindo o seu “sim” ao “sim” de Jesus.

É uma imagem profundamente consoladora para quem sofre: nem sempre a fé significa encontrar imediatamente uma explicação para a dor. Às vezes, significa permanecer junto de Deus enquanto ainda não conseguimos compreender.

A espada que atravessou o coração de uma mãe

A dor de Maria não começou no Calvário. Quando Jesus ainda era criança, o velho Simeão havia anunciado a Maria: “E a ti, uma espada traspassará tua alma” (Lc 2,35). A profecia fazia parte de um caminho que ela ainda precisaria percorrer, tema abordado na música As Sete Dores de Maria de Padre Agnaldo José.

Na adolescência de seu filho, Maria e José ficaram sem o menino por três dias: “Seus pais iam todos os anos a Jerusalém para a festa da Páscoa. Tendo ele atingido doze anos, subiram a Jerusalém, segundo o costume da festa. Acabados os dias da festa, quando voltavam, ficou o menino Jesus em Jerusalém, sem que os seus pais o percebessem” (Lc 2,41-43).

Sabemos o que Jesus fizera: em vez de voltar para casa com os seus, ficou em Jerusalém no Templo, causando uma preocupação a Maria e a José. Jesus estava entre os doutores da lei e, ao encontrar o filho, Maria disse: “Meu filho, que nos fizeste?! Eis que teu pai e eu andávamos à tua procura, cheios de aflição” (Lc 2,48). E Jesus respondeu: “Por que me procuráveis? Não sabíeis que devo ocupar-me das coisas de meu Pai?” (Lc 2,49).

Anos mais tarde, no Calvário — momento contemplado na canção Maria da Paixão, do Coro Edipaul —, aquela espada parece alcançar o coração da Mãe em toda a sua profundidade.

São João Paulo II, na carta apostólica Salvifici Doloris, recorda que Maria esteve presente de maneira singular junto à Cruz e que, em sua vida, os sofrimentos se sucederam, mostrando a firmeza de sua fé. Ele chama atenção especialmente para o seu “estar” aos pés da Cruz e apresenta Maria como testemunha e participante da paixão de Cristo.

Por isso, Nossa Senhora das Dores não é uma imagem distante de alguém que simplesmente “sofreu muito”. Ela é uma mãe que conhece a dor por dentro.

Quando não podemos mudar a situação, podemos permanecer no amor

Existem pessoas que passam grande parte da vida tentando cuidar de todos. Quando alguém amado sofre, querem encontrar uma solução, retirar a dor, consertar aquilo que está quebrado. Mas chega um momento em que percebem que não conseguem.

E então surge uma pergunta dolorosa: “O que posso fazer?”

Maria nos mostra que, em algumas circunstâncias, a resposta pode ser simplesmente: permanecer. Essa presença ao lado de quem sofre lembra a mensagem da canção Coração de Mãe, interpretada por Mariani e Aline Whirley.

Permanecer ao lado de quem sofre. Permanecer em oração, no amor. Permanecer junto de Cristo. Isso não é pouco.

Às vezes, o maior gesto de amor é segurar uma mão, acompanhar alguém a uma consulta. Sentar-se ao lado de uma cama. Ouvir sem ter respostas. Rezar quando todas as palavras parecem insuficientes. É continuar amando quando não podemos mudar a realidade.

Maria não retira Jesus da Cruz, todavia não o abandona na Cruz. E isso pode falar profundamente ao coração de quem hoje acompanha alguém que sofre.

Além disso, no Calvário nasceu uma nova maternidade. Aos pés da Cruz, acontece ainda algo surpreendente. Jesus olha para Maria e diz: “Mulher, eis aí o teu filho”. Depois, ao discípulo amado: “Eis aí a tua mãe” (Jo 19,26-27), momento retratado na música Eis aí tua Mãe da banda Vida Reluz.

É no momento de maior dor que uma nova dimensão de Maria como mãe é revelada. Aquela que recebeu Jesus em seus braços em Belém agora permanece junto dele no Calvário. E, aos pés da Cruz, sua maternidade se abre de maneira espiritual para os discípulos de Cristo.

Um “sim” quando não entendemos tudo

Há uma continuidade entre o “sim” de Maria na Anunciação e sua presença junto à Cruz. No início, diante de uma missão que não compreendia completamente, Maria respondeu: “Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38).

No Calvário, aquele “sim” continua. Não é um “sim” à dor pela dor. É um “sim” à confiança em Deus, mesmo quando o caminho passa por uma realidade que ela não consegue compreender.

Essa confiança não significa deixar de chorar. Maria chorou. Não significa fingir que está tudo bem. A Cruz estava diante dela. Significa não permitir que a dor nos convença de que Deus deixou de estar presente.

A dor não é o fim da história

Há uma última coisa que Nossa Senhora das Dores ensina: a Cruz não é o capítulo final. Maria fica junto ao Filho na Sexta-feira Santa, mas a história não termina ali. Aquele que morreu ressuscita.

É por isso que a esperança cristã não é um “pensamento positivo” diante do sofrimento. Ela nasce de um acontecimento: Cristo venceu a morte.

E, assim, temos uma das maiores lições de Nossa Senhora das Dores: não precisamos compreender tudo para confiar. Não precisamos deixar de sofrer para continuar amando. Não precisamos estar fortes o tempo todo para permanecer junto de Deus.

Podemos chorar aos pés da Cruz, dizer que está difícil, e pedir ajuda e rezar. 

Nossa Senhora das Dores acompanha todos aqueles que hoje carregam uma cruz. Ensina-nos a permanecer junto de Jesus quando não entendemos o caminho e a confiar que o amor de Deus é mais forte do que toda dor.

Aprofunde sua oração ouvindo também a playlist Sucessos Marianos nas plataformas digitais.

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