Família Cristã

Pai não chora ao deixar filhos na creche?

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Há frases que nascem para denunciar injustiças — e, muitas vezes, o fazem com razão —, mas que também correm o risco de instaurar outra violência: a de apagar o singular em nome da generalização.

Dizer que “nunca se viu um homem chorar ao deixar o filho na creche” aponta para uma realidade histórica: existe, sim, uma desigualdade na experiência do cuidado. No entanto, quando essa constatação se torna universal, ela deixa de iluminar e passa a obscurecer. O problema não está na crítica, mas em sua absolutização.

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A experiência humana não cabe em fórmulas. Há homens que choram — ainda que em silêncio. Há mulheres que não se reconhecem nas culpas que lhes foram atribuídas. Há sujeitos que escapam. Sempre escapam. Reduzir o humano a categorias fixas é substituir a crítica por um novo determinismo.

A psicanálise nos recorda que o sujeito não se esgota nas nomeações que recebe. Somos atravessados por histórias, desejos e faltas que não se deixam capturar por definições simplificadoras. A filosofia, por sua vez, amplia esse horizonte: o outro nunca se reduz ao que dizemos sobre ele; a vida humana é sempre mais do que nossas categorias.

Há também um alerta importante: a violência nem sempre nasce de intenções explícitas, mas pode surgir da ausência de reflexão. Quando repetimos discursos prontos, quando deixamos de escutar, quando aderimos sem pensar, corremos o risco de transformar a crítica em mais uma forma de exclusão.

Esse risco se intensifica no mundo contemporâneo. Ideias, quando se tornam ideologias fechadas, deixam de dialogar e passam a classificar. Em tempos de redes sociais e discursos segmentados, o pensamento pode se tornar produto: algo feito para adesão imediata, não para reflexão. Nesse contexto, até discursos que se pretendem críticos podem reproduzir aquilo que denunciam.

Por isso, a escuta se torna decisiva. Escutar é interromper o automatismo das certezas. É permitir que o outro apareça em sua singularidade, e não como representante de um grupo. É resistir à tentação de enquadrar antes de compreender.

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Nesse horizonte, o perdão surge como possibilidade. Não como obrigação moral ou esquecimento, mas como abertura. Uma abertura capaz de interromper a repetição da violência. Em um tempo marcado por acusações e identidades rígidas, o perdão não é ingenuidade — é gesto de liberdade.

Sim, é necessário criticar as estruturas que produzem desigualdade. Mas sem apagar o singular. Porque toda vez que dizemos “os homens são” ou “as mulheres são”, deixamos de ouvir alguém. E talvez, naquele pai silencioso à porta da creche, exista um choro que ainda não encontrou espaço para existir.


René Dentz é psicanalista, pós-doc pela Freiburg Universität, na Suíça, professor de Filosofia da PUC-Minas, autor finalista do Jabuti Acadêmico 2025 com o livro “Perdão: diálogos entre a filosofia e a teologia” (Paulinas Editora), comentarista da Rádio Itatiaia (BH) e pai da Sofia e da Beatriz. 

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