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Para entender a espiritualidade de Maria ao pé da cruz, temos que abrir a Palavra onde tudo começou. Partir dos inícios. Daí podemos entender a espiritualidade mariana seguindo o caminho percorrido por Maria.
Encontro com a Palavra
Lucas, no primeiro capítulo do Evangelho, mostra os efeitos do poder transformador da Palavra de Deus. Esta chega não apenas aos átrios do Templo, mas também à pobre morada da jovem Maria, como dizia o Papa Francisco, na audiência de 22 de janeiro de 2025.
Gabriel, força de Deus, é enviado a uma aldeia: Nazaré. Naquela época, era um pequeno povoado da Galileia, na periferia de Israel, área de fronteira com os pagãos e com as suas contaminações.
É precisamente aí que o anjo leva a mensagem com uma forma e um conteúdo totalmente sem precedentes, inacreditável, tanto que abala e perturba o coração de Maria.
Convite à alegria
Em vez da clássica saudação “a paz esteja contigo”, Gabriel dirige-se à Virgem Maria com o convite “Alegra-te! Rejubila!”. Esta expressão era utilizada pelos profetas quando anunciavam a vinda do Messias (cf. Sf 3,14; Zc 9, 9).

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É o convite à alegria que Deus dirige ao seu povo após o exílio. O Senhor faz sentir a sua presença viva e ativa, por isso, convida à alegria.
Um novo nome: “Cheia de graça”
Deus chama Maria com um nome de amor desconhecido na história bíblica: "cheia da graça divina". Maria está cheia desta graça. Este nome diz que o amor de Deus habitou desde há tempos e continua a habitar no coração de Maria. Diz como ela é “graciosa” e, sobretudo, como a graça de Deus realizou nela um aperfeiçoamento interior, tornando-a a sua obra-prima: cheia de graça! Assim acontece conosco quando vivemos em Deus.
Confiança: “não temas!”
Este novo nome, que Deus atribui a Maria, é imediatamente acompanhado por uma garantia: “Não temas!”, “Não temas!”
A presença do Senhor concede-nos sempre esta graça. Assim diz Deus a Abraão, a Isaac, a Moisés: “Não temas!” (cf. Gn 15, 1; 26, 24; Dt 31, 8). E diz também a nós: “Não temais, ide. Não temais!”
O bem-aventurado Pe. Tiago Alberione, ouviu de Deus e propôs como lema de toda a Família Paulina: “Não temais. Eu estou convosco.”
O "Todo-Poderoso", o Deus do "impossível" (Lc 1, 37) está com Maria, está ao seu e ao nosso lado. É o nosso companheiro, o nosso principal aliado, o eterno "Eu-contigo" (cf. Gn 28, 15; Ex 3, 12; Jz 6, 12).
Espiritualidade que abre a uma missão
Gabriel anuncia à Virgem a sua missão, fazendo ressoar no seu coração numerosas passagens bíblicas que se referem ao menino que deverá nascer dela e que cumprirá as antigas profecias. A Palavra que vem do Alto chama Maria a ser a mãe do Messias. O seu nome será “Jesus”, que significa “Deus salva” (cf. Lc 1, 31; Mt 1, 21), recordando a todos e para sempre que não é o homem que salva, mas só Deus.

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Esta maternidade abala Maria nos alicerces. E, como mulher inteligente que é, ou seja, capaz de ler no íntimo dos acontecimentos (cf. Lc 2, 19.51), procura compreender, discernir o que acontece.
Tal como no início da Criação (cf. Gn 1, 2), Deus quer cobrir Maria com o seu Espírito, quer envolvê-la na "nuvem" da sua presença (cf. 1Cor 10, 1-2), para que o Filho viva nela e ela nele.
Entrega confiante, abre espaço para Deus
Maria ilumina-se de confiança. Abandona-se, obedece, abre espaço para Deus. Empreende assim a maior missão jamais confiada a uma mulher, a uma criatura humana. Põe-se a serviço: não como escrava, mas como colaboradora de Deus Pai, cheia de dignidade e autoridade para administrar, como fará em Caná, os dons de Deus, a fim de que muitos possam usufruí-los em abundância.

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Assim, até o Calvário, até o pé da cruz, até a contemplação de seu Filho morto, em seus braços, no silêncio, no amor, na coerência com o seu primeiro “sim”.

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Aprendemos, desta forma, com Maria, Mãe do Salvador e nossa Mãe, Rainha dos Apóstolos, a abrir os ouvidos e o coração à Palavra de Deus, a acolhê-la, a cultivá-la, para que transforme o nosso coração em sacrário da sua presença, e em missão, transbordá-la em salvação para o mundo.
