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Paulo Apóstolo: Experiência com Jesus

Foto: Arquivo Paulinas

Em junho, celebramos o martírio de Paulo, mas é importante falarmos da sua experiência com Jesus Cristo e assim contemplar a vida desse grande apóstolo. O Novo Testamento (NT) traz várias narrativas sobre a experiência com Jesus do Apóstolo Paulo.

Em Atos dos Apóstolos, é descrita por três vezes (At 9,1-22; 22,1-11 e 26,12-18), mas a encontramos também nas cartas consideradas não autênticas de Paulo (Ef 3,1-12) e nas Cartas Pastorais (1Tm 1,11-17). Porém, é interessante perceber o que o próprio Paulo escreveu, nas cartas autênticas, sobre sua experiência com Jesus Cristo. Além de algumas alusões que fez (1Cor 9,1-18; 1Cor 15,1-5; 2Cor 4,6; Fl 3,2-14), temos em Gl 1,11-16 uma descrição mais detalhada sobre essa experiência profunda com Jesus Cristo, que como veremos, coincide com sua vocação e missão.

Nesse relato, o Apóstolo reafirma a natureza (Gl 1,11) e a origem (v. 12) de seu evangelho, recebido por revelação de Deus. Para confirmar esse argumento central (vv. 11-12), traz vários conteúdos de cunho pessoal: sua formação judaica, seu fervor pelas tradições do judaísmo, sua experiência da revelação de Jesus Cristo na estrada de Damasco, a permanência em Damasco, e sua viagem à Arábia (região ao Sul de Damasco) e a Jerusalém (Gl 1,13-24). 

Paulo afirma que a experiência que fez com Cristo, foi um dom recebido gratuitamente de Deus, foi uma ação benevolente de Deus-Pai, que decidiu livremente revelar a ele que Jesus é o Messias e é seu Filho. Paulo era um judeu radical, da tradição farisaica, por isso afirma que tinha aversão às pessoas que aderiram ao movimento dos seguidores e seguidoras de Jesus, e sentia-se no dever de aniquilar essas comunidades.

Para os fariseus, Jesus não era o Messias, era um impostor, e o sinal claro de sua falsidade era ter morrido crucificado, morto como um maldito e não ter instaurado a justiça anunciada nas perspectivas messiânicas de seu tempo. Além disso, ele era um blasfemo, por declarar-se Filho de Deus. Deste modo, Paulo não poderia ficar indiferente e deixar os judeus serem enganados por esse falso messias e abandonarem as tradições judaicas.

Portanto, decide perseguir esses seguidores de Jesus. Ele não poderia prender, nem aplicar a punição disciplinar prescrita para esses casos, mas poderia levá-los até as autoridades judaicas legítimas que exerceriam tal julgamento e punição. 

É nesse contexto de aversão, que Deus improvisamente lhe revela Jesus Cristo. E Paulo, por meio dessa experiência, compreende qual é a sua vocação e conhece a sua missão. Isso é claro em Gl 1,16, quando o Apóstolo afirma que Deus Pai decidiu lhe revelar o seu Filho e lhe conceder a missão de anunciá-lo entre as nações.

Essa revelação consiste numa experiência pessoal, profunda (“em mim”), transformadora de encontro com Jesus Cristo, o Filho de Deus (Fl 3,4-11; 2Cor 4,6; 1Cor 9,1; 15,8-10), sendo essa um mistério divino (1Ts 1,10; 1Cor 1,9; 2Cor 1,19).

Foi uma experiência envolvente, transformadora que tem como conteúdo afirmar que Jesus de Nazaré, o crucificado, é não só o messias (Cristo) esperado por Israel, mas também o Filho de Deus. Essa experiência fundamenta sua vocação e missão, que, como vimos, não consiste em anunciar o Evangelho para o povo de Israel, ou às pessoas de cultura judaica, mas para todos. Paulo não esperava, pelo contrário, rejeitava essa revelação.

Assim, percebe que sua experiência parte de um desvelar o amor de Deus-Pai que, por meio de Jesus Cristo, revela seu projeto, sem que Paulo tenha feito nenhum esforço de sua parte, nem tomado alguma iniciativa humana. A revelação a ele é um dom de Deus, uma decisão divina e misericordiosa que o surpreende. 

Para narrar sua experiência, Paulo une duas tradições proféticas. Primeiro, a vocação de Jeremias, antes do nascimento (Jr 1,5-10), servindo-se da sequência: vocação, separado/santificado e missão; depois, a tradição de Isaías, com a unidade entre vocação-missão e revelação (Is 6,1-13), e com a vocação do servo do Senhor (Is 49,1.9; 50,4).

Ao afirmar que foi chamado antes no ventre materno, Paulo deseja dizer que foi um dom que não partiu do seu mérito, é Deus que o elege e o chama, é algo que parte da iniciativa e da gratuidade divina. Mas, ele precisou dar sua resposta, Deus não impõe, simplesmente chama e apresenta a missão: anunciar o amor de Deus para todas as nações.

Ao dar a sua resposta, aderindo a Jesus e assumindo sua vocação e missão, Paulo dá testemunho daquilo que experimentou desse amor, anuncia o Messianismo de Jesus, sua filiação divina, e a redenção, que é oferecida gratuitamente para toda a humanidade, mediante a fé em Cristo. Assim, a experiência em Damasco funde-se com um chamado. 

A vocação do Apóstolo não é uma conversão moral, na qual ele passa de mau, para bom. Ele era fiel às tradições judaicas. Também não há uma conversão como mudança de religião, dado que Paulo continua pertencendo à tradição judaica.

O que ocorre é uma mudança de mentalidade, quando ele compreende quem é Jesus e qual é a sua missão ao se consagrar a Deus. Mas a vocação do Apóstolo se desenvolve numa comunidade de fé.

De fato, ninguém pode ser cristão, sem uma comunidade para viver a vocação batismal. É na comunidade, na Igreja, que se assume a missão de anunciar o amor de Deus Pai revelado em Jesus Cristo como plano salvífico de amor para a humanidade.

O Apóstolo Paulo entende que o ponto de partida da vocação missionária não é o seu esforço, nem a pergunta fundamental se ele ama ou não a Deus; mas a pergunta é outra, ele deve se questionar até que ponto permite que Deus o ame, que se revele em Jesus Cristo.

É nesse deixar-se amar, que Paulo compreende sua missão e vocação e nada mais irá impedi-lo de proclamar o Evangelho, tornando-se o Apóstolo das nações. 

 

Zuleica Aparecida Silvano é irmã paulina e assessora do Serviço de Animação Bíblica – SAB/Paulinas.

 

 

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