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O futebol nasceu como espaço de encontro, emoção e pertencimento. Mas, em muitos momentos, a paixão pelo time ultrapassa os limites do esporte e se transforma em violência. Brigas entre torcidas, agressões e discursos de ódio revelam que o problema vai muito além do resultado dentro de campo.
Para o professor de Educação Física e pesquisador das dimensões socioculturais do esporte, Narayana Astra van Amstel, o futebol reúne características que ajudam a explicar por que a violência aparece de forma tão recorrente nesse ambiente. “O futebol concentra rivalidades históricas, enorme identificação popular, ligação territorial e multidões vivendo emoções intensas ao mesmo tempo”, explica.
Muito além do “efeito manada”
Durante muito tempo, a violência nas torcidas foi explicada pela chamada “psicologia das multidões”, ideia de que as pessoas perderiam a racionalidade ao agir em grupo. Hoje, porém, os estudos apontam que o fenômeno é mais complexo.

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Questões sociais como pobreza, falta de perspectivas, violência doméstica, necessidade de reconhecimento e sentimentos de exclusão também ajudam a compreender por que alguns grupos encontram no confronto uma forma de pertencimento e validação.
Ao mesmo tempo, o futebol possui uma dimensão simbólica poderosa. O estádio se transforma em espaço de identidade coletiva: cores, cantos, bandeiras e rituais fortalecem o sentimento de fazer parte de algo maior. “Para muitos jovens, a torcida funciona quase como uma família simbólica”, afirma.
Quando o rival vira inimigo
Segundo Narayana, a lógica do “nós contra eles” faz parte do esporte. Afinal, toda competição pressupõe adversários. O problema começa quando essa rivalidade perde seus limites. “Quando o adversário deixa de ser visto apenas como rival esportivo e passa a ser tratado como inimigo, surgem hostilidade, desumanização e a ideia de que agredir o outro seria justificável”, alerta.

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Nesse cenário, clubes, dirigentes, mídia esportiva e influenciadores também possuem responsabilidade. Discursos agressivos, linguagem de guerra e incentivo à humilhação do rival ajudam a alimentar uma cultura de violência.
Por outro lado, quando o esporte promove respeito, fair play e convivência saudável, ele pode se tornar uma ferramenta de educação para a paz.
Paixão saudável ou idolatria?
O pesquisador chama atenção para a diferença entre paixão esportiva e idolatria. Para ele, torcer se torna problemático quando o clube ocupa um lugar absoluto na vida da pessoa. “A paixão pelo time é saudável quando permanece subordinada a valores morais mais altos do que o próprio clube”, afirma.

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Segundo ele, o modo de torcer também é aprendido desde a infância. Crianças que crescem vendo adultos respeitando adversários e sabendo lidar com derrotas tendem a reproduzir esse comportamento no futuro. “O futebol pode ser escola de convivência, de aprender a perder sem se destruir e a ganhar sem humilhar”, conclui.
Em um cenário marcado por discursos agressivos e polarização, o desafio é resgatar o sentido humano do esporte. Mais do que alimentar rivalidades destrutivas, o futebol pode voltar a ser espaço de encontro, convivência e respeito às diferenças. A cultura de paz nas arquibancadas começa fora delas: na família, na escola, na mídia e na maneira como a sociedade ensina as novas gerações a competir sem transformar o outro em inimigo.
Saiba como o esporte pode ser uma ferramenta real de educação para a paz e a fraternidade: Entrevista | “O futebol não cria sozinho a violência, mas amplifica tensões que já existem na sociedade”
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