Artigos
Artigos

O silêncio em um mundo hiperinformado: escutar para comunicar

Foto: Pexels

Silêncio. 

Escute. 

O que você está ouvindo exatamente agora, ao ler este texto?

Essa pergunta pode parecer estranha, mas quer chamar a atenção para o fato de que o ambiente digital hoje tende a preencher todos os espaços e instantes. Tudo parece exigir atenção constante e resposta imediata. 

Foto: Pexels

No entanto, sem silêncio não há comunicação.

O problema é que a vida contemporânea avança precisamente contra o silêncio. Somos bombardeados de informações desde que acordamos até a hora em que vamos dormir. As telas luminosas e os sons eletrônicos nos acompanham em praticamente todos os ambientes, dos mais íntimos aos mais públicos. Como afirmou o Papa Francisco, com as novidades tecnológicas contínuas, “tudo se enche de palavras, prazeres epidérmicos e rumores a uma velocidade cada vez maior” (Gaudete et exsultate, n. 29). 

Quando as mensagens e a informação são abundantes, “torna-se essencial o silêncio para discernir o que é importante daquilo que é inútil ou acessório”, afirmou Bento XVI em sua mensagem de 2012 sobre a comunicação. Sem silêncio, tudo adquire a mesma urgência, e perde-se a capacidade de distinguir entre as muitas coisas secundárias e “a melhor parte” (cf. Lc 10,38-42).

Foto: Pexels

Por isso, o Papa Leão XIV propõe “uma verdadeira higiene da atenção: ritmos que prevejam silêncio, estudo aprofundado, leitura, debate ponderado. Sem estes elementos, a liberdade interior pode ficar comprometida”, como escreveu em sua primeira encíclica publicada há poucos dias (Magnifica humanitas, n. 146). 

Silêncio e palavra são “dois momentos da comunicação que devem se equilibrar, alternar e integrar entre si para se obter um diálogo autêntico e uma união profunda entre as pessoas”, disse Bento XVI. Sem silêncio, a escuta não é possível; sem escuta, a comunicação se reduz a mera imposição de ideias. 

É somente quando nos calamos que a outra pessoa consegue se expressar, e esse silêncio também permite que não fiquemos presos às nossas próprias ideias.

Foto: Pexels

O silêncio é abertura e hospitalidade, pois cede espaço para a alteridade e a diversidade. Em tempos de comunicação marcada pela autoexposição e autoafirmação incessantes, o silêncio restitui à comunicação uma dimensão ética fundamental: reconhecer o outro em sua diferença. “Educar-se em comunicação quer dizer aprender a escutar, a contemplar, para além de falar; e isto é particularmente importante para os agentes da evangelização”, lembra Bento XVI. 

Para a comunicação cristã, o silêncio assume uma importância ainda maior, pois é ele que torna possível a primeira escuta fundamental: da própria Palavra viva de Deus. Todo discípulo-missionário precisa estar com o Mestre e escutá-lo. “Se não O escutarmos – diz Francisco – todas as nossas palavras serão apenas rumores que não servem para nada” (GE 150). Por isso, o papa questiona: “Tens momentos em que te colocas na Sua presença em silêncio, permaneces com Ele sem pressa, e te deixas olhar por Ele?” Em uma cultura da produtividade e da aceleração, permanecer diante de Deus sem pressa e “sem fazer nada” é um gesto transformador e revolucionário. 

Foto: Pexels

Mas o silêncio cristão não é (nem pode ser) fuga ou indiferença. Francisco é claro: “Não é saudável amar o silêncio e se esquivar do encontro com o outro” (GE 26). O silêncio não pode ser uma evasão da realidade. O verdadeiro silêncio não rompe a relação com o mundo, mas nos reorganiza e nos fortalece para ir a seu encontro com mais lucidez e liberdade interior. 

Em tempos de hiperinformação e de polarização radical, é preciso firmeza interior para não se deixar arrastar pela violência verbal e simbólica das redes digitais. Uma pessoa cristã, porém, não gasta suas energias se lamentando dos defeitos de seus irmãos e evita a agressividade que maltrata e destrói (cf. GE 116).

Foto: Pexels

Em muitos casos, o silêncio é um gesto profético e corajoso para construir aquela “paz desarmada e desarmante”, evocada por Leão XIV. Frente à busca incessante de visibilidade midiática, o Papa Leão lembra que a força do Reino de Deus é como um pequeno grão de mostarda (cf. Mc 4, 26-32): “Enquanto nos rodeia o ruído da confusão, o bem cresce silenciosamente da terra” (MH 210).

O silêncio, portanto, não é mera ausência de sons, mas pode se tornar escuta e contemplação de Deus e do outro, possibilitando a relação. Talvez a tarefa mais urgente do nosso tempo seja justamente reaprender o valor do silêncio, não para nos calarmos diante da realidade, mas para devolvermos à palavra sua capacidade de gerar encontro e paz.

 

Produtos Paulinas

Pedagogia do silêncio

E o verbo se fez rede

Recursos digitais aliados da Iniciação à Vida Cristã

O Silêncio de Maria

Se eu tivesse uma câmera digital...

Site Desenvolvido por
Agência UWEBS Criação de Sites