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No contexto contemporâneo, a saúde mental tornou-se um tema central – inclusive no âmbito eclesial, onde o sofrimento psíquico historicamente recebeu atenção limitada.
Segundo o psicólogo e pesquisador Vagner Sanagiotto essa resistência ainda existe no meio religioso. “Em muitos casos, essa resistência está ligada ao desconhecimento sobre o papel da psicologia ou ao receio de exposição e julgamento. Também existe, por vezes, uma compreensão limitada do que seja o acompanhamento psicológico. No entanto, percebo uma abertura crescente, sobretudo entre as novas gerações”, afirma.

Psicólogo e pesquisador Vagner Sanagiotto. Foto: Arquivo Pessoal
Especialistas apontam que, nesse campo, não há espaço para improvisações, o que tem impulsionado a produção de estudos que integrem dimensões psicológicas, espirituais e formativas.
O pesquisador vem se consolidando como uma das principais referências internacionais na área. Com formação doutoral pela Università Pontificia Salesiana, em Roma, Sanagiotto, que é religioso da ordem Carmelita, dedica-se ao estudo da saúde mental aplicada à vida religiosa consagrada e presbiteral, com foco em temas como burnout, sofrimento psíquico, inteligência emocional, processos formativos e estratégias de prevenção.
“Ao acompanhar processos formativos, fui identificando demandas humanas, afetivas e relacionais muito específicas, que nem sempre eram contempladas pela psicologia tradicional. Ao mesmo tempo, notei uma lacuna significativa na produção científica que articulasse, de modo consistente, psicologia e vida religiosa consagrada ou presbiteral. Essa experiência prática, aliada à ausência de estudos mais sistematizados, revelou um campo fecundo a ser desbravado.”

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A produção científica de Sanagiotto tem contribuído para suprir uma lacuna histórica: a escassez de pesquisas sistemáticas sobre a saúde mental de padres e religiosos (as) consagrados (as), especialmente no contexto eclesial brasileiro. Entre os estudos de maior repercussão está a investigação sobre a relação entre inteligência emocional e traços de personalidade psicopatológicos em religiosos, que evidenciou correlações relevantes para o acompanhamento psicológico e a formação.
“Durante os estudos, observei que níveis mais desenvolvidos de inteligência emocional estão associados a uma maior capacidade de regulação afetiva, empatia e adaptação nas relações interpessoais, funcionando como fator de proteção frente a traços de personalidade com características psicopatológicas. Por outro lado, déficits nessa dimensão podem favorecer dificuldades na vivência comunitária, no manejo das emoções e na integração da própria experiência vocacional, impactando a qualidade do percurso formativo”, afirma.
Outro eixo importante de sua pesquisa diz respeito à síndrome de burnout. Em diferentes estudos empíricos, Sanagiotto identificou níveis significativos de exaustão emocional e despersonalização entre membros do clero, destacando fatores de risco e a urgência de medidas preventivas. Esses dados vêm sendo utilizados como referência em pesquisas acadêmicas e programas formativos em diversos países.

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A consistência de sua produção também se expressa em uma ampla bibliografia, que inclui livros, capítulos e artigos publicados em periódicos nacionais e internacionais. Entre as obras destacam-se títulos voltados à relação entre saúde mental e vocação, à formação presbiteral e religiosa, ao psicodiagnóstico e à prevenção de psicopatologias no contexto eclesial.
“A saúde mental no contexto da vida religiosa e presbiteral – Entre desafios e esperanças”, lançada pela Paulinas Editora, aborda de maneira profunda e sensível o cuidado psicológico dos consagrados e presbíteros.
Também publicado pelas Paulinas, “Aspectos psicológicos do discernimento vocacional - Itinerário formativo para o discernimento das vocações” aponta que tal processo passa pelo conhecimento do próprio mundo intrapsíquico, das próprias atitudes, das próprias motivações, mas também das fragilidades e medos, harmonizando o que caracteriza cada pessoa, numa mesma perspectiva vocacional.
O livro recém-lançad, Redescoberta vocacional na formação permanente - Aspectos psicológicos, estrutura-se sobreduas hastes que se unificam por um ponto de convergência: a primeira delas é a teoria que sustenta o percurso formativo do/a religioso/a consagrado/a ou do presbítero, apoiado na teologia; a segunda haste diz respeito à contribuição do saber das ciências humanas, especificamente a psicologia. As várias abordagens psicológicas, principalmente aquelas abertas à transcendência, colocam-se em uma perspectiva bastante específica: contribuir para o conhecimento das profundezas do ser humano. as ciências psicológicas podem ajudar a realizar este caminho, integrando a psiquê ao espiritual, para descobrir o sentido vocacional da própria existência, sendo realizado na vida cotidiana.
Publicações recentes também abordam temas como qualidade de vida, envelhecimento na vida consagrada, discernimento vocacional e gestão das crises formativas.
Além do meio acadêmico, o pesquisador tem ampliado sua presença no debate público. Em entrevistas e participações em veículos especializados, tem chamado atenção para o persistente tabu em torno da saúde mental no ambiente eclesial, frequentemente associado à ideia de que a fé, por si só, seria suficiente para neutralizar o sofrimento psíquico.
“Durante muito tempo, a psicologia foi vista com desconfiança ou como algo que poderia ameaçar a dimensão espiritual. Além disso, ainda persiste a ideia de que buscar ajuda psicológica seja sinal de fragilidade ou de inadequação vocacional”, explica.

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Segundo ele, há um aumento significativo de casos de ansiedade, depressão e burnout entre religiosos e presbíteros, o que reforça a necessidade de políticas estruturadas de cuidado e acompanhamento psicológico.
Para especialistas, a relevância do trabalho de Sanagiotto está na capacidade de articular rigor científico, reflexão teórica e aplicação prática. Ao enfatizar o cuidado com aqueles que exercem funções de cuidado – como padres e religiosos (as) consagrados (as) –, sua produção científica tem influenciado não apenas o meio acadêmico, mas também diretrizes formativas em congregações religiosas, institutos seculares e dioceses, que têm mudado a compreensão sobre o tema.
“Há uma crescente valorização da psicologia como mediação qualificada no processo formativo, bem como maior abertura, por parte das instituições, para o acompanhamento psicológico. Embora ainda existam resistências, o caminho aponta para uma compreensão mais integrada da pessoa, na qual o cuidado com a dimensão psíquica é reconhecido como essencial para o amadurecimento humano e vocacional”, garante o profissional.
Com uma trajetória marcada por crescimento consistente e reconhecimento internacional, Vagner Sanagiotto se firma como uma das principais vozes em um campo ainda em desenvolvimento, contribuindo para a construção de uma cultura de cuidado integral no contexto eclesial.
