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Uma imagem que comove, um poema que permanece na memória, uma música que desperta algo difícil de explicar. Há experiências de beleza que interrompem a pressa, despertam a sensibilidade e abrem espaço para uma pergunta maior: o que existe para além daquilo que os olhos conseguem ver?
Na experiência cristã, a beleza pode ser justamente esse caminho. Ela pode conduzir ao encontro com uma realidade que nos ultrapassa e, por isso, contribuir para a vida espiritual e favorecer a oração.
Para Romolo Picoli Ronchetti, artista sacro e professor do Museu de Arte Sacra de São Paulo (SP), a verdadeira arte sacra provoca uma experiência de transcendência porque manifesta, na matéria, algo do mistério de Cristo. Seu propósito não é prender o olhar àquilo que é representado, mas ajudá-lo a ir além da aparência.

"Somos atraídos pela beleza, mas a questão é descobrir para onde ela nos conduz”, afirma Romolo Ronchetti. Foto: Arquivo pessoal
“Arte sacra é capaz de provocar uma experiência de transcendência e diálogo com Deus, quando ela é verdadeira, ou seja, quando ela é o sinal de uma presença, manifestando na matéria o mistério de Cristo”, explica.
Da representação à presença
Uma obra pode representar uma cena ou um acontecimento religioso, mas seu propósito não se encerra naquilo que está diante dos olhos. Para Romolo Ronchetti, a arte sacra deve conduzir o observador para além da própria imagem.
Quando a atenção fica presa aos detalhes ou à habilidade técnica, o olhar permanece apenas no nível da representação. A verdadeira arte sacra, ao contrário, possibilita uma “passagem de nível”: daquilo que é visível para aquilo que é contemplado pela fé.

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“Ela faz ver para além do aspecto sensível, remetendo o sujeito à presença do representado”, afirma. A beleza torna-se, assim, uma espécie de transparência: não chama a atenção apenas para si, mas aponta para algo maior.
Essa experiência não se restringe às artes visuais. Pintura, escultura, música, poesia e literatura também podem ser caminhos para a experiência de Deus. Na perspectiva cristã, esse encontro está ligado à própria encarnação: Deus não é uma ideia abstrata, mas aquele que se fez carne e tem um rosto.
Uma beleza para além de si
Mas por que a beleza tem tanta força? “Porque ela alcança diretamente o coração, sem depender primeiro da razão. Somos atraídos pela beleza, mas a questão é descobrir para onde ela nos conduz”, afirma o professor.

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Em uma cultura marcada pelo excesso de imagens e pela exposição nas redes sociais, a beleza pode se tornar objeto de consumo, comparação e busca pela perfeição. Quando reduzida ao prazer dos sentidos, atrai o olhar para si mesma e pode se transformar, nas palavras do artista, no “bezerro de ouro” dos nossos dias.
A beleza que favorece a vida espiritual, porém, aponta para além de si. É expressão sensível do Bem e da Verdade. “Ela atrai o espírito sempre para além de si própria, levando até a sua fonte, que é Deus”, explica.
Diante de uma obra, um poema ou uma música, essa experiência pode abrir espaço para o silêncio interior. Em vez de consumir rapidamente, somos convidados a permanecer: olhar, escutar, contemplar.

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Educar os sentidos para contemplar
Esse é um desafio em uma sociedade acostumada à velocidade. Passamos rapidamente pelas imagens, lemos superficialmente, pulamos músicas e alternamos constantemente entre estímulos. “É preciso educar nossos sentidos à vagareza da vida, recuperando a atenção necessária para perceber aquilo que não se revela de imediato”, declara o professor.
A Liturgia pode ser um caminho para esse aprendizado. Nela, os sentidos são envolvidos e educados para perceber uma realidade espiritual presente nas coisas sensíveis: vemos, tocamos, sentimos o gosto do pão e reconhecemos Cristo; vemos a água do Batismo e nela reconhecemos o sinal de uma vida nova.

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“A vagarosidade e a transfiguração da matéria do mundo que acontece numa Liturgia bem celebrada são o antídoto mais eficaz para pararmos de olhar para a pedra e vermos apenas pedra”, afirma.
Talvez esse seja também o convite da beleza no cotidiano: olhar novamente. Escutar uma música com atenção, deixar que um poema nos alcance, contemplar a criação ou participar da Liturgia sem pressa.
Quando aprendemos a olhar de outra maneira, aquilo que parecia apenas matéria, som, palavra ou imagem pode se tornar uma abertura para o mistério. A arte, então, cumpre uma de suas vocações mais profundas: ensinar nossos olhos, nossos ouvidos e nosso coração a enxergar além.
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