
Foto: Zuleica Silvano, fsp
O mês de abril deste ano é marcado pelo Tempo Pascal, no qual somos convocados(as) a experimentar a passagem da morte para a vida, ao fazermos memória da paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo.
A celebração da Páscoa, principal solenidade litúrgica da Igreja, tem suas raízes nas tradições judaicas (Ex 12), nos eventos fundantes do povo do Antigo Testamento, como a libertação da escravidão do Egito, a passagem do mar, a caminhada no deserto e a entrada definitiva na Terra Prometida.
Na tradição cristã, recordamos toda a vida de Jesus e sua coerência com o projeto do Pai. Esse projeto foi rejeitado por muitos; por isso, Jesus foi condenado à morte. Contudo, Deus lhe dá continuidade ao ressuscitar seu Filho.
Nessas “Dicas Bíblicas”, refletiremos sobre a estrutura literária do Livro de Daniel, tema escolhido para o Mês da Bíblia 2026. Deste modo, vamos nos preparar para celebrar a Palavra de Deus, encarnada em Jesus Crucificado-Ressuscitado, aprofundando um dos livros que mais influenciou a concepção de ressurreição dos mortos no Novo Testamento: Daniel (12,2).
Estrutura do livro de Daniel
O Livro de Daniel foi escrito em três línguas diferentes: hebraico (1,1‒2,4a; 8‒12), aramaico (2,4b‒7,28) e grego (3,24-90; 13‒14). É organizado em três partes: a) 1,1 ‒ 6,29: narrativas vividas por Daniel e seus companheiros na corte babilônica; b) 7,1 ‒ 12,13: visões que revelam o juízo de Deus na História; e c) 13 ‒ 14: apêndice com as histórias de Susana, de Bel e o Dragão. Alguns autores unem ao primeiro bloco o capítulo 7, e outros o consideram uma dobradiça, estando ligado tanto ao primeiro como ao segundo bloco.

Profeta Daniel, escultura do mestre Aleijadinho no Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, Congonhas do Campo. Imagem:Wikimedia Commons
O livro articula narrativas exemplares (Dn 1–6) e visões apocalípticas (7–12). Nos primeiros capítulos, encontram-se relatos paradigmáticos de fidelidade: o sonho de Nabucodonosor interpretado por Daniel (Dn 2); os três jovens na fornalha ardente (3); o cântico de Azarias; a loucura e posterior restauração de Nabucodonosor (Dn 4); o juízo contra Baltazar (5); e Daniel na cova dos leões (6).
Tais episódios apresentam modelos de resistência religiosa e cultural e fidelidade a Deus. Num contexto de imposição das práticas helenistas, a perseverança nas tradições judaicas torna-se gesto profético de esperança.
A segunda parte (7–12) assume linguagem simbólica e apocalíptica para interpretar a sucessão dos impérios ‒ babilônico, medo, persa e macedônio ‒ culminando na afirmação do Reino eterno de Deus. A visão das quatro feras (7) contrasta a brutalidade dos reinos humanos com a figura do “Filho do Homem”, que recebe domínio eterno do Altíssimo (7,13-14), imagem que influenciou profundamente a teologia do Novo Testamento.
Também se destaca a profecia das setenta semanas (9), releitura simbólica da história à luz da promessa profética de Jr 29,10-14, reafirmando que o sofrimento possui limite determinado pela fidelidade divina. As visões em Dn 8‒12 revisitam a história sob perspectiva teológica, evocando a expansão de Alexandre Magno, a divisão de seu império e a perseguição de Antíoco IV Epífanes.

Afresco pintado por Michelangelo e seus assistentes para a Capela Sistina, no Vaticano, entre 1508 e 1512. Imagem: Domínio Público
A obra encerra-se com os acréscimos deuterocanônicos ‒ Susana (13); Bel e o Dragão (14) ‒ que denunciam a corrupção dos juízes e dos líderes religiosos, reafirmando o compromisso divino com a justiça. Novamente, é narrado o relato de Daniel na cova dos leões, porém em outro contexto (Dn 14). É importante ressaltar o papel dos jovens no decorrer de todo o livro.
A fidelidade e a resistência de Daniel diante das perseguições revelam a esperança e a confiança de quem permanece firme no projeto de Deus mesmo em meio às ameaças de morte e ao sofrimento. Essa mesma atitude encontra sua plenitude em Jesus, que, fiel ao projeto do Pai até o fim, enfrentou a rejeição, a paixão e a morte.
Assim como Deus não abandonou Daniel em sua provação, também confirmou a fidelidade de Jesus ao ressuscitá-lo, manifestando plenamente a vitória da vida sobre a morte, que celebramos na Páscoa.
Pausa para reflexão
1. O que significa viver o Tempo Pascal como passagem da morte para a vida, nesse momento da minha vida?
2. De que maneira a ressurreição de Jesus manifesta a continuidade do projeto do Pai?
3. Seria interessante ler o Livro de Daniel, tendo como pano de fundo a seguinte pergunta: como a celebração pascal ilumina a leitura do Livro de Daniel?
Feliz Páscoa e um lindo itinerário de fé nesse período pascal.
Zuleica Aparecida Silvano, é irmã paulina, Biblista e assessora do Serviço de Animação Bíblica (SAB/Paulinas).
Para os encontros bíblicos sobre o Livro de Daniel, confira o subsídio: Mês da Bíblia 2026 – Livro de Daniel: Seu reino jamais será destruído (Dn 7,14). Já está disponível nas livrarias Paulinas ou pelo site: Acesse aqui.
Para obter informações sobre o minicurso: “Itinerário de fé na Bíblia”, acesse aqui.
