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Certas lembranças não envelhecem. O calendário avança, a vida muda, novos afetos chegam, mas algumas palavras continuam dentro de nós como se tivessem sido pronunciadas ontem. O tempo passa; nem sempre a dor passa com ele. É justamente nesse território entre memória e ferida que o perdão começa.
Ao contrário do que muitas vezes ouvimos, perdoar não é esquecer. É preciso mergulhar na memória para perdoar. Voltar ao que aconteceu, reconhecer a raiva, a tristeza, a humilhação, o abandono. Aquilo que não encontra palavras costuma encontrar outras maneiras de permanecer em nós.
A tradição bíblica conhece profundamente a força da memória. Israel aprende a recordar: “Lembra-te de todo o caminho pelo qual o Senhor teu Deus te conduziu” (Dt 8,2). Recordar, na Bíblia, não significa morar no passado. Significa atravessá-lo na presença de Deus.
Esse é o primeiro caminho do perdão: antes de olhar para quem nos feriu, olhar para aquilo que a ferida fez conosco. O que perdi? O que mudou em minha maneira de amar? Por que ainda dói? O perdão começa quando deixamos de fugir dessas perguntas.

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É preciso cuidado! Ninguém deveria ser obrigado a perdoar. Transformar o perdão em exigência moral pode produzir uma segunda violência sobre quem já sofreu a primeira. Existem dores que necessitam de tempo. Existem relações que não devem ser retomadas. Perdoar não significa reconciliar-se necessariamente, muito menos impedir que a justiça aconteça.
Uma memória reconciliada não é uma memória apagada. Trata-se de aprender a recordar sem ser condenado a repetir. A ferida pertence à minha história, mas não precisa definir minha identidade. Aquilo que fizeram comigo não possui o direito de decidir tudo aquilo que ainda posso ser.
É nesse ponto que a dimensão espiritual se torna decisiva. Há situações em que desejamos abandonar o ressentimento, mas simplesmente não conseguimos. A Graça começa onde nossa autossuficiência termina. Não como uma ordem divina — “você deve perdoar” —, mas como abertura de uma possibilidade.
“Onde está o Espírito do Senhor, aí está a liberdade” (2Cor 3,17). Talvez a oração mais verdadeira não seja “Senhor, eu perdoo”, quando ainda não conseguimos fazê-lo. Pode ser simplesmente: “Senhor, abre em mim a possibilidade de um dia perdoar.”

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Jesus radicaliza essa abertura. Quando Pedro pergunta quantas vezes deveria perdoar, Cristo responde: “setenta vezes sete” (Mt 18,22). Não é matemática moral. É justamente o fim da contabilidade. Jesus retira o perdão do território da obrigação e o coloca no horizonte infinito da Graça.
Na cruz, essa possibilidade chega ao limite: “Pai, perdoa-lhes” (Lc 23,34). Quando tudo parece encerrado pela violência, Cristo abre futuro.

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Por isso, gosto de pensar o perdão como uma possibilidade poética. A poesia não modifica aquilo que aconteceu, mas permite enxergá-lo de outro lugar. O perdão também não reescreve o passado. Ele impede que o passado seja o único autor do futuro.
Essa intuição já está presente no Primeiro Testamento. José reencontra os irmãos que o venderam. Ele não esquece: reconhece, recorda e chora. Mas consegue dizer: “Vós planejastes o mal contra mim, mas Deus o transformou em bem” (Gn 50,20). O mal aconteceu, mas não ganhou o direito de escrever o final.

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Podemos resumir essa experiência em uma expressão: “Vejo novamente você.”
Perdoar é aprender a olhar novamente. Primeiro para si. Depois, para a própria história. E, quando possível, para quem nos feriu. “Vejo novamente você” não significa “esqueci o que você fez”. Significa: “o que você fez já não é tudo o que consigo ver quando olho para você.”
O Ressuscitado talvez seja a imagem definitiva dessa esperança. Cristo retorna trazendo as marcas da cruz. As cicatrizes permanecem, mas a morte já não determina seu destino.
Assim também acontece conosco. O perdão não exige uma vida sem cicatrizes. Ele nasce quando conseguimos olhar para elas sem permitir que sejam toda a nossa história.
Perdoar é recuperar futuro.
É justamente isso que o Espírito realiza silenciosamente em nós: não apaga a memória, mas abre dentro dela um espaço onde a liberdade pode novamente nascer.
René Dentz é psicanalista, pós-doc pela Freiburg Universität, na Suíça, professor de Filosofia da PUC-Minas, autor finalista do Jabuti Acadêmico 2025 com o livro “Perdão: diálogos entre a filosofia e a teologia” (Paulinas Editora), comentarista da Rádio Itatiaia (BH) e pai da Sofia e da Beatriz.
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